Nelson Perez/FluminenseF.C.
Nelson Perez/FluminenseF.C.

Fred se aposenta e deixa série de histórias no futebol, como apelo do pai para ele jogar a Copinha

Atacante pendura as chuteiras aos 38 anos em trajetória vitoriosa no Brasil e na Europa, com mais de 400 gols; jogador sai de cena como um dos grandes ídolos do Fluminense e tendo conquistado títulos por onde passou — e algumas polêmicas também

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2022 | 10h00

Foi em um espaço de apenas três segundos que a vida do atacante Fred mudou completamente no início de 2003. O gol marcado por ele foi o único do América-MG na goleada sofrida para o Vila Nova por 5 a 1 na Copa São Paulo de Futebol Júnior, mas a rapidez com que foi anotado teve repercussão mundial. A pintura de Fred, que havia sido expulso no primeiro jogo da competição e cumprido suspensão na segunda partida, colocou o time mineiro e o próprio atleta em evidência e mudou sua trajetória no futebol.

O atacante, que não estava previsto para subir aos profissionais do América-MG, passou então a receber sua oportunidade no time principal. Dezenove anos depois, ele se aposentou do futebol como um dos maiores centroavantes brasileiros de sua geração, após títulos, recordes e mais de 400 gols na carreira.

Com uma grande festa em um Maracanã lotado, o Fluminense enfrentou o Ceará no Brasileirão,  sábado, mas todos os torcedores presentes estavam mais preocupados com o atacante, que se despediu dos gramados após a partida em festa bonita e bem organizada. Segundo maior artilheiro do clube carioca e também do Campeonato Brasileiro, o ídolo tricolor é também o maior goleador da história da Copa do Brasil, com 37 gols, e do Brasileirão nos pontos corridos, com 158. Também é o terceiro maior artilheiro brasileiro na Libertadores, com 25 bolas na rede.

"Ele é um dos melhores centroavantes do futebol brasileiro e talvez um dos últimos atacantes de área mesmo, finalizador, que não estamos vendo mais. Talvez apenas o Pedro, do Flamengo, seja como ele. Tivemos um bom convívio e ganhamos um título do Campeonato Brasileiro. Nem chegou a ter concorrência entre a gente. Eu estava no fim da minha carreira e ele no auge. Nós brincávamos muito, tínhamos uma amizade e respeito muito grandes. É um momento marcante para a carreira dele. Depois, vai curtir um pouco mais a família, o descanso e aí pensar em planos futuros, se já não os têm hoje", elogiou o ex-atacante Washington ao Estadão.

A história de Fred nem poderia ter acontecido já que o atacante não estava previsto para sequer ser inscrito pelo América-MG na Copa São Paulo. O pai do centroavante precisou intervir e mandou uma carta para um dirigente do clube para tentar fazer com que o filho disputasse a principal competição de futebol de base do Brasil.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. No início de julho deste ano, Fred marcou um dos gols da goleada do Fluminense sobre o Corinthians por 4 a 0, no Maracanã, e comemorou emocionado. A sincronia entre ídolo e torcida marcou um dos capítulos mais bonitos da história dos dois. Em momentos em que um precisou de ajuda, o outro estava presente.

Em 2009, o atacante desembarcou no Rio após quatro anos no Lyon para acertar com o Fluminense, então vice-campeão da Libertadores. Coube ao centroavante o papel de secar as lágrimas dos torcedores depois da perda do título sul-americano em pleno Maracanã. Mas o ano foi dramático para o clube. A equipe chegou a ter 99% de chances de ser rebaixada no Brasileirão e Fred foi um dos principais nomes do "milagre" do time, que escapou da queda.

No ano seguinte, o Fluminense viveu o outro lado da moeda. O centroavante agora foi decisivo na conquista do Campeonato Brasileiro, com gols importantes. Gol a gol, trilhou o caminho do sucesso e da idolatria. Dois anos depois, um novo título nacional com a equipe. 

