Futebol dá uma chance aos garotos da Febem

Quase todo menino sonha em ser jogador de futebol. E uma das coisas que mais fazem falta aos internos da Febem é sonho, esperança, perspectiva de um futuro melhor. Não é à toa que em Franco da Rocha, uma unidade que ficou famosa pela violência de suas rebeliões, a tradicional ?pelada? seja a hora de lazer mais aguardada pelos garotos. É o momento em que os ?craques? aparecem e fazem a diferença.Para qualquer garoto de periferia, o futebol pode significar uma carreira cheia de glórias e de muito dinheiro, mas para um interno da Febem pode ser o argumento que faltava para conseguir a liberdade.Se um interno for convidado por alguma equipe profissional, as chances de ele ser liberado aumentam consideravelmente. Já houve alguns casos semelhantes.Um dos candidatos é D.W.S, de 17 anos, que joga no juvenil do Comercial de Ribeirão Preto, com a autorização do juiz. O garoto se destacou em amistosos e teria despertado o interesse de olheiros do Nacional, da capital paulista. Mas a transferência ainda depende de um parecer favorável da Justiça.Mas mesmo com o apoio de um clube, o estigma de ser um ex-interno da Febem é o maior obstáculo para a readaptação à sociedade. O preconceito é enorme. E a vida de crime e violência que levou o jovem à internação nunca fica completamente no passado.Em Franco da Rocha, os funcionários lembram do caso de dois garotos que se destacavam na escolinha de futebol e foram convidados para integrar o time da Força Sindical. Nos dois casos, o passado marginal foi implacável. Mesmo morando no alojamento do clube e recebendo uma pequena ajuda de custo, os garotos tiveram recaídas e voltaram a roubar.Os motivos não são muito precisos. Um deles, segundo boatos, teria uma dívida antiga com bandidos e foi obrigado a participar de um roubo. O outro, que teria despertado até o interesse do PSV Eindhoven, da Holanda, foi atingida por vários tiros e perdeu a visão de um dos olhos. Sem a perspectiva de uma carreira profissional, acabou voltando ao crime. Os dois estão presos.Mas há quem saia da Febem e consiga fazer carreira dentro do futebol profissional. O auxiliar-técnico Rodrigues, que ao lado de Zé Maria orienta a seleção da Febem, conta: "Outro dia fizemos um amistoso e encontramos um zagueiro que passou pela Febem. Foi bom porque nossos garotos viram que é possível vencer na carreira. Deve haver mais casos, mas ninguém fica falando que é ex-Febem."Mas não é fácil vencer fora da instituição, pois as marcas da internação são visíveis. Na Febem, os internos são obrigados a chamar a todos de "senhor" ou "senhora". São vigiados 24 horas por dia. Raros os que não possuem tatuagens - ao contrário, ostentam tatuagens dos mais variados desenhos e tamanhos. Falam pouco e quando questionados sobre a razão de estarem ali, a resposta é o número da lei. São garotos no papel. Muitos já são pais e arrimos de família e aprenderam a lidar com um passado muito difícil de esquecer.

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