Antonio Calanni/AFP
Antonio Calanni/AFP

Futebol começa a sentir os efeitos das fake news

‘Estado’ ouve clubes, conversa com especialistas e consulta Facebook e Google para esclarecer e apontar soluções sobre o assunto

João Prata, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2018 | 17h26

O termo fake news não é mais exclusividade do noticiário político das grandes empresas de comunicação. Na última semana, as duas palavras em inglês que significam “notícia falsa” ganharam destaque nas editorias esportivas. Elas foram ditas em português, de Portugal, pelo craque Cristiano Ronaldo.

O jogador da Juventus respondeu às acusações de estupro nos EUA que sofre dizendo se tratar de fake news, embora o caso seja investigado. Em entrevista para a revista alemã Der Spiegel, a vítima afirmou que o jogador ofereceu US$ 375 mil (R$ 1,5 milhão), aceitos, pelo seu silêncio. Em 2009, quando teria ocorrido a relação criminosa, a americana temia por si e por sua família.

Nesta semana, circulou nas redes sociais brasileiras uma informação falsa sobre o sorteio da CBF. Um vídeo editado indicava que o Corinthians teria sido beneficiado na escolha do mando de campo da final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro. Os clubes desmentiram, o assunto foi dado por encerrado e o responsável por espalhar a mentira não foi localizado. Eram fake news.

Os dois casos são de naturezas diferentes. Para compreender esse fenômeno e saber os impactos que ele pode causar, especialmente no futebol brasileiro, o Estado entrou em contato com os responsáveis pela principal rede social do mundo, o Facebook. Também procurou o Google, o site mais popular de buscas da internet, e ainda ouviu o departamento de comunicação dos clubes que disputam o Brasileirão.

Dois especialistas ainda mostram-se preocupados com a onda. A informação falsa leva o torcedor a caminhos errados, a cobranças acirradas e a mais intolerância entre as torcidas. Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e colunista do Estado, jogou luz ao tema. "Fake news é o nome de fraude informativa cometida nas redes que tenta se passar por jornalismo e induz o publico ao erro", definiu.

O caso de Cristiano Ronaldo não se trata de fake news. Bucci esclarece que a falsidade começa antes. A forma é falsificada antes de se tornar conteúdo. “O jornal pode até ter mentido, praticado calúnia, mas não produzem fake news. Não produzem porque ele responde por isso”, ensina Bucci.

O caso da Copa do Brasil se enquadra mais no termo. Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), diz que especificamente no futebol as fake news são mais propagadas quando chegam os momentos decisivos dos torneios. “A temperatura sobe nas redes, começa a existir disputa entre torcedores e cria-se ambiente de instabilidade”, analisa. “Então, o torcedor passa a compartilhar aquilo que ele quer acreditar. É muito idêntico ao que ocorre na política.”

Como consequência, pode acontecer o processo de normalização do que é falso, como por exemplo insistir que o Corinthians é sempre ajudado pela arbitragem. “Cria-se a cultura da teoria da conspiração. As distorções de imagens e vídeos são hegemônicas no entretenimento. É algo comum”, diz. O que não se pode confundir no futebol, e no esporte de modo geral, é fake news com memes. O primeiro informa errado. O segundo brinca com a notícia. 

Facebook e Google possuem formas semelhantes de combater as notícias falsas e usam especialmente a inteligência artificial para auxiliar na identificação do que é fake. A rede social age com base em três pilares: remove posts que violam sua política, reduz em 80% publicações que possam ser falsas (isso significa torná-las quase invisíveis na rede) e relata às pessoas sobre os conteúdos que elas veem.

O Google informa que investe pesado em tecnologia para proteger os usuários de informações falsas. Consegue identificar e reduzir o fluxo de tráfego. Ainda realiza parcerias e apoia iniciativas de agências que fazem a checagem de informações, como o First Draft e Projeto Comprova, do qual o Estado é parceiro. Tanto o Google quanto o Facebook oferecem espaço para que o usuário denuncie o conteúdo que considerar mentiroso.

