Daniel Teixeira/ Estadão
Quarenta famílias também foram convidadas para assistir ao jogo no Pacaembu Daniel Teixeira/ Estadão

Futebol ajuda os refugiados sírios a esquecer a guerra

Grupo esteve na Vila e no Pacaembu para ver jogos do Santos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2015 | 17h00

O ex-jogador de futebol Mohamad Abdulsalam Alshehabi foi obrigado a interromper uma carreira promissora como principal armador do Liberdade, time de segunda divisão da Síria, por causa da guerra civil. Deixou pai, mãe e oito irmãos e percorreu Turquia, Líbano e Jordânia até chegar ao Brasil no ano passado. Bem que tentou ser jogador aqui, mas sentiu o baque. “Fiquei muito tempo sem jogar”, resume. Hoje, encontrou refúgio nos campos de várzea de Guarulhos. Como ainda toma muitos dribles no português e não arrumou namorada, Abdul transformou o futebol no caminho para fazer amigos e se integrar. 

Para George Azar, Majed Ibrahem e Osama Alshaikh, o futebol fez o sentido contrário. Passou de lazer na Síria para ser a fonte de sustento no Brasil. Os três também deixaram os conflitos no ano passado e acabaram contratados pelo Atlético Mineiro. 

Graças à ajuda do presidente do Conselho Deliberativo e cônsul da Síria, Emir Cadar, e à estreita ligação do clube com a comunidade árabe, eles conseguiram empregos na área de limpeza da sede administrativa do Atlético, no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte. 

Para Mohamad El Kadri, responsável pelas relações institucionais da ONG Oásis Solidário (Associação de Assistência a Refugiados no Brasil), a principal entidade de apoio aos sírios, o futebol permite integração, lazer e alegria para os sírios. Atualmente, são 2077 no Brasil, 600 deles em São Paulo. “Como fazer para acolher pessoas que perderam a casa, parte da família e estão reconstruindo a vida em um país diferente? O futebol tem o poder de fazer com que as pessoas se sintam acolhidas. Traz alegria, festa e lazer. É uma forma de esquecer a dor da guerra”, diz El Kadri. 

Sheikh Mohamad Al Bukai, diretor de Assuntos Islâmicos da União Nacional das Entidades Islâmicas, assina embaixo. “O futebol pode nos aproximar bastante dos brasileiros”. 

Essa percepção dos líderes foi colocada à prova quinta-feira à noite no Pacaembu. Um grupo de cem refugiados sírios foi convidado pelo Santos para assistir à partida contra o Figueirense, pela Copa do Brasil. Deu certo. Homens, mulheres e crianças chegaram um pouco assustados, era a primeira vez da maioria em um estádio. Muitos diziam que não gostavam de futebol. Mas só até a página 2. Antes de o jogo começar, já tiraram uma selfie atrás da outra.

Na metade do primeiro tempo, já estavam cantando e dançando. Sem o timing certo para puxar as músicas, o grupo transformou o setor manga do Pacaembu e roubou a cena do jogo modorrento, principalmente no primeiro tempo. As cadeiras viraram o palanque para a festa. “Não sabia que era um lugar com tanta alegria”, conta Ali Alkaddam. 

A mesma festa já havia acontecido na Vila Belmiro. Também por iniciativa do clube santista outro grupo de refugiados assistiu ao jogo contra o Inter e visitou o Memorial das Conquistas. O apoio aos refugiados faz parte do projeto de Responsabilidade Social do Santos chamado “Muito Além do Futebol” em que procura fortalecer sua imagem institucional e a influenciar seus torcedores de um jeito positivo. 

Em julho, os jogadores do Avaí tiveram um propósito parecido em relação à comunidade haitiana, que vem crescendo em Santa Catarina. Contra o Cruzeiro, os atletas usaram um uniforme com a inscrição linyon, ou “união” na língua crioula, e 60 haitianos assistiram ao jogo em uma sala vip da Ressacada. 

“Paramos guerra. Lutamos pela paz. É uma abertura simbólica a todos aqueles que sofrem os terrores da guerra”, declarou o presidente do Santos, Modesto Roma Junior. 

