Marcio Fernandes/ Estadão
Antes de se tornar o ídolo corintiano, Basílio começou a carreira na várzea do Campo de Marte Marcio Fernandes/ Estadão

Futebol de várzea luta para sobreviver na zona norte

Seis clubes do Campo de Marte pode ser 'despejados'

Gonçalo Junior e Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h00

Passava das três da tarde, sol de rachar, quando Lucas deu o primeiro pique no gramado com pouca grama do clube de várzea Cruz da Esperança, no terreno do Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. Todos os dias ele faz isso. Sem clube, sem preparador físico, sem companheiro para ajudar no alongamento, sem goleiro para defender seus chutes, ele treina sozinho enquanto procura um time profissional. Agora, Lucas corre o risco de também ficar sem campo: uma notificação judicial do Ministério da Defesa, proprietária do terreno, exige a desocupação da área formada por cinco campos de futebol. O local pode virar o Museu da Aeronáutica.

O caso envolve uma disputa jurídica de mais de cem anos. A Prefeitura e a União alegam serem donas do terreno, que foi confiscado pelo Governo Federal durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Uma área restante de 1,1 milhão de metros quadrados é gerida pelo Ministério da Defesa, que mantém no local uma série de instalações da Força Aérea, como o Hospital da Aeronáutica, um Centro Logístico e residências de oficiais.

Nos anos 60, o Ministério da Defesa cedeu parte desse espaço para os clubes de várzea Cruz da Esperança e Sade. Depois vieram Pitangueira, Paulista e Baruel. Todos ocupam o local há mais de 45 anos, e apresentam documentos emitidos pelo Comando de Apoio Militar do Ministério da Aeronáutica, que trata da cessão do uso gratuito da área do Campo de Marte para a prática de esportes. O último acordo, firmado em 2009, tinha a vigência de 24 meses, renováveis por mais 60. Até aí, tudo bem.

Mas os documentos também falam que, a qualquer momento, o Ministério da Aeronáutica tem o direito de terminar a cessão da área. Parece que essa hora chegou no mês de abril. Os presidentes dos clubes receberam uma notificação judicial, por meio da Advocacia-Geral da União, com o prazo de 60 dias para desocuparem o espaço. A ação, em curso na 2.ª Vara Federal de São Paulo, informa que a intenção é instalar ali o Museu da Aeronáutica.

Por meio de uma liminar, os clubes conseguiram permanecer no Campo de Marte. A alegação principal é que a área não pertence mais à União, e sim à Prefeitura de São Paulo, naquela longa disputa centenária. O processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça que, em 2009, proferiu decisão favorável ao Município. Os clubes conseguiram o direito de continuar no local por enquanto, mas a disputa continua.

A Sociedade dos Clubes Mantenedores do Complexo Esportivo de Lazer e Cidadania do Campo de Marte, entidade formada pelos clubes que administram o local, fez até um abaixo-assinado na internet para sensibilizar a população. Já foram recolhidas 25 mil assinaturas. Em caso de derrota judicial, querem comprovar que contam com o apoio da população. “Perder esse espaço significará a morte de um grande espaço da história da várzea paulistana”, diz Otacílio Ribeiro, integrante da Sociedade.

O fim do espaço de aproximadamente 73 mil metros quadrados significa praticamente o fim do futebol amador na zona norte. São seis campos utilizados semanalmente por cerca de cinco mil pessoas, entre jogadores e torcedores. Tudo fica lotado. É uma espécie de versão comunitária do Campeonato Brasileiro. O dinheiro sai das mensalidades dos associados, de empresários locais e de eventos comunitários. No total, os clubes possuem dois mil associados que pagam mensalidade entre R$ 20 e R$ 25. Os presidentes se orgulham de gerir o espaço sem dinheiro público, mas reclamam que não conseguem mais apoio da iniciativa privada por causa da questão judicial.

