Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Futebol brasileiro vai alcançar o da Europa em 2015

Especialistas acreditam que em 3 anos clubes do Brasil pagarão salários equivalentes aos dos grandes europeus

Jamil Chade,

28 de janeiro de 2012 | 20h58

Se a atual tendência for mantida até meados da década, o Brasil poderá estar pagando salários equivalentes aos da grande maioria dos clubes europeus e a opção de sair do País, para muitos, será uma escolha baseada na carreira esportiva, e não em finanças. A avaliação é de alguns dos principais executivos e economistas da Uefa que, consultados pelo Estado, estimam que a partir de 2015 o futebol brasileiro terá recursos para competir de "igual para igual’’, pelo menos, com a maioria dos clubes do Velho Continente em termos de poder financeiro.

Para os cartolas europeus, a explosão de salários no Brasil tem criado um "terremoto’’ no mercado internacional, habituado nos últimos 30 anos a se servir de jogadores do País. Nos últimos 15 anos, 50 das 400 maiores transferências do futebol envolveram brasileiros, o grupo mais cobiçado.

Mas, desse total de atletas de futebol negociados, apenas 14 jogavam ainda no Brasil quando clubes europeus fizeram as propostas milionárias. A maioria, segundo a Uefa, viu seu passe sofrer a alta valorização apenas quando já estava atuando na Europa.

Por décadas, o mercado da bola funcionou de uma forma bastante clara: centenas de jogadores brasileiros eram vendidos a preços baixos para clubes de segunda categoria na Europa. Depois de duas temporadas, em média, parte deles eram revendidos para os maiores clubes do Velho Continente, com ágio que chegava até a 3.000%.

O resultado é a presença de mais de 140 jogadores que, a cada ano, cruzam o oceano em direção aos cinco maiores campeonatos europeus. No total, a estimativa é de que existam mais de mil brasileiros atuando nas primeiras divisões dos 53 campeonatos nacionais europeus.

Na Uefa, a constatação é de que esse fenômeno será cada vez mais difícil de ocorrer e a tendência é de que vários clubes filiados à entidade comece a buscar alternativas no mercado africano. Já em 2010/2011, o número de transferências desabou, para menos de 40.

"O que vemos é um reflexo da situação internacional. A economia brasileira está em expansão e tudo indica que continuará assim. Na Europa, estamos em recessão já há alguns anos e as perspectivas são de que essa crise prosseguirá’’, explicou Andrea Traverso, chefe do departamento na Uefa que aprova as contas de clubes para que possam atuar. "O futebol só reflete tudo isso’’, disse. "Seria muito positivo se o Brasil conseguisse pelo menos manter por mais alguns anos seus atletas em casa e isso só ocorrerá com melhores condições salariais.’’

Para Sefton Perry, um dos principais economistas da Uefa, a Copa de 2014 no Brasil é a oportunidade de modificar de vez a estrutura financeira do futebol nacional. "Com novos estádios, novo modelo e o crescimento da economia, o Brasil tem tudo para, em 2015, já competir com os salários europeus’’, disse.

Na própria Europa, as disparidade entre 80% dos clubes "normais’’ e a elite estão sendo cada vez mais aprofundadas. Hoje, Barcelona e Real Madrid pagam em média salários de mais de US$ 7 milhões (R$ 12,2 milhões) a cada um de seus jogadores por ano.

Para tentar se manter competitivos, dezenas de clubes europeus se endividaram para atrair bons jogadores, tendência que levou o futebol à beira da falência. Há três anos, 55 clubes gastavam mais de 100% de sua renda para garantir salários dos atletas. Hoje, são 78. No total, os europeus acumulam dívidas de quase R$ 20 bilhões e têm cada vez mais dificuldades para encontrar quem os financie.

No caso europeu, além da crise, novas leis que entrarão em vigor a partir de 2014 prometem frear o aumento exponencial de gastos com salários. Quem não cumprir a regra de gastar apenas o que tem será eliminado de competições. Para os especialistas, isso pode ser mais uma vantagem aos clubes brasileiros.

RISCOS

Mas a Uefa alerta que, mesmo podendo competir com os europeus, o Brasil pode estar desenvolvendo um modelo de financiamento de atletas que pode acabar fragilizando os clubes no médio prazo. "Se analisarmos quem paga salários e quem compra jogadores no Brasil, são na maioria das vezes empresas e fundos de investimentos’’, diz Traverso.

Para a Uefa, a Fifa terá de decidir se esse modelo é compatível com as leis e se não existe o risco de transferências de jogadores serem realizadas por motivos financeiros, e não por questões esportivas. Além disso, a questão que tende a crescer é sobre a propriedade dos atletas e qual o poder que clubes de fato dispõem sobre seus jogadores. "Isso tudo terá de ser pensado no Brasil nos próximos anos’’, alertou Traverso.

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