Nilton Fukuda/Estadão
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Futebol brasileiro é dos meninos da base

Meninos como Veron, do Palmeiras, pedem passagem. Veteranos têm de jogar mais

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

Conheço um garoto de 15 anos que joga no Corinthians. Seu nome é Breno. Como muitos meninos de sua idade, ele sonha ser profissional. Já tem contrato e está na frente de outros. Se tudo der certo para ele, em breve será testado no time de cima até algum dirigente ou técnico apostar no seu futebol. É isso o que faz Vanderlei Luxemburgo no Palmeiras. Olha para os meninos da base e põe todas as suas fichas neles. Estão na faixa etária de 18 a 20 anos. Foi um deles que salvou a pele do treinador em Bragança, na vitória por 2 a 1 diante do Red Bull Bragantino. Veron fez um gol e deu passe para Willian fazer outro. Era seu primeiro jogo após lesão e recuperação.

Gabriel Veron não está sozinho neste Palmeiras. Há outros como ele. Patrick de Paula é o melhor, seguido de Gabriel Menino. Tem ainda o Wesley. Só aí são quatro formados em casa.

Essa é a tendência nos clubes brasileiros. Talvez mais do que isso. Formar jogador e usá-lo no time de cima é o único caminho para fortalecer o elenco e fazer dinheiro. O Palmeiras não está nessa sozinho. O São Paulo deu sobrevida ao técnico Fernando Diniz graças aos resultados conquistados pelos meninos forjados em Cotia. O time saiu de posição incômoda para subir na tabela do Campeonato Brasileiro.

Os dois exemplos, no entanto, também servem para escancarar a situação ruim dos medalhões, aqueles que negociam salários altíssimos e contratos longos, mas que entregam futebol pequeno. O brilho de Veron em menos de 45 minutos ofusca a condição de alguns pesos pesados do elenco do Palmeiras. A ansiedade de Luxemburgo em ter resposta imediata de um garoto em que ele apostou era percebida à beira do gramado em Bragança, principalmente porque o seu time perdia o jogo.

O entendimento é um só: já que esses medalhões não estão dando em nada, o técnico passou a olhar para a base a fim de encontrar uma solução para seus problemas (são muitos) no time. Mais uma vez o Palmeiras jogou como time comum, sem brilho ou nada diferente do adversário. Ganhou, mas poderia ter perdido. Em alguns momentos, quem estava na roda era a equipe da capital, favorita se comparada ao Red Bull Bragantino na competição.

No São Paulo, o exemplo é mais gritante. Pato teve seu contrato rompido porque não respondia em campo. Quando Diniz sacou os atletas mais experientes, e caros, e deu chance aos meninos, aqueles que ainda precisam se provar, os resultados apareceram e a equipe melhorou, como foi diante do Flu na partida de ontem. A temporada é dos garotos. O futebol brasileiro é cada vez mais dos meninos da base.

Não faz muito tempo, o técnico português José Mourinho, o Special One, numa transmissão da Liga dos Campeões para um canal do Brasil, disse com todas as letras que o mercado europeu vem buscar jogadores no Brasil cada vez mais cedo, na tenra idade deles. Em alguns casos, na base ainda, antes de o moleque vestir a camisa profissional do clube que o formou. Alguns outros saem depois de poucas temporadas jogadas no País, como Gabriel Jesus e Antony, um do Palmeiras e outro do São Paulo.

Se os treinadores apostam nos meninos, o que vai sobrar para os veteranos ou os de meia-idade? Nada, a não ser que eles tirem o chinelinho e a preguiça do corpo e voltem a ser relevantes em seus respectivos clubes, como Nenê e Fred do Flu ou Hernanes, no grupo de Diniz. Para esses, a competitividade no elenco tem sido altíssima e se eles não mostrarem do que são capazes, não terão vaga na equipe somente pelo que já fizeram em campo. Esses ganharam a pecha de veteranos antes do tempo e andam pelo mesmo caminho onde foram enterrados técnicos da antiga. Por isso, quando chegar a sua hora, Breno quer ter apenas uma oportunidade. Só isso.

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