Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Funcionária que acusa Caboclo de assédio relata ameaças recorrentes e intromissão em sua privacidade

Em depoimento obtido pelo Estadão, depoente afirma que dirigente teria dito que “acabaria com a sua carreira e que cada dia que ele perdesse de sono seria um dia a menos para ela”

Weslley Galzo/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 16h14

Vítima de assédio moral e sexual de Rogério Caboclo, presidente afastado da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a denunciante dos abusos praticados pelo chefe da instituição símbolo da seleção brasileira relatou em depoimento à Comissão de Ética do Futebol Brasileiro ter sido alvo de intromissões não consentidas em sua privacidade e ameaças que punham em risco a sua vida. Caboclo nega as acusações (veja abaixo).

O Estadão teve acesso ao documento compartilhado com o Ministério Público Federal (MPF), onde constam relatos de um cotidiano perturbador de perseguição e violência psicológica. Segundo a funcionária, Caboclo teria dito que “acabaria com a sua carreira e que cada dia que ele perdesse de sono seria um dia a menos para ela”. O presidente da CBF foi afastado no dia 6 de junho pela Comissão de Ética. No último dia 3 de julho, o afastamento foi prorrogado por mais 60 dias. Os registros obtidos pelo Estadão apenas reproduzem declarações apresentadas pela secretária aos conselheiros de futebol.

O depoimento foi colhido no dia 14 de junho, dez dias depois de terem sido revelados os áudios gravados pela vítima, em que o presidente afastado da CBF foi flagrado em conversas constrangedoras assediando a funcionária. As gravações mostram que Caboclo não tinha pudores ao fazer questionamentos de foro íntimo. Na ocasião, ele chegou a perguntar à secretária: “você se masturba?”.

Conforme consta no documento, nesse mesmo dia Caboclo teria chamado a funcionária para acompanhá-lo ao jardim de inverno contíguo ao seu gabinete. Já havia anoitecido, e, conforme a descrição, ele a levou para o “lugar sombreado, que conta apenas com iluminação indireta, onde [Rogério Caboclo] estava bebendo vinho”. Lá, teria pedido que ela retirasse a máscara de proteção contra a Covid-19 e oferecido vinho, ambos negados pela secretária, que vivenciou infortúnios na relação com o então chefe.

“No que a declarante negou, passou a falar coisas desconexas porém de temas desagradáveis à declarante, chegando a declarar que tinha ‘umas 200 putas’ em sua agenda de celular, emendando em seguida ‘200 não, mas umas 20’, referindo-se de forma chula a prostitutas”, retrata o documento. 

Assustada, a depoente disse ter pedido a ajuda a dois diretores por um aplicativo de mensagem. Um deles, que ainda se encontrava na instituição, chegou a ficar alguns minutos na sala do presidente na tentativa de ajudá-la, mas, após a sua saída, Caboclo teria retomado as investidas. Foi então que ela decidiu gravá-lo.

O registro é apenas um dos diversos eventos de abuso relatados pela ex-funcionária da CBF. Ela conta que seu ex-chefe tecia constantemente comentários sobre seu corpo e sua aparência física, e chegou a dizer que ela “deveria mudar as vestimentas, que, segundo ele, seriam inadequadas”. Caboclo dizia ser “inacreditável que, com esses atributos, (a secretária) ainda estivesse solteira”. A pressão sobre a conduta exigida chegava ao ponto de o dirigente cercear a liberdade de sua subordinada sobre o próprio corpo, com orientações como “fazer luzes” nos cabelos e “usar cílios postiços". 

“Para tanto, ofereceu os meios para que a declarante comprasse novas roupas e fosse a um salão de beleza para [fazer] as mudanças que julgava que a declarante deveria fazer”, diz o trecho do documento obtido pelo Estadão. A secretária afirmou ter atendido às ordens do chefe. A vítima também afirma que sua vida pessoal já foi pauta de reunião conduzida pelo presidente.

No dia 21 de setembro de 2020, Caboclo reuniu oito diretores para anunciar um noivado não existente de sua secretária com um colega de serviço. Na verdade, a vítima tinha passado a dividir o apartamento com um amigo do trabalho para que ele não expusesse a mãe ao vírus de Covid-19.