Na seleção brasileira, Fred vestiu a pesada camisa 9 do Brasil e precisou lidar com as grandes cobranças. Esteve na Copa do Mundo de 2006 como reserva e, no Mundial de 2010, na África do Sul, foi preterido por nomes como Luis Fabiano e Grafite. Mais maduro, continuou marcando muitos gols e voltou à seleção pouco tempo depois. Na Copa das Confederações de 2013, disputada no Brasil, teve bom papel em campo e marcou um gol deitado no gramado na vitória da seleção sobre a Espanha, no Maracanã. Mas seu desempenho na Copa do Mundo disputada no ano seguinte foi aquém do esperado e o atacante foi bastante contestado, sendo chamado de “cone” por torcedores.

"Eu sou um bom centroavante e sou muito eficiente dentro da área. E nosso time não estava jogando de forma coletiva, um passando para o outro. E eu sofri mais por causa disso, porque eu necessito totalmente dos meus companheiros. Se eu tivesse drible, velocidade, eu poderia voltar um pouco mais", explicou ao canal Sportv anos depois.

Foi o próprio Fluminense quem abraçou Fred em seu momento mais crítico. O atacante recebeu o carinho dos torcedores e iniciou a sua volta por cima. As feridas abertas no Mundial no Brasil foram cicatrizadas nas Laranjeiras. 

A partir de 2016, o camisa 9 voltou a Minas Gerais e passou pelos rivais Atlético e Cruzeiro, alternando bons e maus momentos. No time celeste, estava no elenco que foi rebaixado no Brasileirão em 2019. Cair de divisão abalou o camisa 9. Foi no ano seguinte que retornou às Laranjeiras e voltou a sorrir para o capítulo final de sua carreira.

"Quando eu estava mais enfraquecido, abandonado, na lona, a única torcida que acreditou em mim foi a do Fluminense. Antes de voltar para o Fluminense, vivi momentos de muita tristeza, de querer abandonar a carreira. E o Fluminense, na pessoa do Mário Bittencourt (presidente) foi lá na roça, lá na fazenda. Eu estava me escondendo pelo rebaixamento do Cruzeiro, estava envergonhado, nunca tinha sido rebaixado, e o Mário confiou em mim e nesse projeto de reconstrução do clube. Hoje está sendo emocionante no meu penúltimo jogo, eu entrar e acabar fazendo gol", disse o atacante ao Premiere após a goleada sobre o Corinthians no início do mês.

Cinco momentos marcantes da carreira de Fred

Gol aos 3 segundos na Copa São Paulo - O gol marcado com apenas três segundos de jogo na goleada do Vila Nova sobre o América-MG por 5 a 1 na Copa São Paulo de Futebol Júnior teve repercussão mundial. O jogador não estava previsto para subir ao time principal do clube mineiro, mas a pintura mudou a opinião dos dirigentes.

Polêmica com conta de bar - A vida noturna de Fred foi bastante acompanhada por parte da imprensa esportiva. A notícia de que, ao lado de amigos, teriam consumido 60 doses de caipisaquês em um bar no Rio de Janeiro repercutiu mal. O jogador foi cobrado por torcedores e se defendeu em uma coletiva de imprensa, apresentando a comanda com “apenas” 28 doses.

Gol de voleio no centésimo Fla-Flu - No Carioca de 2012, Fred marcou o único gol — e de voleio — na vitória tricolor no centésimo clássico entre Flamengo e Fluminense na história. É considerado um dos gols mais bonitos de sua carreira.

Gol deitado na final das Copa das Confederações - Na aguardada decisão da Copa das Confederações de 2013, o Brasil venceu de forma convincente por 3 a 0 a Espanha, então campeã do mundo e bi da Eurocopa, com um gol de Fred, que balançou a rede adversária mesmo deitado no gramado.

Gols de título brasileiro - Com dois gols de Fred, o Fluminense bateu o Palmeiras fora de casa e garantiu seu quarto título do Campeonato Brasileiro, em 2012. O atacante foi decisivo na conquista.

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