Pedro Souza|Atlético-MG
  Pedro Souza|Atlético-MG

  Pedro Souza|Atlético-MG

Futebol brasileiro fecha 2021 com excesso de jogos, adiamentos, reclamações e desgaste dos atletas

Vários times jogaram mais de 80 partidas no ano, considerando também duelos da temporada passada, reclamaram do calendário pesado, tiveram confrontos remarcados e perderam muitos jogadores por lesões e convocações das seleções, quando o calendário não parou

Ricardo Magatti , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Pedro Souza|Atlético-MG

Athletico-PR e Atlético-MG fizeram nesta quarta-feira, dia 15 de dezembro, a última partida oficial de 2021 do futebol brasileiro. Singular pelas suas peculiaridades, o ano fica marcado pelo número excessivo de partidas no País, acossado pela pandemia de covid-19, que espremeu o calendário e fez a temporada 2020 se encerrar apenas em março deste ano, bagunçando ainda mais a já criticada tabela esportiva.

O Palmeiras terminou 2021 com dois títulos da Libertadores (2020 e 21), um da Copa do Brasil e 91 partidas jogadas. Sem contar os acréscimos, são 8.190 minutos em campo. Foi a equipe que mais vezes entrou em campo, seguida por Athletico-PR e Flamengo, presentes em 87 confrontos. Jogar mais vezes implica em descansar menos e se recuperar rapidamente em curtos períodos de tempo. O desgaste provoca mais contusões. O Flamengo, por exemplo, sofreu com as lesões musculares, com mais de 50 casos em seu elenco durante a temporada.

Na sequência dos clubes que mais atuaram aparecem Atlético-MG e Grêmio, ambos com 86 jogos. Bahia e Santos fizeram 84. Atlético-GO (83), Ceará (82) e São Paulo (81) completam a lista das dez equipes que mais compromissos tiveram em 2021, levando em conta também partidas da temporada 2020 que foram empurradas e aconteceram neste ano. Os números são oficiais. A lei diz que uma nova partida de um time deve ser disputada depois de 72 horas, no mínimo, da última apresentação. Especialistas entendem que esse número de horas serve para a recuperação muscular do atleta. 

O São Paulo também sofreu com o calendário. Em agosto, o time já tinha contabilizado 29 casos de lesões musculares em 37 partidas disputadas. Registrava 1,3 contusão por jogo. Alguns atletas tinham ficado fora do time mais de uma vez por esse motivo, como o atacante Luciano. A necessidade de ganhar faz com que o treinador force a barra para ter seus melhores jogadores no limite. 

Parte desses clubes pagou pelo seu sucesso ao alcançar as fases finais dos torneios do ano e teve de conviver com uma maratona extenuante de compromissos. Em alguns casos, com competições disputadas simultaneamente, os jogos foram realizados a cada 48 horas. A temporada que terminou nesta quarta não foi tão acidentada quanto à anterior, com menos casos de covid-19 entre os atletas, mas alguns estaduais chegaram a ser paralisados diante do recrudescimento da pandemia, entre março e abril, e isso fez com que houvesse remarcação de confrontos.

As reclamações, especialmente dos técnicos, foram intensas. Abel Ferreira falou que o que se faz no Brasil é "insano". Renato Gaúcho, quando estava no Flamengo, disse que, sem o tempo suficiente para treinar, não era possível encontrar o melhor entrosamento do time. E Cuca contestou adiamentos de jogos. Vale lembrar que, no Brasil, ao contrário do que ocorre na Europa, as disputas não param nas Datas Fifa, o que fez o técnico Tite, em algumas ocasiões, abrir mão de convocar atletas importantes de clubes brasileiros.

Assim que a pandemia paralisou o futebol mundial em 2020, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que o momento era propício para uma reforma global da modalidade. No Brasil existe há anos uma discussão sobre modificar o calendário e reduzir o número de compromissos das equipes. 

No centro dos debates estão sempre os Estaduais, que não têm mais o mesmo prestígio de outrora, mas são importantes esportivamente e financeiramente para os times menores. Há quem defenda o retorno do sistema de mata-mata no Brasileirão e a equiparação do calendário brasileiro ao europeu. O Campeonato Brasileiro, vale dizer, dura cerca de seis meses, enquanto as ligas europeias se estendem por nove meses. Essas possibilidades, no entanto, estão descartadas pela CBF no momento. A entidade apresentou o cronograma para 2022 e o caos continua. Há muitas datas de Estaduais, os torneios vão seguir durantes as Datas Fifa e os clubes continuarão prejudicados quando tiveram atletas convocados para as seleções. No ano que vem, a Copa do Mundo será realizado em novembro pela primeira vez em sua história. 