“O clima foi de constrangimento por parte dos presentes, e mais ainda pela declarante, que ficou imensamente incomodada e sem ação e, ainda assim, permaneceu no local até que todos fossem liberados”, consta no depoimento.

A perseguição e violação moral incessantes no ambiente de trabalho teria levado a vítima a sofrer distúrbios psicológicos. “Diante da radical mudança de postura da declarante, bem como de suas reações de crises de ansiedade e extremo nervosismo quando na presença de Rogério Caboclo, este passou a oferecer toda sorte de auxílio, por exemplo, afastamento do trabalho e ajuda financeira”, consta no documento, em possível tentativa de coagir a depoente a não denunciar. 

ALCOOLISMO

Das cinco páginas que compõem o depoimento, duas são dedicadas aos relatos de eventual comportamento alcoólatra por parte de Rogério Caboclo. De acordo com a depoente, o presidente afastado da CBF ingeria bebidas alcoólicas durante o expediente na sede da instituição e em compromissos externos.

 “A ingestão de bebidas alcoólicas uoltrapassava até mesmo a medida do razoável e socialmente aceito fora do ambiente laboral, podendo afirmar que era nítido o exagero, o efeito sobre suas atitudes e decisões, bem como sobre sua forma de se expressar”, diz o documento, que transcreve depoimento da vítima ao Conselho de Ética de Futebol. 

Em um dos eventos narrados pela ex-secretária, Caboclo teria se apresentado alterado em público no “Prêmio Brasileirão 2020”. Segundo ela, a equipe da CBF havia redigido um discurso de quatro minutos, que foi substituído por uma fala extensa de vinte minutos de improviso. A ex-funcionária conta que, como a esposa e os filhos do presidente estavam presentes, a orientação costumeira de que garrafas de vinhos fossem deixadas no banheiro de seu gabinete foi alterada para que as bebidas ficassem na sala da vice-presidência, que estava desocupada.

O vinho de sua escolha era sempre o português  “Cartuxa Reserva”, que custa de R$ 239,00 a R$ 800,00. O vício em álcool era custeado pelo setor de compras da CBF, vinculado à Diretoria Financeira. O diretor, porém, não era consultado sobre as compras que eram autorizadas diretamente por Caboclo. 

Em viagens a trabalho, a secretária era ordenada a pedir as garrafas de vinho em sua comanda do hotel e levá-las ao quarto de Caboclo, de modo que os registros de consumo excessivo não constassem no nome do presidente da CBF.

Segundo declarou a depoente, a CBF proíbe o consumo de bebida alcoólica por funcionários no ambiente de trabalho. Portanto, caso algum diretor tivesse acesso às comandas em nome da secretária, ela seria “imensamente prejudicada”

O então presidente da CBF beberia em média duas garrafas por dia, segundo a depoente. Ela explica: “Tais garrafas eram mantidas na estação de trabalho da declarante e, quando solicitada, deveria deixar a garrafa já aberta no banheiro do gabinete, de uso exclusivo do presidente da CBF, acompanhada de uma taça; isso acontecia diariamente após o almoço, e o consumo durava toda tarde até o término do expediente”.

“O consumo de bebida alcoólica por Rogério Caboclo era de conhecimento geral dentro da CBF, sendo bastante comum que diretores, antes de pedirem para despachar ou conversar com ele, perguntassem à declarante ‘como ele está?’, referindo-se ao seu estado em razão do consumo de álcool até aquele determinado momento”, disse a secretária em seu relato.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ROGÉRIO CABOCLO:

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, afirma haver uma armação contra ele, contra a CBF e contra os clubes orquestrada por Marco Polo Del Nero, banido do futebol e investigado pela Polícia Federal, para retomar o controle da entidade por meio de laranjas. Caboclo recebeu, por meio de terceiros, a ameaça de que, caso a CBF não pagasse R$ 12 milhões para a funcionária citada pela reportagem, ela o acusaria de assédio.

Seguem as respostas:

1 – A defesa atesta as declarações de que Rogério Cabloco consumia excessivamente bebidas alcoólicas, inclusive em compromissos de trabalho na sede da CBF? 