O espaço também é um importante centro de integração da comunidade. Todos os clubes do local possuem uma escolinha de futebol para crianças carentes do Parque Peruche e da favela do “Boi Malhado”. Eles jogam futebol aos domingos, e ganham café da manhã e almoço. “Os clubes de várzea desempenham um papel importante de integração na comunidade, com atividades que vão além do futebol”, avalia Aira Bomfim, pesquisadora do Museu do Futebol.

Depois de umas duas horas de ritmo puxado, Lucas Esequiel termina a atividade. Está preocupado com o futuro do local onde treina. Casado e pai de dois filhos – Luana, de 3, e Cauê, de 10 – acha que seria difícil pagar um lugar para manter o condicionamento físico enquanto procura um clube. “A várzea ainda revela muitos jogadores. Hoje, revela menos. Os empresários é que fazem contato direto com os clubes. Os olheiros são poucos”, conta o jogador que já passou pelo Barueri.

Lucas conta que escolheu a área porque seu pai gostava de jogar ali, anos atrás, e que seu avô fazia a mesma coisa. Ambos ainda frequentam o local.  

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Chulapa, Basílio e Edu passaram pelos campos da zona norte

Complexo de Campo de Marte produziu grandes ídolos

Gonçalo Junior e Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h00

O Campo de Marte ocupa um espaço mítico na história da várzea paulistana. Dos seis campos que formam o complexo da zona norte saíram craques que fizeram história no futebol profissional, principalmente nas décadas de 60,70 e 80. 

As paredes da sede do Cruz da Esperança, por exemplo, estão forradas de fotos antigas que fazem parte do patrimônio do clube. Norival Fernandes Ferreira, um dos diretores do clube, guarda as fotos como obras de arte. “A história do futebol está aqui”, diz. 

Muito antes de se tornar o Pé de Anjo, herói da conquista corintiana de 1977, um dos maiores títulos da história do Corinthians, o meia Basílio jogou ali. “Eu atravessava um brejo, naquela época era um brejo, para jogar bola. Foi ali que tudo começou na minha carreira”, diz o ex-jogador.

Serginho Chulapa, maior artilheiro da história do São Paulo, também começou na zona norte, onde morava. Quando jogou lá, era conhecido por Esquerdinha, referência ao chute de canhota. “Se não tivesse ido para o esporte e jogado na várzea, teria ido para a criminalidade”, confessa o auxiliar técnico da equipe do Santos. 

O lateral Zé Maria, que ficou conhecido como Super-Zé ao se destacar como um dos melhores laterais da história do Corinthians, passou pela várzea da zona norte antes de ser descoberto pela Portuguesa. Também jogaram nesses gramados nomes como Adãozinho, Cuca, Edu Bala, Ivair, o Príncipe e o goleiro Solito. Mais recentemente, o atacante Ewerthon, que jogou no Corinthians, Palmeiras e futebol alemão, é uma das  revelações da zona norte. 

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Glamour coloca em xeque o romantismo dos jogos amadores

Grama artificial mostra elitização da várzea

Gonçalo Junior e Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h00

No campo do Ajax da Vila Rica, clube da zona leste conhecido como o “Lobão da Vila”, dá para comprar vários objetos com o escudo do time e pagar tudo com cartão, em uma barraquinha ao lado do gramado. O time do Pioneer (de acordo com os jogadores da equipe, a pronúncia é pionêr), localizado na divisa de Diadema, gastou R$ 200 mil para montar sua equipe. Em vários campos da várzea paulistana, como o Flor de São João Clímaco, o chão batido, quase sem grama e cheio de ondulações, foi substituído por um vistoso e verdinho gramado sintético. Alguns lugares têm também locução e ações de comunicação institucional. 

Esse retrato dos campos de várzea surge a partir da pesquisa conduzida por pesquisadores do Museu do Futebol. Desde 2011, foram feitas mais de 50 visitas a bairros e campeonatos de São Paulo em busca da memória futebolística da cidade. “Ainda existe aquele futebol varzeano romântico em alguns lugares, como Parelheiros, por exemplo. Mas inúmeros campos passam por um processo de elitização e glamourização”, opina a pesquisadora do Museu, Aira Bonfim.

