Celio Messias
Celio Messias

Antes de campanhas, camisa 24 era raridade no futebol brasileiro

Alguns clubes incentivam uso do número associado de maneira preconceituosa à homossexualidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 04h30

Historicamente associado de maneira preconceituosa à homossexualidade, o número 24 estava praticamente extinto do futebol paulista no início do ano. Prova disso foi o início do Paulistão. Na primeira rodada do Campeonato Paulista, um jogador entre 334 relacionados para as oito partidas iniciais usou a numeração nas costas. O cenário pode mudar com ações dos clubes.

Na semana passada, o volante Flávio, do Bahia, personificou uma ação do clube contra a homofobia vestindo a camisa na Copa do Nordeste. Literalmente. Anteontem, Nenê, do Fluminense, usou a 24 no jogo contra o Unión La Calera, pela Copa Sul-Americana. O atacante Gabigol, do Flamengo, cogita fazer o mesmo. O movimento, no entanto, é lento.

O jogador foi Kauan Tomé Firmino Silva, terceiro goleiro do Novorizontino. “Em alguns lugares, a discriminação existe, mas nunca percebi isso aqui. No Novorizontino, a gente não liga para isso”, disse o goleiro de 18 anos, formado nas categorias de base do clube. “Não fiquei incomodado em usar o número. Foi a primeira partida na qual eu fui relacionado e isso tem um valor especial”, afirma.

No clube de Novo Horizonte, a escolha do número está inserida na formação das categorias de base, que inclui palestras contra discriminação, por exemplo. Além disso, a ação coloca em prática as ideias das campanhas educativas. “Nós conversamos sobre a adoção da camisa 24 e fizemos o que tinha de ser feito. O clube é contra qualquer forma de discriminação. Todos são bem resolvidos e um número não determina nada”, afirma Genilson da Rocha Santos, presidente do Novorizontino desde 2012.

A partir da 3ª rodada do Paulistão, Kauan ganhou a companhia do corintiano Victor Cantillo. Mas a escolha revelou como a ausência do 24 pode ser uma manifestação velada de discriminação. Dono do número no Junior Barranquilla, seu ex-clube, o jogador foi tema de polêmica quando o diretor de futebol Duílio Monteiro Alves deu uma declaração homofóbica na apresentação do reforço. “Vinte e quatro aqui não”, disse.

Diante da repercussão negativa, o diretor usou as redes sociais para se desculpar. O clube decidiu deixar Cantillo com a 24. “Em 2012, quando eu também era diretor de futebol, fomos campeões invictos da Libertadores, e nosso goleiro Cássio, um dos maiores ídolos de toda a nossa história, usou essa camisa”, acrescentou Duílio.

O terceiro goleiro do Corinthians no início da Libertadores de 2012 era Cássio. Ele ganhou espaço com a camisa 24. No segundo semestre, passou a usar a 12. “Um esporte tão popular resiste a esse esforço civilizatório pela liberdade de gênero e opção sexual”, opina o psicólogo Hélio Roberto Deliberador, da PUC/SP.

Uma das explicações para a aversão ao 24 está associada ao Jogo do Bicho. Na loteria criada em 1892 e inspirada no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, a quadra estipulada ao animal veado é a 24ª, contendo os números 93, 94, 95 e 96. Rogério Baptistini, sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que o número se tornou um estigma. “Após a segunda metade do século 20, a dezena do jogo serviu para marcar os homossexuais. E o futebol, com a adoção da numeração nas camisas, sendo um ambiente carregado de preconceitos, não ficou imune.”

O número 24 costuma ser utilizado pelos clubes somente em competições nas quais a numeração de camisas é fixa. Na Libertadores, por exemplo, os 30 jogadores devem estar numerados com camisas de 1 a 30.

Nas últimas semanas, várias ações dentro e fora de campo tentam combater a homofobia com o uso da 24. A LiGay, liga de futebol LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexuais e assexuais), vestiu a estátua do Pelé, em Santos, com a camisa “proibida” no dia 16 de janeiro.

O volante Flávio e o meia Nenê usaram a camisa protestando contra a discriminação e também homenageando Kobe Bryant, ex-jogador da NBA que morreu em acidente de helicóptero. A ação do Bahia ganhou o apoio da cervejaria Brahma e virou a campanha “Número de Respeito”. A revista Corner lançou ação “Pede a 24”. O atacante Gabigol, o atleta mais caro do País, deve ser o próximo a trocar a 9 pela 24, pelo menos em alguns jogos do Flamengo. Ele e o clube já se mostraram dispostos a entrar na campanha.