Nega veementemente. Trata-se de indecente mentira. 

2 – A defesa atesta que Caboclo se sobrepunha a um diretor ao ordenar diretamente que a funcionária que fez a denúncia comprasse as garrafas de vinho que ficavam armazenadas na estação de trabalho da denunciante? Comente.

Rogério Caboclo afirma que nunca tratou de compra de vinhos com a funcionária. Ela afirmou em depoimento à própria Comissão de Ética que as compras de bebidas alcoólicas abasteciam os eventos da entidade e que nunca viu Caboclo bebendo. 

3 – Membros da instituição tinham conhecimento do consumo frequente de bebidas?

O presidente Rogério Caboclo rechaça a informação de que armazenava garrafas de vinhos em qualquer dependência de sua sala. Caboclo também afirma que jamais teve qualquer tipo de problema com alcoolismo ou qualquer outro tipo de vício. 

Esta é mais uma tentativa rasteira de criar um carimbo de vício que deponha contra a minha reputação. 

4 – Rogério Caboclo possui um quadro de alcoolismo diagnosticado?

A afirmação é improcedente.

5 – Segundo declarou a secretária, a CBF proíbe o consumo de bebida alcoólica por funcionários durante o ambiente de trabalho. Portanto, caso algum diretor tivesse acesso às comandas em nome da secretária, ela seria “imensamente prejudicada”. Caboclo tinha conhecimento de que poderia prejudicar a carreira da denunciante ao solicitar as bebidas?

A informação é absolutamente inverídica.

6 – Rogério Caboclo já participou de reuniões sob efeito de bebidas alcoólicas? A denunciante cita ao menos três eventos em que ele teria se apresentado publicamente em estado de embriaguez. Os eventos ocorreram?

 O presidente Rogério Caboclo jamais participou, como já foi dito, de qualquer reunião tendo ingerido bebida alcoólica. Assim como já dito, não utilizou bebidas durante o expediente.

7 – “Eram constantes os comentários feitos pelo investigado a respeito da vida pessoal e amorosa (suposta ou real) da declarante e também a sua aparência física” . As intromissões na privacidade da vítima e os comentários impertinentes de fato ocorriam?

 A informação é fantasiosa e Rogério Caboclo nunca teve preocupação com a aparência da acusadora a não ser quando solicitou a ela que observasse um padrão de vestimenta apropriado para a função que exerce, como é normal em qualquer empresa. 

8 –  É verdade que o presidente da CBF teria feito comentários sobre a aparência física e corpo de suas funcionários em evento internacional? O denunciado considera esse tipo de comportamento pertinente em ambiente profissional?

Rogério Caboclo nega terminantemente que tenha feito qualquer afirmação nesse sentido.  

9 - Em reunião no dia 21 de setembro de 2020, na presença de outros diretores de competição, o presidente da CBF teria anunciado que a depoente havia noivado com um colega de trabalho. O acusado reconhece as circunstâncias e ações ocorridas na reunião? 

Em relação ao comentário sobre o noivado, o episódio ocorreu durante despachos corriqueiros com diretores que estavam na sala da presidência, ocasião em que a acusadora espontaneamente entrou no recinto e houve um breve comentário, em ambiente informal e entre amigos. Foi, portanto, uma brincadeira que era corriqueira nos corredores da entidade.

10 – Em encontro na casa de Caboclo, o acusado teria dito que a depoente era "cadelinha de Manoel". Na ocasião, ele teria insistido que a vítima comesse um biscoito canino e latia enquanto fazia as investidas. A declaração procede? O denunciado considera esse tipo de comportamento pertinente em ambiente profissional?

Em relação ao episódio ocorrido na casa de Rogério Caboclo, em São Paulo, ele não reconhece os termos relatados pela acusadora e nega a questão alusiva aos biscoitos de cachorro. Mas no diálogo gravado por ela, o presidente se desculpou pela maneira como teceu o comentário, afirmando que sua intenção jamais foi prejudicar ou ofender a funcionária. A secretária que, agora, acusa Caboclo de assédio, frequentemente o procurava para falar de sua vida particular e amorosa. Na relação de amizade que mantinham, ele sempre buscou consolá-la e incentivá-la a superar as tristezas do passado.

