Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Funcionária da CBF revela tentativa de acordo de Rogério Caboclo para omitir casos de assédio

Secretária voltou ao trabalho na CBF recentemente, mas ressalta: 'É uma dor que hora nenhuma sai de mim'

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 23h46

A secretária de Rogério Caboclo, cujo nome está sendo mantido em sigilo, revelou neste domingo novos detalhes sobre os assédios sofridos na sede CBF pelo seu presidente. A funcionária contou que sofreu seguidas intimidações e teve quadro grave de depressão após os episódios. Em tentativa de acordo, foram oferecidos a ela cursos na Europa, dinheiro para a compra de um novo apartamento e promoção na entidade com um bom plano de carreira. A secretária afirma, porém, que recusou qualquer acordo com o dirigente e, a partir daí, recebeu pedidos absurdos de Caboclo, como não revelar os casos de assédio e justificar sua ausência no trabalho como problemas familiares.

"Eu pedi para ele (Rogério) sair da presidência da CBF. Ele se recusou e em troca me ofereceu uma indenização para comprar um apartamento, fazer um curso na Europa com todas as despesas pagas e ter uma promoção para um cargo de gerência, para ficar lá até me aposentar. Só que eu não tinha a menor condição de continuar trabalhando na CBF com aquele homem, que me dava uma sensação de terror só de pensar em estar ao lado dele novamente", contou a funcionária em entrevista ao Fantástico, da TV Globo.

Ela voltou ao trabalho na entidade depois de cinco meses afastada. A funcionária diz que seguirá lutando pelo respeito às mulheres no ambiente profissional e relatou todas as dificuldades enfrentadas ao longo destes meses licenciada da CBF.

"É uma situação pela qual nenhuma mulher deveria passar em nenhum momento da vida. É uma dor que não acaba. É uma dor que hora nenhuma sai de mim. Hora nenhuma eu esqueço que ela existe. Está sempre presente, latente, em todos os momentos do meu dia. A minha dignidade não tem preço. Porque fiquei pensando nas mulheres que viriam depois de mim. Era inaceitável proteger um assediador", disse a funcionária, que também recordou como se sentiu depois de relatar os casos de assédio.

"Eu tive muitas crises de pânico. Principalmente porque sofri muitas ameaças do Rogério Caboclo. Ele mandou um carro na porta da minha casa, sensação de estar sendo seguida. Ele mandou invadir meu computador, minha conta bancária", explicou e ainda afirmou que os casos de assédio começaram logo nos primeiros contatos com o presidente afastado. "Desde o primeiro momento já ultrapassou o limite comigo. Desde a primeira viagem, para Luque, no Paraguai. E ele, nessa viagem, fez comentários a respeito do meu corpo. Eu achei que aquilo não cabia numa relação de patrão-empregado. Nessa mesma viagem, ele passou a madrugada ligando para o meu quarto, eu não atendi."

Há cerca de três meses, a funcionária da CBF revelou sofrer assédio sexual e moral do presidente afastado. Em áudios gravados, Caboclo pergunta sobre relacionamentos da subordinada, detalhes da vida pessoal dela e se ela se masturbava. Há pouco mais de duas semanas, Rogério Caboclo fez um acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro para o pagamento de R$ 110 mil em ração e aparelhos de celular para arquivar o processo na área criminal sobre os casos de assédio moral e sexual contra uma funcionária da CBF. O mandatário nega todas as acusações.

Caboclo foi afastado do comando da entidade no mês de junho e, após o desenrolar das investigações, a Comissão de Ética pediu que ele ficasse fora do cargo por 15 meses por 'conduta inapropriada'. A decisão cabe à Assembleia Geral da entidade confirmar. Integrantes do alto comando da CBF trabalham para que Caboclo saia definitivamente do posto e uma nova diretoria possa assumir o comando do futebol. Patrocinadores e a Fifa estão em alerta sobre os rumos da entidade que conduz o futebol brasileiro. Veja nota oficial de Rogério Caboclo.

 

Nota do presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, afirma que nunca cometeu qualquer tipo de assédio, o que foi provado perante a Comissão de Ética, inexistindo qualquer pendência perante a Justiça Criminal, estando ele quite em ambos em relação a essa acusação. Ele pediu desculpas públicas à funcionária por ter usado palavras deselegantes, ditas num contexto de amizade, que ela mantinha com ele e sua família.

Rogério Caboclo esclarece que nunca determinou a violação de sigilo do computador ou de contas da referida funcionária e nem promoveu nenhuma reunião ou a intimidou. O motorista da empresa que foi visitar a funcionária declarou em depoimento ter sido duramente repreendido pelo presidente por seu ato. 

O presidente da CBF lamenta que esse episódio esteja sendo deturpado e utilizado com fins políticos. Quem quiser compreender o que ocorreu deve ouvir na íntegra todas as conversas - e não apenas parte delas, sob pena de ser enganado. Caboclo nunca demonstrou nenhum tipo de interesse que não fosse profissional em relação à funcionária. E nem ela alega isso em sua denúncia.

Sobre a negociação com a funcionária, a iniciativa não partiu de Caboclo. Já foi exposto publicamente que uma terceira pessoa procurou o presidente da CBF trazendo uma proposta financeira. Caboclo rejeitou o acordo. A denúncia contra ele foi protocolada horas após a recusa, quase três meses depois da data da gravação apresentada.

As denúncias contra Rogério Caboclo já foram julgadas e retornam à imprensa justamente às vésperas das decisões que definirão seu destino imediato dentro da CBF e também com a proximidade de negociações de contratos vultosos da entidade, outrora negociados pelos antigos gestores da CBF.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.