Cesar Greco/Palmeiras
Cesar Greco/Palmeiras

Futebol fará testes com substituições por concussão em 2021

Mudança responde a uma preocupação crescente com os efeitos a longo prazo de lesões na cabeça e o tratamento muitas vezes apressado que os jogadores recebem

Tariq Panja, The New York Times

21 de dezembro de 2020 | 08h00

As ligas e torneios de futebol de todo o mundo poderão fazer testes com substituições por concussão a partir de janeiro, anunciou o órgão que supervisiona as regras do esporte. A mudança é a ação mais tangível tomada pelos dirigentes do futebol em meio a preocupações crescentes com os efeitos das lesões na cabeça em todos os níveis do esporte.

Os times envolvidos nos testes terão permissão para fazer substituições adicionais em caso de concussão ou suspeita de concussão, disse o órgão, a International Football Association Board (IFAB), em comunicado à imprensa. A possibilidade de fazer substituições além das já permitidas protegeria os jogadores, dando às equipes médicas mais tempo para avaliar sua condição, disse o órgão, mas sem forçar seus times a retomar o jogo em desvantagem competitiva.

A decisão pode apaziguar os grupos de defesa e ex-jogadores que há muito defendem maior proteção para os atletas em casos de lesões na cabeça.

A mudança vem depois de vários incidentes de alto impacto nas Copas do Mundo masculina e feminina, bem como de manchetes recentes questionando os atuais protocolos nas principais ligas. Em uma partida da Premier League da Inglaterra no mês passado, o zagueiro do Arsenal David Luiz foi autorizado a permanecer em campo, mesmo com o sangue escorrendo por uma bandagem em sua testa, depois que ele bateu de cabeça com o atacante Raúl Jiménez. Com essa violenta colisão, Jiménez sofreu uma fratura no crânio.

As substituições por concussão aprovadas para testes na quarta-feira não parecem ser obrigatórias. E, como estipulam que a remoção de qualquer jogador de um jogo seria “permanente”, levantam a perspectiva de que os treinadores continuariam relutantes em tirar seus jogadores mais importantes de campo nos jogos decisivos, mesmo que eles mostrem sinais de concussão. 

No incidente mais preocupante dos últimos anos, na final da Copa do Mundo de 2014, o meio-campista alemão Christoph Kramer teve permissão para continuar jogando por 14 minutos, apesar de estar visivelmente desorientado após colidir com um zagueiro argentino. O árbitro da partida disse aos repórteres que, durante o jogo, Kramer lhe pedira para confirmar se a partida realmente era a final da Copa do Mundo.

Quatro anos depois, na Rússia, o marroquino Noureddine Amrabat ganhou as manchetes quando foi liberado para jogar uma partida da fase de grupos da Copa do Mundo apenas cinco dias depois de ter perdido a consciência durante o jogo anterior de sua equipe. O técnico do Marrocos à época, Hervé Renard, descreveu Amrabat como um “guerreiro”.

A decisão de quarta-feira foi o resultado de meses de discussões entre médicos de times, especialistas em concussões, técnicos, representantes de jogadores e a IFAB, a organização responsável por determinar as regras do futebol.

“Os integrantes concordaram que, em caso de concussão ou suspeita de concussão, o jogador em questão deve ser retirado definitivamente da partida para proteger seu bem-estar, mas a equipe do atleta não deve sofrer desvantagem numérica”, disse em comunicado a IFAB, que é composta por autoridades das quatro federações nacionais da Grã-Bretanha e da Fifa.

A decisão de realizar testes com substituições permanentes, em vez de temporárias, que permitiriam aos jogadores liberados retornar a campo, foi imediatamente criticada pela Headway, organização sobre lesão cerebral com sede na Grã-Bretanha que faz campanha por regras mais rígidas para proteger os jogadores de futebol dos efeitos das concussões.

“As questões principais são: como os jogadores serão avaliados por suspeita de concussão? E como serão tomadas as decisões sobre se eles devem ser removidos permanentemente?”, disse Peter McCabe, presidente-executivo da Headway.

McCabe disse que as substituições temporárias permitiriam que as avaliações ocorressem “longe do calor da batalha e do olhar dos jogadores, dirigentes, técnicos e torcedores”, mas também alertou que os médicos têm responsabilidade com os jogadores, não apenas com as equipes.

“Se essas decisões continuarem a ser feitas da mesma forma, será muito difícil ver como promover o bem-estar do jogador”, disse ele.

O programa de teste está aberto a ligas de todas as 211 associações nacionais de futebol, que terão de se inscrever para participar e fornecer feedback. As associações nacionais da Inglaterra e da Escócia manifestaram interesse em se tornarem as primeiras a realizar os testes, e a Major League dos Estados Unidos – que foi uma das primeiras a adotar com entusiasmo mudanças em regras anteriores, como a análise por vídeo – deve seguir o mesmo caminho. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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