Futebol brasileiro nas mãos da Justiça

Missão cumprida. Com a aprovação unânime do relatório da CPI do Futebol, na manhã desta quinta-feira, o trabalho de depuração do futebol brasileiro passa agora a ser conduzido pelo Ministério Público, delegacias da Receita Federal e Banco Central e pela Justiça. São esses os órgãos encarregados de responsabilizar o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e outras 16 pessoas, a maioria dirigentes de clubes e federações, pela prática de crimes que levaram à penúria os principais times do País, conforme conclusão da CPI realizada no Senado.O relatório do senador Geraldo Althoff (PFL-SC), aprovado por 12 votos a zero, denuncia crimes de lavagem de dinheiro, sonegação, evasão de divisas, apropriação indébita e falsificação de documentos. O presidente da comissão, senador Álvaro Dias (PDT-PR), fez, no encerramento dos trabalhos, um apelo para seja trocado o comando da CBF. Segundo ele, Ricardo Teixeira não tem autoridade para liderar a seleção brasileira na copa do mundo de 2002.Os 14 meses de investigação custaram aos cofres públicos cerca de R$ 90 mil. O valor é ínfimo se comparado ao retorno de R$ 10 milhões, estimados pelos senadores, que deverão ser arrecadados pela Receita Federal de dirigentes que não prestaram contas dos recursos obtidos em operações suspeitas. Os documentos examinados pela CPI mostram que só o valor sonegado pelo presidente do Flamengo, Edmundo Santos Silva, chega à casa dos R$ 800 mil."O retorno financeiro da CPI daria para pagar mais de 10 comissões de investigações", avaliou Althoff. Na próxima quarta-feira, o relator da comissão e o presidente Álvaro Dias entregarão o relatório ao ministro do Esporte e Turismo, Carlos Melles.Nos últimos dias, Melles cresceu no conceito dos membros da comissão, por ter se empenhado em impedir que parlamentares aliados da CBF, da chamada ?Bancada da bola?, boicotassem os trabalhos da CPI. O ministro quer transformar uma das propostas feitas pelos senadores, que cria a Lei de Responsabilidade do Futebol, em medida provisória. A alteração permitiria o efeito imediato de regras de conduta e a punição de dirigentes que desviarem dinheiro dos clubes.Eurico - Na próxima terça e quinta-feira, com a entrega do relatório da CPI ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, e ao presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), respectivamente, começará a se fechar o cerco em torno do presidente do Vasco, o deputado Eurico Miranda (PPB-RJ). Ele foi denunciado pela comissão por sonegação, evasão de divisas, falsidade ideológica, apropriação indébita e crime eleitoral.As investigações darão a Brindeiro novos argumentos para pedir ao Supremo Tribunal Federal que abra inquérito contra o presidente do Vasco. Dois dos três pedidos feitos até agora contra Eurico foram negados pelos deputados. Mas a situação tende a mudar com relação ao pedido feito da CPI para que seja aberto um processo de cassação de seu mandato, por quebra de decoro parlamentar.Relutante em se manifestar sobre o colega, o corregedor-geral da Câmara, deputado Barbosa Neto (PMDB-GO), mostra agora uma postura de quem pretende levar o caso adiante, após receber o relatório da comissão. "Se as denúncias forem consistentes, mandarei o caso para o Conselho de Ética", afirmou o parlamentar.O relatório também será entregue, na outra semana, aos ministros da Fazenda, Pedro Malan, e da Previdência Social, Roberto Brant.Taleban - Único integrante da ?Bancada da bola? presente na última sessão da CPI, o senador Gilvan Borges (PMDB-AP), surpreendeu ao votar a favor do relatório "com restrições". A outra surpresa de Gilvan foi causada pelos termos do voto separado com o qual pretendia desagravar os dirigentes denunciados pela comissão. Só que o exagero de suas palavras, terminou dando um tom cômico ao seu discurso. Ele comparou o trabalho da CPI a "uma tarefa voltada para os holofotes nacionais, como uma mariposa em busca de luz". Na sua opinião, o relatório de Althoff é "faccioso, tendencioso e irresponsável". "Como na Santa Inquisição, a CPI do Futebol não quer saber de inocentes ou culpados, preferindo pegar politicamente alguém para pagamento dos pecados de muitos", defendeu Gilvan Borges.Com ironia, o deputado atacou igualmente os colegas da ?Bancada da bola? que viajaram na última hora, ao dizer que pedia "desculpas aos companheiros Talebans que desertaram, por não poder acompanhá-los".Ao final da sessão, o senador Gilvan Borges demonstrava alegria. E suas razões, às vésperas de um ano eleitoral, são explicáveis: em sete anos de mandato, nunca ele apareceu tanto nos jornais e na televisão como agora. E pelo jeito devem ser mínimos ou nenhum os efeitos de sua posição a respeito da corrupção no futebol brasileiros sobre seus eleitores.

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