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Futebol inglês anuncia boicote às redes sociais para protestar contra abusos online

É o esforço mais direto para pressionar empresas de mídia social como Twitter, Instagram e Facebook a tomar medidas contra abusos

Jesus Jiménez e Andrew Das, The New York Times

27 de abril de 2021 | 15h00

Autoridades do futebol inglês disseram que vão promover um blecaute nas redes sociais no próximo fim de semana para protestar “contra os contínuos e constantes abusos discriminatórios online contra jogadores e muitas outras pessoas ligadas ao futebol”.

O boicote tem o apoio de uma coalizão de grupos, como a Premier League, a liga de futebol mais rica e destacada do mundo; a federação de futebol da Inglaterra; as duas primeiras divisões profissionais do futebol masculino e feminino; os árbitros; o sindicato dos jogadores do país e outros.

A ação é o esforço mais direto de um esporte para pressionar empresas de mídia social, como Twitter, Instagram e Facebook, a tomar medidas contra o abuso online e vem depois de uma temporada em que jogadores, clubes, executivos de times, árbitros, comentaristas femininas e outras pessoas foram alvos de abusos.

O boicote das redes sociais também ocorre depois de uma semana de fúria e protestos de rua contra os principais clubes e seus proprietários, os quais tentaram - e não conseguiram - criar uma Superliga Europeia separatista, a qual os isolaria de muitas das estruturas, como o sistema de pagamento, que sustentam o futebol há um século. Em cada um dos protestos, houve fortes demandas para que os donos vendessem as equipes.

Os casos de assédio foram bem documentados online. Em fevereiro, o atacante do Arsenal Eddie Nketiah postou uma foto no Twitter com a legenda: “Trabalhando com um sorriso!”. O tweet foi recebido com ofensas racistas de um usuário do Twitter que mandava Nketiah, que é negro, sair do clube. O Twitter reagiu suspendendo permanentemente a conta do usuário, informou a Sky Sports.

Esse tipo de assédio foi provocado não apenas por torcedores, mas também por contas de mídia social dos próprios clubes. Em dezembro, a comentarista e ex-jogadora de futebol Karen Carney deletou sua conta no Twitter após receber uma onda de abusos online.

Depois da vitória de 5 a 0 do Leeds United sobre o West Brom, Carney perguntou no Amazon Prime Video Sport se o Leeds “estragaria tudo no final da temporada”. A conta da equipe do Leeds no Twitter compartilhou um clipe de seu comentário, o que propiciou uma série de mensagens de ódio contra Carney.

Muitos no Twitter a defenderam e criticaram o pessoal da mídia social do time, inclusive o ex-capitão do Leeds, Rio Ferdinand, que pediu que o tweet fosse excluído.

Bethany England, atacante do Chelsea, criticou a equipe de mídia social do Leeds por seu “comportamento atroz”. “Fazer ciberbullying contra uma comentarista e expô-la ao abuso online em massa só por ela FAZER SEU TRABALHO E TER SUA OPINIÃO?!”, England disse.

Em fevereiro, os principais executivos da Football Association - órgão regulador do futebol inglês -, a Premier League e outras organizações escreveram uma carta aberta a Jack Dorsey, CEO do Twitter, e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, pedindo que pusessem um fim aos “abusos perversos e ofensivos” dos usuários em suas plataformas. “A realidade é que suas plataformas continuam sendo paraísos de abusos”, escreveram os executivos do futebol. “Sua inação gerou nas mentes dos perpetradores anônimos a crença de que eles podem fazer o que quiserem”.

No passado, Instagram, Facebook e Twitter tomaram medidas, como banir usuários temporária ou permanentemente, mas os problemas de abuso online persistiram. Em comunicado à imprensa anunciando o boicote às mídias sociais, que acontecerá de sexta à tarde a segunda-feira, o futebol inglês pediu ao Reino Unido que “introduza uma legislação forte para responsabilizar as empresas de mídia social pelo que acontece em suas plataformas”.

No comunicado, Richard Masters, CEO da Premier League, disse que a liga continuará a pressionar as empresas de mídia social a fazerem mudanças para prevenir o abuso online. “Qualquer forma de comportamento racista é inaceitável, e o terrível abuso que estamos vendo contra os jogadores nas plataformas de mídia social tem que acabar”, disse Masters. “O futebol é um esporte fundado na diversidade, que reúne comunidades e culturas de todas as origens, e é essa diversidade que fortalece a competição”.

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Qualquer forma de comportamento racista é inaceitável, e o terrível abuso que estamos vendo contra os jogadores nas plataformas de mídia social tem que acabar
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Richard Masters, CEO da Premier League

Edleen John, diretor de relações internacionais da Football Association, disse que o futebol inglês não vai parar de pressionar por mudanças após o próximo fim de semana. “É simplesmente inaceitável que diariamente as pessoas no futebol inglês e na sociedade em geral continuem sendo vítimas de abusos discriminatórios online, sem consequências no mundo real para os perpetradores”, disse John. “As empresas de mídia social precisam ser responsabilizadas se continuarem a não cumprir suas responsabilidades morais e sociais para resolver este problema endêmico”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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