Fundos de investimento viram 'vilões' e lucram com caos no Brasil

Não são poucos os grupos e agentes que tentam justamente lucrar com a difícil situação financeira dos clubes do Brasil. Há dez anos, um grupo de investidores abriu um fundo em Luxemburgo para justamente apostar na valorização dos craques brasileiros na Europa para lucrar. A meta era a de trazer o jogador por um preço baixo a um clube modesto europeu. Uma vez dentro do mercado, a revenda seria por um preço bem maior e o lucro distribuído aos investidores. 

Jamil Chade - Correspondente, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h30

Nos últimos anos, dezenas de fundos passaram a agir, comprando parcelas de jogadores no Brasil e aguardando lucros com suas revendas na Europa. 

Amir Somoggi, especialista em marketing esportivo, aponta para a crise financeira dos clubes brasileiros como parte da explicação para o fenômeno. 

“Os clubes querem vender de qualquer jeito”, disse. “Somos pé de obra e o futebol é o retrato ainda de um país que se vê como exportador de matéria prima”, insistiu.

Somoggi faz uma comparação entre o jogador e o café. “O Brasil é o maior exportador de café. Mas são os italianos que compram as sacas de grão, moem, empacotam e vendem por um preço bem mais alto. No futebol, temos ainda o doentio pensamento de agirmos como commodities”, disse. 

Para Jerome Champagne, ex-assessor político de Joseph Blatter na Fifa, a concentração de renda no futebol europeu é uma ameaça real ao futebol no Brasil e no resto do mundo em desenvolvimento. “Apenas vinte clubes europeus têm uma receita de mais de  6 bilhões. Enquanto isso, quase cem federações nacionais vivem com  2 milhões por ano”, alertou. 

Para ele, essa realidade apenas vai se aprofundar nos próximos anos, com a saída de craques nacionais. “O círculo vicioso já conhecemos. Isso vai gerar problemas financeiros cada vez maiores aos clubes e, portanto, um enfraquecimento do futebol brasileiro”, alertou

A Fifa espera resolver parte desse problema proibindo os fundos de investimento de comprarem jogadores. A medida entra em prática ainda nesse semestre. Mas os agentes já têm mecanismos para escapar dessa nova regra estabelecida pela Fifa no mercado da bola.

CIFRAS

689 jogadores o Brasil exportou na temporada passada, número que coloca o País na liderança de maior fornecedor de craques.

221 milhões de dólares (R$ 624 milhões)  renderam esses 689 exportadores aos clubes, jogadores e agentes do futebol brasileiro.

667 milhões de dólares ( R$ 1,8 bilhão) faturou a Espanha com a venda de quase 100 jogadores a menos que o Brasil exportou.

4 bilhões de dólares (R$ 11,2 bilhões) movimentaram as transferências de jogadores, um recorde. No total foram 13 mil negociações.

41 milhões de euros (R$ 13,1 bilhões) o PSG pagou ao Milan pelo zagueiro Thiago Silva - ele havia sido vendido pelo Fluminense por 10 milhões de euros (R$ 31 bilhões) ao Milan.

6 bilhões de euros (R$ 19,3 bilhões) é a receita total de 20 clubes de ponta da Europa. Cem federações nacionais têm uma receita de apenas 2 bilhões de euros (R$ 6,4 bilhões).

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