Projeto Craques da Rocinha
Projeto Craques da Rocinha

Futebol ajuda a tirar crianças do crime na Rocinha e cria novas perspectivas

Projeto social dá nova perspectiva para 130 jovens; alguns deles já estão em fase de testes em clubes do Rio

Toni Assis, especial para o Estadão

02 de abril de 2022 | 05h00

O trabalho é árduo e diário. Renato Silva, de 36 anos e cria da Rocinha, percorre becos e vielas de uma das maiores favela da América Latina com a missão de tirar os garotos das ruas. “Encontrei um menino de 14 anos em um beco fumando maconha e com uma arma na mão. Já estava entregue às drogas e à criminalidade. Consegui levá-lo ao projeto, fizemos um trabalho de recuperação e as atividades do programa e o esporte o salvaram. Hoje, ele está na escola, é bom aluno, e teve um grande progresso pessoal.”

O depoimento de Renatinho, como é conhecido, retrata o cenário caótico que impera nas comunidades carentes do Rio. Atualmente, ele veste a camisa do projeto social Craques da Rocinha, que é liderado pela ONG Instituto Sempre Movimento (ISM), e tem papel importante para fazer a engrenagem funcionar.

Responsável pelo recrutamento de jovens e pelos treinos de futebol, o anjo da guarda dos meninos é voz atuante com os moradores. “Como sou da Rocinha, uso a linguagem da favela para me comunicar com eles. Conheço os pais de todas as crianças de lá e me considero uma espécie de irmão mais velho que está ali conversando, cobrando, orientando e ouvindo”, disse Renato ao Estadão.

O Craques da Rocinha começou em 2020 e atende 130 crianças entre sete e 17 anos. A criadora é a empreendedora social e ex-jogadora de handebol Amanda Costa, de 42 anos. Oriunda de um projeto social que era realizado no bairro de Campo Grande (zona Oeste do Rio), ela conheceu de perto as dificuldades de crescer em uma região com pouca estrutura.

“Sou de Bangu e nasci ao lado do presídio. Imagina o drama. Cresci num contexto muito vulnerável, com famílias desestruturadas, sem pai presente, e com mãe que faz tudo. Criei o projeto a fim de abrir uma porta para quem está no meio da escuridão”, afirma a ex-atleta, que jogou na seleção brasileira no anos 90.

Dona de uma empresa de consultoria em atividade física, Amanda enxergou no viés esportivo a chance de mudar a vida dos mais necessitados. “Não é só colocar crianças na quadra e trocar bolas. É um mundo à parte de conexão, que aglutina as pessoas, que faz cooperação. Isso fortalece para a vida”, comenta, com brilho nos olhos.

O caminho para entrar em regiões carentes teve uma criteriosa pesquisa. Para ter livre acesso, foi necessário sair em busca de líderes comunitários que pudessem ser a voz do instituto. Várias favelas estiveram no radar. O perfil de Renatinho se encaixou nos requisitos definidos pela gestora, e o projeto ganhou “corpo e alma” na Rocinha.

Renatinho também abre caminho para que o trabalho transcorra sem interferência “externa.” “Pelo menos aqui na Rocinha não existe resistência de quem comanda a favela em impedir que os jovens possam sair das ruas. A comunidade recebeu bem o projeto, temos acesso a qualquer área. O direito da criançada de praticar esporte e sonhar com um futuro é respeitado.”

Os frutos já começam a aparecer. Botafogo, Fluminense e Bangu contam com meninos que estão em fase de testes em suas categorias de base. Porém, na visão dos dirigentes do projeto, mais importante do que revelar jogadores de futebol é formar cidadãos.

Amanda fechou uma parceria com uma instituição que vai formar adolescentes de 16 e 17 anos e encaminhá-los ao mercado de trabalho. Mas o projeto ainda esbarra na falta de recursos, mesmo estando aprovado na Lei de Incentivo ao Esporte. “A iniciativa tem zero patrocínio e só está de pé pela força do nosso propósito. Estamos em busca de captação”, diz a ex-atleta.

TERRA DA LAMA

A prioridade ao implantar o projeto foi atuar numa área desprovida de ajuda. Com pouco mais de 80 mil habitantes, a Rocinha teve dois locais estratégicos escolhidos para treinos e jogos: a quadra da Cachopa e o campo da Vila Verde.

“Até mesmo na Rocinha existe desigualdade muito grande. As pessoas de maior vulnerabilidade estão na Terra da Lama. O nome é esse porque fica no topo da favela. É um território paupérrimo. Lá atendemos pessoas em extrema pobreza. Famílias de cinco, seis e até mais pessoas vivem com salário mínimo. Algumas ainda pagam aluguel. O acesso é dificílimo, não chega nada nem ninguém”, comenta Amanda.

Para tentar suprir um pouco da dificuldade, a ONG distribui cestas básicas para as famílias carentes que estão mapeadas no programa “Alimentando Vidas”.

Outra ação concluída com êxito pelo Craques da Rocinha é uma parceria com o departamento de responsabilidade social do Flamengo, que vai propiciar atividades com as crianças e adolescentes que integram a iniciativa. “Vamos nos reunir e ver a melhor maneira de tocar esse projeto. Os meninos estão adorando essa parceria”, atestou Amanda Costa.

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