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Futebol e guerra: cenários que não se combinam

Quatro anos atrás, a Rússia abria suas portas para receber a Copa do Mundo numa comunhão de nacionalidades e festa; Fifa e Uefa deveriam parar o jogo enquanto pessoas morrem na Ucrânia

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 10h56

As bombas estão caindo longe da gente, longe do restante da Europa e das grandes potências esportivas mundiais. Então, que siga o jogo. Opa! Não deveria ser assim. Fifa e Uefa, as patroas do futebol, deveriam parar o jogo enquanto pessoas estão morrendo em conflitos armados com a chancela de guerra, a exemplo da invasão russa ao país vizinho nesta quinta-feira. Valeria para as ações militares de Vladimir Putin neste momento, mas para qualquer outra conduta dessa natureza que não se valha da diplomacia para resolver as discordâncias. A guerra nunca foi o melhor caminho.

Futebol não combina com guerra nem nunca vai combinar. Não há como festejar um gol ou uma jogada em campo sabendo que do lado de fora do estádio pessoas estão morrendo, atingidas por bombas caindo do céu. O Campeonato Ucraniano não vai voltar, mas não é desse que estou falando. Aponto para os outros da Europa, como a Liga dos Campeões, com jogadores de todas as nacionalidades. Imagine se a Uefa parasse a Liga e desse de ombro para todos os contratos combinados porque há uma guerra no continente! Que recado não seria esse, se não prático para cessar o fogo pesado contra os ucranianos, ao menos como gesto figurado, mais ou menos como as sanções econômicas apontadas pelos líderes mundiais.

Putin não vai segurar seus tanques por causa do futebol, mesmo sendo ele o anfitrião da última Copa do Mundo, em 2018, vencida pela França. Mas ao menos sua máscara cairia. Nem os jogadores têm autonomia para não jogar. Depende das patroas (Fifa e Uefa), das federações, dos clubes. Depende de coragem. Alguns jogadores se manifestaram. Na manhã desta sexta-feira, a Uefa tirou a final da Liga dos Campeões de São Petersburgo e a levou para Paris. O jogo final está marcado para 28 de maio. Já é um avanço.

As sanções esportivas poderiam ser ainda maiores e mais pesadas. O futebol na Rússia vai continuar? Vale lembrar que a Fifa tem autonomia na modalidade, embora os torneios nacionais sejam soberanos. Ela pode punir a Federação Russa caso a bola continue a rolar. Da mesma forma, as outras partidas pela Europa deveriam parar enquanto o conflito não fosse resolvido, enquanto as pessoas não estivessem em segurança. Parar uma, duas, três rodadas dos campeonatos... chamar a atenção para a guerra. Os clubes vão se manifestar, vão se mostrar solidários ao povo ucraniano, vão usar tarjas e se ajoelhar, mas ainda penso que isso não é suficiente.

O futebol não é nada perto de uma guerra, de uma invasão militar de um país a outro, mas não deixa de ser um pedacinho de mostra dessa indignação que o mundo está sentindo com esse ataque e com a incapacidade dos chefes de Estado de resolver a situação pela diplomacia, mesmo se tratando da Rússia e de Vladimir Putin.

Quatro anos atrás, o mundo celebrava o futebol, e porque não a vida, nos estádios russos. A bola rolava. A Copa do Mundo foi vencida pela França. O Brasil perdeu para a Bélgica e voltou para casa mais cedo. Era a festa do futebol. Putin recebeu todos os líderes mundiais. Esteve ao lado de Infantino, presidente da Fifa, e de Pelé. Estava sorridente e satisfeito ao abrir seu país para os "irmãos", mostrar seus prédios bonitos e imponentes em Moscou e em outras cidades, sua história rica, suas estações de metrô profundas e bem parecidas com museus populares. Quatro anos depois, de uma Copa para a outra, a Rússia se afasta desse cenário e se torna o grande vilão do mundo.

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