Paulo Pinto/São Paulo
Paulo Pinto/São Paulo

Início da temporada 2022 do futebol brasileiro é marcado por episódios de violência

Episódio mais emblemático aconteceu na Copa São Paulo, quando um torcedor são-paulino invadiu o gramado portando uma faca; especialistas avaliam casos e criticam modelo de torcida única

Rodrigo Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2022 | 10h00

A temporada 2022 do futebol brasileiro mal começou e diversos casos de violência envolvendo torcidas e invasão de campo foram registrados. Na quarta-feira, dia 25, torcedores do Gama e do Brasiliense deram início a uma briga generalizada nas arquibancadas do Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Um extintor de incêndio chegou a ser usado na briga e a Polícia Militar interveio com bombas de gás lacrimogêneo. Atos de selvageria também ocorreram em São Paulo, Curitiba e Natal.

O caso mais emblemático do mês aconteceu dia 22, na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Júnior, a Copinha, quando são-paulinos invadiram o gramado da Arena Barueri e partiram para cima dos jogadores do Palmeiras, que vencia a partida por 1 a 0 e acabou se classificando para a final do torneio. Uma faca foi encontrada entre os objetos atirados no campo de jogo. Ela teria entrado no estádio dentro de uma marmita. Jogadores do São Paulo tiveram de segurar os briguentos.

Um dia após o incidente, o clássico entre Athletico-PR e Paraná terminou em quebra-quebra na Arena da Baixada, com cadeiras sendo arremessadas e divisórias sendo derrubadas. Já nesta quarta-feira, torcedores do rubro-negro paranaense se envolveram em um novo tumulto, desta vez no jogo diante do Maringá. Durante a partida, os donos da casa arremessaram objetos em direção aos athleticanos, que revidaram a agressão derrubando a divisória e partido para cima dos rivais. Um torcedor rubro-negro usou uma barra de ferro para atacar os adeptos do Maringá. O caso foi relatado na súmula do jogo. 

"De um ponto de vista negativo, a cultura de torcer possui a violência como característica de comportamento e forma de se expressar. Quando pensamos em violência, geralmente falamos da violência física, mas existe também a violência verbal. Essa cultura é pautada na ideia de virilidade, de transformar o ambiente hostil aos adversários", diz Cleyton Batista, Doutorando em Educação na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador sobre assuntos relacionados à torcida no futebol. "O ambiente do futebol possibilita essas manifestações, mas é um reflexo de uma sociedade que banaliza a violência e isso se materializa também nas arquibancadas", conclui. 

O episódio mais lamentável, no entanto, aconteceu em Natal, também no último domingo. Uniformizadas de América e ABC tomaram conta de em um trecho da BR-101 na capital potiguar, transformando o local em um campo de batalha em plena luz do dia. Carros voltaram na contramão com medo, rojões foram atirados e um homem, envolvido na briga, foi espancado. Tudo foi filmado por moradores da região. 

Durante a década de 1990, as tradicionais festas com bandeiras e públicos abarrotando estádios deram lugar a um crescimento das brigas nas arquibancadas — geralmente protagonizadas por uniformizadas. Dificilmente os fãs de futebol não relacionaram o episódio da faca na semifinal entre Palmeiras x São Paulo na Copinha deste ano com a batalha do Pacaembu. Em 1995, tricolores e palmeirenses invadiram o campo da final da Supercopa de Futebol Júnior e realizaram uma verdadeira batalha campal. O resultado foi um morto em 102 feridos. 

Em 2003, o governo brasileiro sancionou o Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/03), visando diminuir a onda de violência e instituir os direitos e deveres de quem frequenta os estádios. Entre os avanços da legislação, é possível apontar a criação de corpos policiais especializados no patrulhamento de arenas, como é o caso do Batalhão Especializado em Policiamento em Estádios (BEPE), no Rio de Janeiro. No entanto, especialistas acreditam que uma polícia especializada não é a “salvação” e a solução para os conflitos. 

“A criação de um grupamento especial, que passou a ouvir os representantes das torcidas e a compreender a linguagem e demandas próprias auxiliaram, na busca por uma relação diferente, entre torcedores e policiais, na tentativa de reduzir os conflitos no futebol e atuar previamente”, diz Raquel Sousa, Mestre em Ciências Sociais e especialista em Policiamento e Segurança em Eventos Esportivos pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “A partir dos anos 2000, aos poucos, foi importado um modelo de estádio que cria barreiras físicas que separam as torcidas, os ingressos foram ficando mais caros. Esses e outros fatores foram mudando a cultura torcedora. Isso colabora para as mudanças nas relações entre torcedores adversários e possíveis conflitos”, conclui. 

"Apesar do avanço, falta fazer mais claro essa lei. Ainda não observamos um padrão para isso. Casos como esses do início do ano não têm a devida atenção, mas o caso da Copinha é possível que ganhe alguma repercussão (jurídica) por causa do apelo", diz Batista. "É preciso uma participação maior dos clubes. O clube, de um modo geral, se coloca numa posição isenta, como se não houvesse responsabilidade pelo que acontece, quando justamente deveria ocorrer o contrário, pois ele tem uma influência forte sobre os seus torcedores."

Torcida única é alvo de críticas

Em São Paulo, há seis anos os clássicos são organizados com torcida única com o objetivo de evitar brigas no estádio e em outros pontos da cidade. A última partida entre times grandes do Estado aconteceu no dia 3 de abril de 2016, com o Palmeiras vencendo o Corinthians por 1 a 0, no Pacaembu, pelo Campeonato Paulista. Naquela manhã, um homem morreu após ser atingido por uma bala perdida, disparada de um confronto entre as duas torcidas. A bala acertou o coração da vítima, que não participava da confusão. Apesar da premissa trágica, o modelo de torcia única é criticado pelos especialistas. 

“A torcida única não resolve o problema da violência no ambiente esportivo. Como exemplo é possível citar a semifinal da copinha desse ano, que mesmo com torcida única e com cobrança de ingressos, houve episódios de violência inclusive com torcedor com uma arma branca, faca, no estádio — o que mostra uma falha na revista dos torcedores antes de entrar no estádio”, argumenta Raquel. “As relações no futebol são reflexo das relações sociais, ou seja, em sociedade nunca resolveremos conflitos e aprenderemos a respeitar o outro se não convivermos com ele, no futebol é a mesma coisa”, diz.

Para Cleyton Batista, o caso da Copinha é “emblemático” e coloca em xeque a ideia de segurança com uma única torcida nas arenas. “É importante valorizar as tentativas, porém ela acaba mascarando a questão da violência pois isola o ambiente do estádio, mas não consegue conter situações nos arredores. Em uma análise ampliada, você também prejudica o torcedor comum, que fica privado de ir a um estádio. Vale ressaltar que, ainda assim, existem casos de violência dentro da mesma torcida, o que é pouco abordado”. 

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