De acordo com a pesquisa, essas características mostram que o futebol amador – é dessa forma que os praticantes se referem a essa modalidade – está cada vez mais próximo do futebol profissional e mais distante de suas origens. Para a disputa dos grandes torneios, por exemplo, vários times contratam jogadores de outros bairros e perdem os vínculos familiares e comunitários, a principal característica dos times da várzea. É mais ou menos o que acontece com os jogadores da seleção brasileira que vão cedo para a Europa e perdem a identificação com o torcedor brasileiro. Existe também uma grande pressão por resultados e conquistas.

“Na maioria dos times, os torcedores conhecem os técnicos. Existe uma identidade. Mas esse vínculo está se perdendo com os jogadores”, diz a pesquisadora.

O estudo do Museu do Futebol também questiona a importância da várzea como celeiro de craques. Segundo os pesquisadores, esse papel vem sendo ocupado cada vez mais pelas escolinhas de futebol e pelas categorias de base dos clubes. Raramente um jogador é pinçado dos terrões. Essa conclusão dá força às palavras do atacante Lucas Esequiel, que joga na várzea, no Cruz da Esperança, e ainda sonha com o futebol profissional. “É difícil encontrar olheiro dos clubes nos jogos amadores”, diz o jogador.

 

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AGU tenta cassar liminar que mantém os clubes no local

Aeronáutica quer construir um Museu na zona norte

Gonçalo Junior e Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h00

A Advocacia-Geral da União, órgão que representa o Ministério da Defesa na disputa judicial contra os clubes de várzea da zona norte, vai recorrer da liminar que os mantêm no complexo esportivo do Campo de Marte. No mês de abril, os clubes receberam uma notificação judicial que pedia a desapropriação, mas conseguiram a permanência em caráter provisório. “Vamos recorrer e tentar derrubar a liminar”, afirma o procurador regional da União na 3.ª Região, Tércio Issami Tokano. 

Para conseguir a liminar, os clubes usaram um argumento baseado na disputa centenária entre a Prefeitura e a União sobre a posse da área total do Campo de Marte, que abrange mais de dois milhões de metros quadrados. Segundo os clubes, o terreno é da Prefeitura, conforme decisão do Supremo Tribunal de Justiça, publicada em 2009. Não sendo proprietária, a União não poderia pedir a desocupação. 

O Ministério da Defesa diz exatamente o contrário: o imóvel jamais deixou de ser de domínio da União e em nenhum momento foi transferido para o Estado de São Paulo ou Município de São Paulo. “Em suma, não há base legal para que a associação continue a utilizar os campos de futebol.”

Na visão do procurador, essa discussão sobre a propriedade do terreno – o Município ou a União – não impede o pedido de posse do terreno. “Essa discussão judicial não interfere no direito da União de requerer a área”, afirma. Ele explica que o Ministério da Aeronáutica pretende usar a área de 73 mil metros quadrados parar construir um museu.

“A notificação para a desocupação da área deriva da necessidade de a Aeronáutica utilizá-la para seus fins institucionais, em particular a instalação do Museu Aeronáutico de São Paulo”, afirma.

Mesmo que a Advocacia-Geral da União casse a liminar dos clubes da várzea, a discussão ainda vai continuar. A disputa que se arrasta pelos tribunais ainda não tem um prazo para ser concluída.

Disputa

O Campo de Marte é alvo de um disputa histórica entre a Prefeitura e a União. Em 1912, a Prefeitura de São Paulo entregou a área para a Força Pública do Estado para treinamento da cavalaria e, depois, para a criação de campo de aviação militar. Com a Revolução de 1932, o governo militar aboliu a aviação militar em São Paulo e tomou o Campo de Marte.

O Município não pôde recorrer durante o período Vargas. Com o fim do Estado Novo, em 1945, a cidade tentou recuperar o espaço. Não obteve sucesso e, com isso, foi aos tribunais em 1958. Desde esse momento, a ação circula nos tribunais. 

O Tribunal Regional Federal da 3.ª Região deu razão à União em 2005. A Prefeitura recorreu e o primeiro acórdão do STJ deu ganho de causa ao Município de São Paulo.  

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