Pyramids FC
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Futebol do Oriente Médio é o novo terror dos clubes brasileiros

Região ocupa espaço que já foi da Europa, Japão e China e aposta em jogadores do Brasil para se reerguer

Ciro Campos e Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2018 | 05h00

O grande terror dos clubes brasileiros durante as últimas semanas da janela de transferência não foi o dinheiro chinês, o poderio dos tradicionais times europeus ou a procura dos japoneses. O antigo fantasma do Oriente Médio voltou a bater à porta das diretorias em busca de reforços. Levou vários atletas e ainda pode levar mais. O futebol nas areias do Oriente Médio parece ser o destino de alguns bons jogadores do País.

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Equipes da Arábia Saudita e um novo clube do Egito foram os principais responsáveis pela debandada de brasileiros. Os times chegaram sem economizar nas contratações. Após temporadas com investimentos tímidos, sauditas e egípcios voltaram a colocar a mão no bolso. Querem formar equipes fortes e bandeiras competitivas.

Na Arábia Saudita, o investimento é distribuído. O governo ajuda os clubes a quitar suas dívidas e, assim, ter reforços. Tanto que o Al-Wehda, que levou o técnico Fábio Carille, do Corinthians, é um clube mediano, da segunda divisão em 2017.

Para recuperar a credibilidade do país no esporte, mudanças estruturais ocorreram, acarretando a prisão de alguns políticos corruptos e a mudança de postura dos dirigentes. 

Já no Egito o investimento pesado veio de apenas um clube, o Pyramids. O curioso é que o dono do time egípcio é Turki bin Abdulmohsen Al-Sheikh, que também dita as regras no futebol da confederação saudita.

O investimento coincide com um momento de revitalização do futebol egípcio. Em fevereiro de 2012,74 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas durante conflito de torcidas em jogo do Al Ahly e Al Masry. Na sequência, em 2015, um conflito entre policiais e torcedores do Zamalek terminou com 20 mortos. Os episódios fizeram as autoridades a restringir a presença de público nos estádios, regra agora afrouxada.

Ministro investe para Arábia Saudita se tornar referência

“A Arábia Saudita é a nova China”. A declaração dada pelo presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, após perder Fábio Carille e parte da comissão técnica para o Al Wehda, acaba sendo, em parte, uma grande verdade.

Os sauditas voltaram a investir pesado no futebol e desta vez querem se tornar referência. Para isso, alimentam planos ambiciosos. A ordem é investir em atletas estrangeiros bons de bola e fazer com que o Campeonato Saudita se torne um dos mais importantes da região.

A Arábia voltou a ver futebol com mais interesse desde o ano passado, quando o príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, passou a atuar de forma mais direta na transformação econômica e social do país. O ministro Turki bin Abdulmohsen Al-Sheikh assumiu o comando do futebol saudita e todas as contratações de estrangeiros passam por sua aprovação. Foi assim com Carille, Petros, Valdivia, Anselmo e alguns outros.

O poder de Al-Sheikh, que tem o cargo de Presidente da Autoridade Esportiva Geral e do Comitê Olímpico da Arábia Saudita, é tão grande que ele gosta de assistir pessoalmente aos jogos da seleção saudita. E quando vê um atleta do rival que o interessa, age nos bastidores para tentar sua contratação para o futebol do país. Ele também deu aval para que agentes rodassem o mundo atrás de opções de qualidade que possam ser trazidas.

A meta é quitar todas as dívidas dos clubes e, assim, fazer com que o futebol saudita volte a ser uma referência no Oriente Médio. Alguns times chegaram a ser suspensos de torneios internacionais por atraso de salários e do não pagamento de atletas a outras agremiações.

A culpa pela inadimplência é do petróleo. A Arábia sempre foi dependente do produto de origem mineral, que possui variação de preço grande. Assim, era comum ver times contratando por valores exorbitantes e pouco depois não honrando o combinado, justamente por causa da desvalorização do petróleo. Hoje, as transações são bastante altas, mas dentro do orçamento dos clubes.

Outro motivo que incentiva o investimento no futebol local é a ideia de fortalecer o torneio mostrando-se ao mundo e, quem sabe lá na frente, também receber uma Copa do Mundo, como fará o vizinho Catar em 2022.

Time de Keno e Rodriguinho é o novo rico africano

O Egito voltou a ficar em alta no futebol internacional neste ano não só pela grande fase de Mohamed Salah, do Liverpool, ou pela participação da seleção na Copa do Mundo da Rússia. Um excêntrico milionário saudita tratou de colocar o futebol do país em evidência no mercado de transferências ao investir mais de R$ 135 milhões em 22 contratações, cinco delas de jogadores brasileiros e mais o técnico Alberto Valentim, que estava no comando do Botafogo.

O Pyramids é o novo rico do futebol das areias. O clube foi comprado há poucos meses pelo xeque Turki Al-Sheikh, presidente do Comitê Olímpico da Arábia Saudita e primo do príncipe do país. O milionário chegou recentemente ao futebol egípcio, quando ainda era presidente de honra do time local mais vitorioso, o Al Ahly, para depois investir em outra equipe. Turki se irritou com a diretoria por considerar que merecia ser tratado com mais honrarias, com a chance de posar para fotos e receber mensagens de agradecimento de jogadores contratados. O clube octocampeão continental não quis ceder aos seus caprichos e causou a ira no saudita. A decisão dele foi romper relação e comprar um coadjuvante time local, o Al Assiouty, para transformá-lo em uma potência do nível do agora desafeto Al Ahly. Quem ganhou com isso foi o futebol egípcio, mais atrativo agora.

O xeque trocou o nome da nova equipe e não tem economizado nas contratações. São propostas irrecusáveis, que beiram os milhões de reais. Trouxe para ser treinador Alberto Valentim, também com passagem pelo Palmeiras, e investiu em brasileiros como Keno (Palmeiras), Rodriguinho (Corinthians), Ribamar (Atlético-PR), Carlos Eduardo (Goiás) e Arhur Caike (Chapecoense).

O exagero foi tanto que o clube excedeu a cota de estrangeiros e já repassou Arthur.

O Pyramids oferece atrativos enormes. Carro e casa de luxo, tradutor e salários gordos. O dono saudita disse aos brasileiros e aos quatro jogadores da seleção egípcia trazidos nesta janela que quer mostrar aos rivais do Al Ahly que tem potencial para liderar um time vencedor.

A imprensa calcula que o elenco passou a valer cerca de R$ 260 milhões. Grande parte das contratações veio do Zamalek. O time recebeu aproximadamente R$ 70 milhões com as negociações e chegou a vender atletas por valores cinco vezes acima do esperado. Para os brasileiros, o montante investido passou de R$ 100 milhões.

CONTRATAÇÕES

ARÁBIA SAUDITA:

Fábio Carille (Corinthians)

Petros, Valdívia e Marcos Guilherme (São Paulo)

Otero e Yago (Atlético-MG)

Jonas (Flamengo)

Apodi (Chapecoense)

Carletto (Atlético-PR)

Anselmo (Sport)

EGITO:

Keno (Palmeiras)

Rodriguinho (Corinthians)

Ribamar (Atlético-PR)

Arthur Caike (Chapecoense)

Carlos Eduardo (Goiás)

Alberto Valentim (Botafogo)

Ali Gabr (Zamalek)

 

 

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