Escolha é dos atletas, dizem os clubes

Todos os 16 clubes da elite do futebol paulista afirmam que a escolha da numeração das camisas é feita diretamente pelos jogadores e que não há restrição. Na visão dos clubes, portanto, são os atletas que evitam o número associado à homossexualidade. O Estado ouviu os times do interior (Água Santa, Botafogo, Bragantino, Ituano, Guarani, Ferroviária, Santo André, Inter de Limeira, Novorizontino, Ponte Preta, Mirassol e Oeste) e os quatro grandes (São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos). No Paulistão, não existe a numeração padronizada, de 1 a 30, por exemplo, como é o caso da Libertadores.

Por meio de sua assessoria, o Palmeiras reafirma que os jogadores são livres para a escolha da numeração e lembra que uma das maiores conquistas da história do clube, a Libertadores de 1999, foi obtida com um camisa 24 como destaque do elenco: o atacante Euller.

“O Água Santa é um time que respeita a diversidade e acredita que este tipo de manifestação – de 24 ser um número relacionado à homossexualidade –, que muitos encaram apenas como uma brincadeira, não deve existir mais no futebol. E todos são livres para usar o número que bem entender no clube”, explica Wanderley Farias, diretor de futebol do Água Santa.

“No Mirassol Futebol Clube, os atletas têm total liberdade para escolher seu número para as partidas. Do 1 ao 30 fica disponível para todos escolherem aquele número que lhe satisfaz”, afirma Edson Antônio Ermenegildo, presidente do Mirassol. 

A Ponte Preta explica que as camisas para os reservas são numeradas a partir do número 12, mas não é possível definir o tamanho do atleta que vai vesti-la (pequena, média ou grande). Elas são produzidas em tamanhos diferentes com numerais diferentes. Por isso, segundo o clube, ninguém vestiu a 22 e a numeração pulou do 23 até o 28. “É provável que a 24 apareça ou não nos próximos jogos dependendo do tamanho que vai ser utilizado pelo jogador reserva”, informa o clube.

Para o diretor de futebol do Santo André, Juraci Catarino, o time não teve nenhuma camisa 24 na rodada inicial do Paulistão – contra a Ponte Preta – porque só foram relacionados 20 atletas para o jogo e a numeração também não é fixa. “A numeração varia de acordo com a quantidade de atletas para a partida. Normalmente são relacionados 23 atletas. Mas não temos preconceito.” 

O São Paulo afirma que a lista é definida entre diretoria e atleta, de acordo com a disponibilidade da camisa. Quando Alexandre Pato foi contratado, ele pensou em utilizar a camisa 11, um número de que gosta. O problema é que ela estava sendo utilizada pelo atacante Helinho. O novato abriu mão do número, mas Pato decidiu escolher o número 7.

Análise: No Brasil, existe uma estigmatização do homossexualismo

O número 24, por conta do jogo do bicho, está associado ao veado. Existem várias explicações. É mais provável que a associação tenha relação com o filme Bambi, da década de 1940, que retratava um animal gracioso, tímido e delicado. Há quem diga que isso ocorre também devido à abreviação das palavras transviado ou desviado.

O fato é que após a segunda metade do século 20 a dezena do jogo serviu para marcar os homossexuais. E o futebol, com a adoção da numeração nas camisas, sendo um ambiente carregado de preconceitos, não ficou imune à desgraça social. Há uma grande estigmatização ao homossexualismo no futebol. Se eu quero macular alguém no Brasil, associo a este número. Isso é típico de nossa sociedade. Em outras sociedades, o número 24 não traz mácula.

Jogadores homossexuais sofrem um estigma, como se merecessem ser isolados socialmente. Ser homossexual nesta sociedade, que é tradicionalmente patriarcalista, é carregar uma mácula. O futebol incorporou os negros, pobres e as camadas populares, mas também incorporou os dilemas da formação social. Em seu livro Subterrâneos do futebol, João Saldanha já fazia uma crítica ao homossexualismo no ambiente do futebol. Mesmo um homem aberto carregava um comportamento reacionário quando se tratava da questão de gênero.

Talvez seja por isso que o futebol feminino ainda carregue tanto preconceito. Futebol é coisa de machos e reafirma um tipo de identidade. Tudo o que foge desse padrão acaba sendo estigmatizado. 

Rogério Baptistini - sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.