11 – No dia seguinte, Caboclo não se desculpou pelo assédio e passou a dizer que não iria mais tratar de assuntos pessoais com a secretária e que ela deveria romper qualquer laço de amizade ou amoroso que tivesse com colegas de trabalho na CBF. O acusado confirma as acusações? O denunciado considera pertinente dar ordens que fogem à esfera profissional da vida da denunciante?

Rogério Caboclo esclarece que, pelo mal-entendido ocorrido, dali em diante se recusaria a conversar sobre assuntos de cunho pessoal com a funcionária.

12 –Caboclo passou a determinar como a denunciante deveria se vestir e se portar no ambiente de trabalho? 

Não. O presidente nega as acusações sobre mudanças físicas e reconhece apenas a questão já esclarecida sobre o “dress code” (padrão de vestimenta) adequado para a função que ela exercia. 

13 – Ele confirma ter oferecido dinheiro para que a denunciante fizesse as mudanças que ele julgava necessárias?

Sim. 

14 –No episódio em que o motorista compareceu na porta da casa da irmã da denunciante, a ordem partiu de Rogério Caboclo? 

Não houve, absolutamente, o conhecimento prévio ou autorização de Rogério Caboclo para que tal visita fosse realizada. Tão logo soube do acontecido, o presidente da CBF repreendeu duramente o funcionário por seu ato. O motorista foi por vontade própria e sem o conhecimento de Caboclo, o que Gilliard reconhece em depoimento.  “A respeito do narrado na denúncia sobre sua ida à casa da irmã da senhorita (nome da denunciante), esclarece QUE quando do afastamento dela do trabalho, sem saber o motivo para tal, em determinado dia que foi até uma farmácia próxima à casa da senhora (nome da irmã da denunciante), irmã de (nome da denunciante), endereço que conhecia por tê-la levado anteriormente, no mesmo bairro da CBF, Barra da Tijuca, resolveu procurá-la e saber como ela estava. Ali chegando, quando se preparava para apertar o interfone, a senhora (irmã da denunciante), irmã de (nome da denunciante), apareceu na varanda, tendo respondido ao depoente que (nome da denunciante) não estava no apartamento naquele momento. QUE pediu que a senhora (nome da irmã da denunciante) dissesse à senhorita (nome da denunciante) que o depoente estivera ali para saber notícias dela e que deixara lembranças; QUE posteriormente foi perguntado pelo presidente Rogerio Caboclo se havia estado na casa da irmã da senhorita (nome da denunciante), tendo o depoente confirmado; QUE Rogério Caboclo chamou sua atenção e o repreendeu por tê-lo feito, o que deixou o depoente bastante chateado pois teve aquele gesto apenas como forma de atenção que sempre devotou aos seus colegas; QUE reconheceu prontamente seu erro por ter tido aquele gesto, especialmente utilizando o veículo do trabalho e vestimenta de trabalho; QUE nada fez por mal, ao contrário, é de sua índole e de seus costume ter esses pequenos gestos para tornar o ambiente de trabalho mais leve; QUE já aconteceu de levar um bombom, um vasinho de flores para alguém de seu convívio profissional que porventura estivesse triste ou simplesmente para fazer um agrado; QUE certamente a senhorita (nome da denunciante) relatou sua ida à casa da irmã a alguém da CBF e acabou chegando aos ouvidos do presidente Rogério Caboclo; QUE o presidente Rogerio Caboclo nunca o destratou, sempre foi muito educado, assim como sua família”

15 -   A denunciante disse ter iniciado as gravações porque Caboclo a chamou para acompanhá-lo a “lugar sombreado, que conta apenas com iluminação indireta, onde estava bebendo vinho”. Caboclo a ofereceu vinho e pediu que ela tirasse a máscara - ela negou as duas coisas. Ele então teria começado a falar coisas desconexas: como que teria o contato de 200 prostitutas em sua agenda de celular. A descrição do ocorrido ocorreu conforme o relato da denunciante? 

A absurda declaração é mentirosa e maldosa.

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