Gustavo Oliveira Londrina Esporte Clube
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Futebol brasileiro teve 51 casos de injúria racial no ano e vê ausência de penas mais severas

Desde 2014, foram mais de 200 denúncias de racismo, mas só 40% dos episódios chegaram aos tribunais e apenas 60% destes tiveram punição, segundo dados do Observatório da Discriminação Racial do Futebol

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 05h00

Foram cinco longas horas em que o jogador Celsinho, abatido, acompanhou o julgamento do STJD na última quinta-feira sobre o recurso do Brusque para retirar a punição e receber de volta os três pontos da pena pelo ato racista cometido em uma partida da Série B. Esse foi um dos 51 casos de injúria racial registrados no futebol brasileiro em 2021, segundo dados do Observatório da Discriminação Racial do Futebol.

Ainda segundo a organização, desde 2014, mais de 200 denúncias de racismo foram registradas, mas só 40% dos episódios chegaram aos tribunais e apenas 60% destes tiveram punição dos envolvidos.

A decisão final do caso envolvendo o meia Celsinho e o Brusque, às vésperas do Dia da Consciência Negra, neste sábado, foi a perda de um mando de campo, mantendo a multa de R$ 60 mil ao clube e a pena de 360 dias de suspensão, mais a multa de R$ 30 mil ao presidente do conselho deliberativo Júlio Antônio Peterman, que praticou a injúria.

A diferença desse caso para outros é que, depois da denúncia do jogador, o clube catarinense emitiu nota negando que houve ato racista e dizendo que Celsinho havia feito falsa imputação de racismo. O Brusque sofreu grande pressão nas redes sociais, e, posteriormente, pediu desculpas pelo posicionamento anterior.

Diretor do Observatório da Discriminação Racial do Futebol, Marcelo Carvalho disse que a decisão do STJD não foi surpreendente, mesmo no mês da Consciência Negra, mas o entristeceu.

“O Celsinho falou na sessão o quanto foi grave o episódio, mas foi ignorado. Não vamos ter mudança de punição se os casos sempre forem julgados pelo mesmo grupo de pessoas (homens brancos). Também precisamos falar da responsabilização dos clubes nesses episódios. Os times precisam investir dinheiro em várias ações, como palestras, dentro da sua comunidade”, comenta.

O advogado que defendeu Celsinho e o Londrina, Eduardo Vargas, lamentou o conservadorismo da decisão do tribunal e disse que ela foi um retrocesso na luta contra o racismo no esporte.

“Nosso objetivo era o efeito didático desta punição. Houve uma incoerência do tribunal. A  maioria entendeu que era um caso grave, mas não gravíssimo. Eles puniram o Brusque com perda de mando de campo, mas só se faz isso, se for caso de extrema gravidade. Como mensurar a dor alheia? Racismo não tem gradação. Racismo é racismo e as penas precisam ser severas. A decisão do tribunal foi salvo conduto para o ato”, explicou Vargas, que lamentou ser o único advogado negro presente. “Nós não somos vistos nesses ambientes. A luta torna-se mais difícil em função disso”.

Em entrevista ao Estadão, em setembro, Celsinho disse que a situação não vai mudar se não houver luta. “Representatividade para mim é atitude, vai além do gesto. De nada adianta vestir camisa ou abrir faixa se não houver posicionamento. Tem de agir na causa, punir, porque isso é crime. Tem de fazer cumprir a lei”.

Outros casos mancharam o futebol brasileiro

No início do ano, o Corinthians rescindiu contrato com o zagueiro Danilo Avelar, válido até fim de 2022, por comentário racista em um jogo online e que teve grande repercussão nas redes sociais. A pressão da torcida corintiana forçou o clube a desligar o atleta.

“No modo geral, os torcedores têm se mostrado um pouco mais sensíveis à discussão de racismo. As torcidas estão se envolvendo mais nessas causas do que os clubes e as federações. Esse processo de cobrança dos torcedores têm um eco relevante”, diz Roberta Pereira da Silva, pesquisadora do racismo no esporte e doutoranda pela PUC em Serviço Social.

Neste mês, uma funcionária de um bar do Mineirão foi agredida e chamada de 'macaca' e 'lixo' por um torcedor durante uma partida entre Atlético-MG e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro.

Nesta semana, o STJD denunciou o Cruzeiro por um ato racista de um torcedor contra o atacante Jefferson, do Remo, em jogo disputado no estádio Independência no dia 28 de outubro pela Série B. A decisão sairá na próxima terça-feira.

Clubes brasileiros lançam camisas para o Dia da Consciência Negra

Na semana do Dia da Consciência Negra, Internacional e Flamengo lançaram, através de seu fornecedor de material esportivo, um uniforme especial na cor preta, com detalhes em branco, trazendo no peito um patch de cabelo Black Power e a frase “É a Coroa” estampada. A camisa, que se diferencia apenas pelo escudo de cada clube, homenageia a relevância de homens e mulheres negros do futebol brasileiro.

O São Paulo, que também tem o mesmo fornecedor, não quis a camisa, cujas cores branca e preta remetem aos rivais Corinthians e Santos. O clube prepara ações próprias para este sábado. Outros times brasileiros, como América-MG, Bahia, Botafogo, Cruzeiro e Remo, também lançaram uniformes pela causa antirracista.

"É cada vez mais necessário a clareza e objetividade das posições sobre temas relevantes socialmente, tanto para clubes, quanto para atletas. Nós vivemos um tempo em que diferentes grupos sociais estão empoderados para poder viver sua vida colocando em prática suas convicções e certezas. Estamos numa era em que as pessoas podem ter acesso ao que lhes interessa e a dúvida sobre determinada posição de uma instituição ou atleta pode gerar uma decepção muito mais danosa em termos de imagem do que quando se pensa diferente, mas se é claro no posicionamento”, diz Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte e CEO da Feel The Match.

Outra ação importante no combate ao racismo no futebol brasileiro foi do Internacional, que incluiu cláusulas anti-discriminatórias nos contratos com jogadores dos times masculino e feminino e cerca de 500 funcionários que podem ser demitidos, inclusive por justa causa, se cometerem atos de discriminação racial, sexual, social e religiosa.

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