A sequência desgastante pode ocasionar lesões, impede que o atleta jogue na plenitude de suas condições físicas e impacta negativamente na qualidade das partidas, avaliam preparadores físicos e fisiologistas.

"Inevitavelmente, nossos atletas jogam fatigados. Isso impacta na qualidade do jogo e aumenta a incidência de lesões, traumáticas e não traumáticas, que são relacionadas aos aspectos da imprevisibilidade do jogo", diz ao Estadão Daniel Gonçalves, coordenador científico do Palmeiras. "Se o atleta não estiver tão recuperado fica mais sujeito a choques", acrescenta.

"O que acontece ao longo do tempo é que gradativamente o organismo vai perdendo condição. Enfraquece, perde força, velocidade, resistência e aumenta o risco de lesões. O organismo entra num estado de fadiga crônica, No início é pouco, mas depois de 10 ou 11 meses o estado total do organismo está muito debilitado", explica Paulo Zogaib, fisiologista do Palmeiras de 1991 a 2014 e especialista em medicina esportiva.

A Fifa determina 72 horas como o tempo de intervalo entre as partidas. Em 2020, o período entre um duelo e outro foi reduzido para 48 horas como medida de exceção para acomodar as datas do Brasileirão daquele ano no apertado calendário, impactado pela pandemia.. Em 2021, voltou a valer a regra de 66 horas como período mínimo entre os confrontos. Essa norma consta do artigo 25 do Regulamento Geral das Competições da CBF.  

"No contexto do desempenho, só existe uma coisa quanto o treinamento: a recuperação", enfatiza Luis Felipe Polito, doutor em Treinamento Esportivo. "O problema não está única e simplesmente nas lesões. Se há mais jogos, menos tempo sobra para o treino. Talvez por isso que vemos uma diferença de qualidade técnica absurda em uma partida do futebol brasileiro e da Inglaterra", avalia Polito, que trabalhou em clubes como São Paulo e Oeste.  Para se ter uma ideia, o Manchester City, time que mais vezes atuou em 2021 entre as equipes das principais ligas europeias, terminará o ano com 67 partidas.

Segundo os fisiologistas, um atleta que joga os 90 minutos de uma partida leva de 72h a 96h para se recuperar adequadamente. "É claro que isso é extremamente variável. Depende das características e hábitos de cada atleta, de quanto é o desgaste em cada partida", ressalta Zogaib. Fisiologista do Palmeiras durante 24 anos, ele hoje é professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Os treinamentos regulares melhoram a condição física do jogador porque o organismo, explica Zogaib, alcança a "supercompensação", ficando melhor do que antes da atividade física. Mas isso não é possível sem um período de descanso adequado. 

"Quando o atleta treina e joga demais não é possível fazer essa supercompensação. Não dá tempo de se recuperar completamente se ele tem de treinar e jogar de novo em intervalos próximos. Aí fica um déficit pequeno. A massa muscular e os estoques de combustível, entre outros, vão piorando em vez de melhorar", diz o médico do esporte. Os profissionais que cuidam da parte física dos jogadores entendem que os clubes não devem jogar mais do que 70 partidas em um ano. 

Os problemas provocados pela maratona de jogos têm sido atenuados pelos recursos tecnológicos de que os clubes dispõem que ajudam os profissionais a monitorar periodicamente a saúde dos atletas e, com isso, prevenir lesões. Também foi importante nesse contexto a ampliação de três para cinco substituições no futebol brasileiro e sul-americano.

"Assim, conseguimos identificar os atletas com fadiga e elaborar trabalhos individualizados para recuperá-los", afirma Daniel Gonçalves. O coordenador científico do Palmeiras e outros profissionais trabalharam para deixar todo o elenco à disposição de Abel Ferreira na final da Libertadores e isso foi fundamental para a conquista continental.

Veja a quantidade de partidas dos clubes da Série A em 2021:

  • Palmeiras - 91
  • Athletico-PR - 87
  • Flamengo - 87
  • Atlético-MG - 86
  • Grêmio - 86
  • Bahia - 84
  • Santos - 84
  • Atlético-GO - 83
  • Ceará - 82
  • São Paulo - 81
  • Fluminense - 80
  • Red Bull Bragantino - 80
  • Fortaleza - 78
  • Internacional - 74
  • Corinthians - 73
  • Cuiabá - 73
  • Sport - 70
  • Chapecoense - 66
  • América-MG - 64
  • Juventude - 59

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Palmeiras encerra 2021 com 91 partidas e é o time que mais jogou no futebol mundial

Time alviverde pagou preço pelo sucesso ao alcançar as fases finais dos torneios e acumulou partidas em sequência

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 10h00

Quando Abel Ferreira contesta com veemência o calendário do futebol brasileiro há fundamento em sua crítica. Considerando também partidas da temporada 2020, que se estendeu até março em virtude da pandemia de covid-19, o Palmeiras encerrou 2021 com 91 partidas e foi o time que mais jogou no Brasil e no mundo.