MAIS UNIÃO - Dos clubes que responderam à reportagem do Estado, nenhum propôs a solução que pode ser a mais simples e mais eficaz no combate a proliferação de notícias falsas. Segundo Malini a melhor maneira de combater as fake news são com integração e muito mais envolvimento das partes.

“É necessário uma grande parceria, criar hashtags em conjunto, por exemplo, sobre determinado assunto. Isso já acontece em outras áreas e funciona. O torcedor hoje está mais informado e pode colaborar também na identificação e no combate às notícias falsas do seu time.”

Os clubes, de maneira geral, monitoram as redes sociais e a principal preocupação está em evitar a criação de páginas que fingem se passar por oficiais. Porque é a partir delas que as notícias inventadas passam a se proliferar nas redes como sendo verdadeiras.

O diretor de marketing do Corinthians, Luis Paulo Rosenberg, comentou sobre a confusão que é feita entre o meme e as fake news. Sobre o primeiro, que é mais uma brincadeira, o clube entende que “o bom humor e a gozação fazem parte do futebol”. Sobre o segundo: “Quando o tema é grave, o Corinthians sempre se posiciona criticamente e utiliza a capilaridade de suas redes para sensibilizar a Fiel sobre temas delicados como o assédio sexual, a violência doméstica e o preconceito”, respondeu o dirigente.

O presidente do Atlético-PR, Mario Celso Petraglia, diz que não há hoje como monitorar tudo o que se publica nas redes em relação ao clube. No entanto, quando a notícia falsa ganha repercussão, “entramos e obrigamos que ela seja deletada”. 

O departamento de comunicação do Santos lembrou de um caso de notícia falsa ocorrido há alguns anos. Uma página com o nome do clube informou na rede social que estavam abertas as inscrições para avaliação da garotada nas categorias de base. E que era preciso pagar para isso. O departamento jurídico do Santos foi acionado e resolveu o problema derrubando a página, sem punições aos envolvidos na falsidade. O clube passou a informar que não cobra pelos testes.

Malini diz que os clubes de futebol deveriam se debruçar e ir mais a fundo em relação às fake news. A medida é mais uma forma de se prevenir, de estar pronto para quando surgirem problemas mais sérios. Como exemplo, o coordenador citou o caso do acidente de avião com os jogadores da Chapecoense.

“Aquele momento tinha muita informação desencontrada e ninguém para responder. Acho importante ter o processo de hashtags em conjunto por isso. Os clubes juntos mobilizam audiências elevadíssimas.”

A assessoria do Atlético-MG, ao ser questionada sobre maior união dos clubes, disse que há uma troca e que não é raro combinar discursos e posturas diante de notícias falsas, sobretudo sobre negociação de atletas.

QUATRO PERGUNTAS PARA EUGÊNIO BUCCI: 

1. Fake news têm sido usada como sinônimo de mentira. Qual é a diferença?

Fake news é uma forma particular de propagar mentira, produzida pelo advento das tecnologias digitais, redes, sites de buscas e plataformas. Ela falsifica o jornalismo. Está na forma, antes do conteúdo. Se passa por registro jornalístico sem ser. Pega carona no conteúdo, porque faz parecer relato factual. Imita.

 2. A imprensa pode ser responsabilizada na divulgação das fake news?

Não. O jornalismo pode até contar mentira, mas não produzem fake news. A falsidade começa antes. É notícia falsificada. O jornal tem endereço, a notícia é assinada, tem origem, tem quem responda por aquilo. As fake news são o nome de uma fraude informativa que induz o público ao erro.

3. No futebol, como é que os clubes podem combater o problema?

Os clubes precisam se proteger e monitorar as redes por razão de sobrevivência das marcas, e também para mostrar a verdade dos fatos. Ninguém pode ficar alheio a isso. Os planos de ação que ela prospera são os mesmos que as fraudes digitais acontecem.

4. Como está a legislação para combater as notícias falsas?

É um assunto sério que em outras áreas tem até matado. Na saúde, por exemplo, saiu que o própolis combate a febre amarela. Tem gente que acredita, não toma vacina e morre por causa disso. A legislação que existe já é o suficiente. E é preciso tomar cuidado sobre essa questão porque uma mudança pode causar censura na comunicação.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.