Futebol inspira sonho da liberdade

Há um ano e dois meses o adolescente D.W.S., 17 anos, está detido na unidade Rio Pardo da Febem, em Ribeirão Preto, acusado de ter cometido um homicídio em Franca, cidade onde ele morava com sua família - pai, mãe e duas irmãs mais novas. Há cerca de sete meses, no entanto, ele mantém uma rotina diferente dos demais internos da unidade.Todos os dias, por volta das 13 horas, uma van da Febem transporta D. e o monitor Geraldo para o Estádio Francisco Palma Travassos, sede do Comercial Futebol Clube, que disputa a Segunda Divisão do Campeonato Paulista. Lá, ele treina a tarde toda, com a equipe juvenil. Só por volta de 17 horas ele é levado de volta para a unidade da Febem, onde passa a noite e freqüenta a segunda série do ensino médio, no período da manhã.Nos fins de semana, quando estão programados jogos, lá está o adolescente, que joga de atacante no time que foi campeão da primeira fase da Copa Bandeirante.Os fins de semana com jogos têm um motivo a mais de alegria. É que antes e depois da disputa ele pode se encontrar com seus familiares longe do ambiente pesado da Febem. "Meu pai, minha mães e minhas irmãs estão sempre nos jogos", conta.Pelo juvenil do Comercial ele já fez seis gols nesses sete meses. O garoto, que já despertou o interesse do Nacional, de São Paulo, não faz sucesso por acaso. Desde pequeno ele jogava no Internacional, de Franca, onde atuou nas categorias dente-de-leite e infantil, antes de ser preso. "Tive duas falhas na vida, mas vou me recuperar, porque tem muita gente me ajudando", diz.D. afirma que antes de ser detido trabalhava junto com a mãe Dêmia, em uma fábrica de capas de CD, em Franca. "Trabalhei três meses e, infelizmente, tive esse problema. Mas hoje posso dizer que sou uma pessoa que tenta largar o crime e estou recebendo muita ajuda para isso, tanto na Febem quanto aqui no Comercial."Ele admite que os colegas da Febem o vêem como um exemplo a ser seguido e se esforça para manter essa imagem. Não chega a perceber inveja dos colegas, mesmo deixando a unidade todas as tardes. Na unidade, ele fica em uma ala de adolescentes que são primários. "São pessoas calmas, inteligentes", diz.Quando jogou por uma seleção da Febem contra o Nacional, o técnico demonstrou interesse por seu futebol e até o convidou para disputar a Taça São Paulo, mas o juiz da Vara da Infância e Adolescência de Ribeirão Preto não deu parecer sobre uma possível transferência para São Paulo. Ele ainda não sabe quando vai ser libertado, mas acredita que a atividade esportiva vai ajudá-lo a deixar a prisão mais rápido.D. faz todas as suas refeições na Febem e diz que a comida é um pouco sem gosto, "mas ninguém passa fome". Também afirma que a alimentação lhe garante condições físicas para treinar e jogar.Jogar no São Paulo, time do qual é torcedor, é um sonho antigo que o adolescente acalenta. Ele conta que um amigo, com o qual jogou no Internacional, de Franca, está hoje no juvenil do Palmeiras. "O Fabrício é meu amigo e vai me ajudar a chegar em um time grande, com estrutura", sonha.O garoto diz que não está feliz, "mas muito tranqüilo". Ele acha que na Febem teve "muito tempo para pensar" e quando reconquistar a liberdade, vai viver de outra forma. "Estou disposto a tocar uma vida nova, sempre agradecendo as pessoas que hoje me ajudam."O ex-jogador comercialino Walaci, técnico do juvenil, só tem elogios para o rapaz. "É um menino aplicado, tranqüilo. Um jogador que desperta confiança. E não é um atleta que revida as entradas duras durante o jogo", afirma. Além de ensinar e cobrar os ensinamentos, o treinador faz questão de mostrar ao garoto que a vida impõe dificuldades e que ele terá que vencê-las. "Evito sempre falar do passado com ele. O negócio é trabalhar para ser alguém." D. também não gosta de se lembrar do que o levou para essa situação. José Vitorino de Melo, diretor da unidade onde D. está internado, também não poupa elogios ao garoto, que tem ótimo comportamento principalmente depois que passou a jogar no Comercial. "Esse tipo de apoio ajuda muito", diz.Mas ajuda mais quem quer ser ajudado. Dois outros já tentaram o mesmo caminho, com apoio do time, mas acabaram não se transformando em jogadores. Um deles até voltou para a Febem.

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