Marcado por dois títulos da Libertadores e um da Copa do Brasil, o ano de 2021 foi o terceiro em número de jogos da equipe alviverde em sua história. Em 2000, foram 92 confrontos, e em 1994, o recordista, o time entrou em campo 97 vezes. Nos dois casos, porém, os jogos corresponderam às temporadas dos próprios anos, ao contrário do que aconteceu em 2021, uma situação peculiar.  A vitória por 3 a 0 sobre o River Plate em 5 de janeiro foi o primeiro duelo do ano, e o triunfo por 1 a 0 sobre o Ceará, apenas com jovens em campo, no último dia 9, encerrou o 2021 do Palmeiras.

"É muito ruim jogar, não ter tempo para recuperar e ter de jogar de novo. O risco de lesão aumenta. Nosso corpo não é máquina", diz ao Estadão o meio-campista Raphael Veiga. Ele atuou em 67 dos 91 confrontos da equipe em 2021. No ano passado, sofreu com uma pubalgia que só foi curada graças ao tratamento com um médico especializado em osteopatia.  

A paralisação do futebol em consequência da pandemia de covid-19 no ano passado espremeu o calendário e fez o Palmeiras jogar no início de 2021 19 jogos que valiam para as competições de 2020. Os outros 72 compromissos correspondem à temporada, que acabou de ser encerrada. A maratona mais exaustiva de jogos se deu entre o fim de 2020 e abril deste ano, com partidas decisivas e que deixaram os atletas cansados física e emocionalmente. 

Aumentando o período para 380 dias, o Palmeiras cumpriu uma agenda de impressionantes 108 partidas. Em outro recorte, de acordo com levantamento do Observatório Futebol CIES (Centro Internacional de Estudos do Esporte), com sede na Suíça, de 26 de novembro de 2020 a 26 de novembro de 2021, o time jogou 97 vezes. Nenhum outro clube no mundo atuou tantas vezes. Foram confrontos importantes por Libertadores, Mundial de Clubes, Copa do Brasil, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana e Campeonato Paulista. Isto é, a equipe pagou o preço pelo próprio sucesso, indo longe em todos os torneios. 

Os outros dois clubes que mais atuaram neste ano foram Athletico-PR, presente na final da Copa do Brasil e da Sul-Americana, e o Flamengo, finalista da Libertadores contra o Palmeiras. Ambos entraram em campo 87 vezes. Na sequência aparecem Atlético-MG e Grêmio, ambos com 86, Bahia e Santos (84).

O time de Abel Ferreira terminou o ano com uma média de um jogo a cada 3,7 dias. A equipe disputou confrontos válidos por dez competições diferentes em 2021: Copa do Brasil 2020, Brasileirão 2020, Libertadores 2020, Mundial de Clubes 2020, Paulistão 2021, Recopa Sul-Americana 2021, Supercopa do Brasil 2021, Copa do Brasil 2021, Libertadores 2021 e Brasileirão 2021.

Neste ano, o Palmeiras jogou em 18 cidades e seis países, além do Brasil: Argentina, Catar, Chile, Equador, Peru e Uruguai. Para fazer um paralelo com o Chelsea, possível adversário do time alviverde no Mundial de Clubes, a equipe inglesa, atual campeã europeia, vai fechar 2021 com 65 partidas - 35 pela temporada 2020/2021 e 30 pela atual jornada.

O excesso de jogos no Brasil prejudica o planejamento dos clubes e não permite a recuperação adequada dos atletas. "Já disse que o calendário é insano, o que fazem aqui é desumano", esbravejou o português, após a decisão da Libertadores. Naquele momento, ele estava inebriado pela conquista continental, mas não esqueceu do que ele e os atletas viveram com a sequência desgastante.

"Vou voltar a criticar o calendário porque se queremos valorizar o futebol brasileiro, os jogadores brasileiros, a seleção brasileira, temos de criar condições para que quando assistimos a um jogo, vejamos um bom jogo", disparou o técnico em outra ocasião.

Ao contrário do que houve na temporada retrasada, boa parte do elenco do Palmeiras foi liberado para as férias com antecedência. Com o título da Libertadores conquistado, o clube pôde dar férias aos seus principais jogadores e escalou apenas jovens oriundos da base nas três rodadas finais do Brasileirão. E Abel Ferreira, mesmo contrariado com o desgaste que viveu no futebol brasileiro, vai permanecer no cargo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.