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Antero Greco
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Futebol brasileiro vive

Sem preâmbulos nem rococó, direto ao assunto como zagueiro que se prezava e ia na canela do centroavante até em rachão: o Brasileiro está emocionante. Não é um primor técnico, as equipes sentem falta de craques, não têm o recurso dos endinheirados europeus – e ainda assim jogam bola. Na terra da seleção que tomou 7 a 1 numa Copa em casa, se pratica futebol. Por mais que se tente espezinhá-lo, desprezá-lo e botá-lo pra baixo. 

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2015 | 03h00

Não se trata de delírio nem de viver no mundo da Lua. Apenas um exercício de ir contra maré de pessimismo, tão em moda no País e que não poupa o esporte mais popular. Nossos grandes não podem comparar-se com multinacionais como Real, Barcelona, Bayern de Munique. Está fora de questão, pois essas não são equipes, mas indústrias de entretenimento, que procuram estender raio de influência em toda parte, aqui incluída.

Nem por isso os clubes destas bandas deixam de encantar. Se achar o verbo muito esfuziante, mude para atrair. Só faça um esforço para chutar o complexo de vira-latas que se apoderou de nossas mentes após a surra para a Alemanha um ano atrás no Mineirão. 

O campeonato da Série A – e os das outras também, embora pouco badalados – tem equilíbrio, chama a atenção, estimula o torcedor a sair de casa e debandar para os estádios. As tais arenas recebem lotação total ou grandes plateias não por acaso nem porque o dinheiro esteja a sobrar nas carteiras. Se a ocupação anda acima da média é porque algum valor há no espetáculo. 

E o fascínio se concentra na competitividade. Sem ufanismo, não existe, dentre os torneios de ponta, um que se assemelhe ao do Brasil. Em emoção e imprevisibilidade, ressalte-se e repita-se, pois sempre tem um desavisado. Agora mesmo, virou-se o turno e quantos estão na briga pelo título? Dois, três, quatro?! No mínimo, meia dúzia, ou você acha que o Corinthians já levou? Desprezaria a reação de Grêmio e Atlético-MG em 19 rodadas? Descarta Fluminense, São Paulo e Palmeiras? Noves fora polêmicas de arbitragem, esse bloco tem muito a oferecer.

E na Espanha, quantos estarão a brigar, ao término da primeira fase? Como?! Sim, claro, Real e Barça, como sempre. Uma vez a cada década e meia aparece um intruso. Na Alemanha, quantos? Ah, só Bayern. Na França? PSG disparado. Na Itália? A Juve de quase sempre. A Inglaterra apresenta variação maior, but not so much. 

É evidente que assistir às máquinas em ação dá prazer, e ficamos a nos remoer de vontade de ver Messis, Cristianos e Neymares nos times daqui. O enfoque não é esse, mas a alternância de hegemonia no Brasil, que não existe na Europa. Espie a lista dos campeões e constatará que, nos últimos 15 anos, oito times levantaram a taça.

No mesmo período, na Alemanha, foram 5 – 9 vezes só o Bayern e 3 o Dortmund. Na Itália, só quatro – 7 vezes a Juve (um título revogado), 5 Inter, 2 Milan e 1 Roma. Na Espanha, 4 também, com 7 para Barcelona, 5 para Real Madrid, 2 Valencia, 1 Atlético de Madrid. Cite quantas vezes o Real, o Barça, a Juve, o Manchester, o Bayern, perderam feio, em casa e fora o baile, para times pequenos? Contam-se nos dedos. No Brasil, o Goiás pode vir para o Morumbi e ganhar do São Paulo, o Flamengo pode receber o Figueirense e cair, e assim por diante. O bicampeão Cruzeiro visita o Joinville e toma de 3. 

Pena que não se saiba capitalizar esse aspecto do Brasileiro, um pecado que se tenha vergonha de elogiar. Soa sacrilégio desarmar o espírito e animar-se com o futebol local; parece que, ao reconhecer que há pontos positivos nele, por tabela se elogiará a CBF. Ora, uma coisa não tem a ver com a outra, porque qualquer cidadão de bom senso sabe que a CBF pouco se lixa para os clubes; o negócio dela é seleção. Tanto que desfalcará as equipes por causa dos amistosos mequetrefes nos EUA.

Bendita discussão sobre “esquemas de arbitragem”. Ela mostra que, apesar de tudo, os torcedores ainda amam times brasileiros. 

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