Quando Modesto fala que o Santos parou uma guerra não se trata só uma frase de efeito. Em 1969, o Santos fez uma excursão pela África e levou raros momentos de felicidade para regiões devastadas pelas batalhas. Duas guerras civis, no Congo e na Nigéria, foram paralisadas para que os moradores pudessem assistir aos jogos do time de Pelé em um período de dez dias. 

Ranking. O futebol encanta os sírios mais pela festa coletiva do que pelo que acontece dentro de campo. A maioria aplaude até lateral para o Santos, porque o futebol não chega a ser uma paixão na Síria. Também pudera. Atualmente, o país ocupa o 123.º lugar no ranking da Fifa e nunca participou de uma Copa do Mundo. Incrivelmente, o torneio local não foi interrompido, e as partidas ocorrem quase exclusivamente nas áreas controladas pelo regime, como Damasco, Hama e Latakia.

Adbul, o ex-jogador lá do início, fala que não dá para comparar o seu time, o Liberdade, com os grandes clubes de São Paulo. Diz que gostaria muito de ir a um estádio. Ele não acompanhou seus conterrâneos à Vila Belmiro e ao Pacaembu porque tinha de trabalhar. “Amo o futebol, mas tenho de amar o trabalho também. Aluguel é caro no Brasil”. 

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Clubes europeus acolhem centenas de refugiados

Alemães lideram ações e doações

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2015 | 17h00

As ações que vários clubes brasileiros estão realizando para apoiar os refugiados reproduzem um movimento de solidariedade do futebol mundial. O caso mais emblemático, ligado ao futebol, foi o da família síria de Osama Alabed Al-Mohsen. 

Depois de terem sido foi derrubados por uma cinegrafista húngara quando fugiam da polícia para se refugiar na Europa, Almohsen e seu filho, Zied, foram convidados para assistir ao treino do Real Madrid e conhecer o craque Cristiano Ronaldo na semana passada.

A ajuda não parou por aí. Osama está em Madri, onde as autoridades locais lhe concederam asilo. O presidente do Centro Nacional de Formação de Treinadores do país (Cenafe), Miguel Ángel Galán, ofereceu a Al-Mohsen a chance de fazer um curso em Getafe.Antes de sair da Síria, Osama foi técnico na primeira divisão de futebol na Síria e comandava o Al-Fotuwa. Agora terá a chance de retomar a carreira de treinador. 

Mesmo antes da divulgação das imagens do menino sírio Aylan Kurdi, de 3 anos, que morreu afogado após a tentativa da família de cruzar o Mediterrâneo em direção à Europa, torcidas dos principais clubes alemães já manifestavam solidariedade aos refugiados. A expectativa é que a Alemanha receba cerca de 800 mil imigrantes até o fim do ano, quatro vezes mais do que o país recebeu em 2014. 

E o Bayern de Munique tomou a dianteira. O presidente do clube, Karl Heinz Rummenigge, anunciou uma doação de um 1 milhão e apoio à integração dos refugiados, atitude que foi repetida pelo francês Paris-Saint Germain e pelo Real Madrid.

O time alemão também pretende fazer um programa de treinamento e vai fornecer ajuda aos refugiados que chegarem ao país com um acampamento especial. O lugar onde ficarão os abrigados fica separado da parte de treinamento regular do time. O abrigo improvisado vai fornecer alimentação e aulas de alemão aos refugiados, para os ajudarem a se adaptar à Alemanha.

“O Bayern sabe da nossa responsabilidade social para ajudar refugiados, crianças necessitadas, homens e mulheres. Ajudá-los a chegar na Alemanha”, disse Karl-Heinz Rummenigge.

O movimento que começou na Alemanha rapidamente ganhou força no continente. Os 80 times que disputarão a primeira e a segunda rodadas da fase de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa vão doar 1 euro (R$ 4,41) de cada bilhete vendido para os jogos nos estádios para ajudar os refugiados. Com a iniciativa, devem ser arrecadados cerca de 3 milhões de euros (R$ 12,7 milhões).

A proposta feita pelo Porto foi aceita por todas as demais equipes europeias e anunciada pela Associação Europeia de Clubes (ECA, na sigla em inglês).

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