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Antonio Carlos Zago com proteção próxima ao olho direito pouco depois de simular ter sido atingido no rosto DONALDO HADLICH /FRAMEPHOTO

Futebol mentira: epidemia de simulações nos gramados brasileiros

Além dos casos entre jogadores, episódios recentes envolvem técnico, árbitro e gandula; STJD promete mais atenção

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2017 | 17h00

“Fingir, fazer parecer real o que não o é”. Esta definição está no dicionário Aurélio se você procurar por simulação. A palavra anda na moda no futebol brasileiro. O episódio com o técnico do Internacional, Antonio Carlos Zago, que encenou agressão no rosto ao ser atingido no ombro, em jogo contra o Caxias, pela semifinal do Campeonato Gaúcho, foi apenas mais um desta epidemia que toma os gramados. 

Não há uma estatística de quantos casos foram julgados em 2017 pelos tribunais esportivos, mas o presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Ronaldo Piacente, admitiu ao Estado que está preocupado com o aumento do número de episódios. Ele pediu ao procurador-geral do STJD, Felipe Bevilacqua, mais atenção com as simulações.

Para Katia Rubio, psicóloga e professora da USP, tudo isso é reflexo de uma crise existente de valores no mundo. “Não dá para dizer que o que acontece no futebol está deslocado de um contexto maior. Essas simulações são um reflexo do que estamos vivendo no mundo. Vivemos uma enorme crise de valores, que inevitavelmente se reflete no futebol em cores mais acentuadas”, afirma. “Há uma banalização da corrupção, uma banalização da falta, porque todo mundo faz”, completa.

Ela alerta que nem sequer o fato de as transmissões terem diversas câmeras no campo inibe o infrator. “Quando você tem isso relacionado com uma formação moral falha não há uma análise de que aquilo é imoral. A pessoa não tem consciência que aquilo é um problema. Ela considera aquilo como uma coisa certa.”

A impunidade também ajuda. Poucos casos vão à julgamento. As penas são brandas. A simulação se engrada no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que fala em ‘assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva’ e prevê no máximo seis jogos de punição.

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Zago, árbitro, gandula... Confira os casos recentes de simulação

Episódio com jogadores também aconteceram nas semifinais do Paulista

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2017 | 17h00

ENCENAÇÃO HOLLYWOODIANA

Keiller, terceiro goleiro do elenco, foi o herói da classificação do Internacional na semifinal contra o Caixas ao defender dois pênaltis, mas o personagem principal da semifinal do Gaúchão foi o técnico Antonio Carlos Zago. Em uma disputa de bola na bandeirinha de escanteio, próxima da área técnica onde estava o técnico, Elyeser, do Caxias, acertou com o braço o ombro de Antonio Carlos, que simulou ter sido atingido no rosto. Ele pediu até atendimento médico e permaneceu ao lado do campo segurando uma proteção perto do olho direito. Antes disso, se jogou a chão tão logo foi atingido. A encenação, flagrada pela TV, fez com que ele fosse denunciado pelo TJD-RS por infringir o artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que prevê até seis jogos de pena.

 

DESEQUILÍBRIO DO ÁRBITRO

Luis Fabiano nunca foi santo, mas, no episódio com o árbitro Luiz Antonio Silva Santos, ocupou o papel de vítima. No Vasco e Flamengo, de março, pela Taça Rio, o vascaíno chegou junto ao assoprador para reclamar do amarelo recebido, mas não a ponto de provocar o desequilíbrio que foi visto na imagem. O juiz simulou empurrou que o fez quatro ou mais passos para trás. O atacante, que acabou expulso, disse que nunca viu algo parecido. Punido com quatro jogos, ele foi instruído pelo Vasco a não se pronunciar mais sobre o assinto. O árbitro está afastado, mas, segundo a Federação do Rio, por errar e pênalti para o Vasco, e não pela ‘fraude’.

 

GANDULA PERDE O EMPREGO

Corinthians e Universidad de Chile se enfrentavam dia 5 de abril, pelo jogo de ida da primeira fase da Copa Sul-Americana, em Itaquera. A partida não era tão importante assim, mas o desejo de ajudar o time do coração custou caro a Ivan Régis Pinto. O gandula fantasiou uma agressão do zagueiro Gonzalo Jara que tentava bater rapidamente o arremesso lateral. Ele desabou atrás da placa de publicidade. O clube não sofreu punições, mas Ivan, que não voltou sequer para o segundo tempo daquele jogo, acabou demitido por causa da simulação. Ele trabalhava nas partidas do time havia oito anos, desde os tempos do Pacaembu.

 

AGRESSÃO... SÓ QUE NÃO

As semifinais do Paulistão registraram dois casos de simulação. No primeiro jogo entre Ponte Preta e Palmeiras, em Campinas, Zé Roberto tentou ludibriar o árbitro Marcelo Aparecido de Souza em lance com Fernando Bob ao ‘mentir’ que foi atingindo por uma cotovelada no rosto. O golpe, que aconteceu, foi no peito. O ponte-pretano foi advertido com o amarelo. Ao palmeirense, coube o papel ridículo de rolar no chão. No segundo clássico entre Corinthians e São Paulo, em Itaquera, Romero fez o mesmo com Thiago Mendes. As câmeras de TV deixaram claro que o paraguaio não foi atingido no rosto como fez parecer.

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'A imprensa ajudará muito nos casos de simulação'

Presidente do STJD está preocupado com o aumento do número de episódios de simulação

Entrevista com

Ronaldo Piacente

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2017 | 17h00

O que o STJD pode fazer para coibir as simulações?

Cabe aos Tribunais Desportivos denunciar e punir esse tipo de infração disciplinar nos moldes do Artigo 258 do CBJD. A denúncia é feita através do que constar na súmula ou por parte de quem tenha legítimo interesse. Porém, também poderá ser feita mediante conhecimento dos fatos por meio da mídia e vídeos. A imprensa ajudará muito nesses casos.

Há uma estatística de quantos casos de simulação foram julgados e punidos pelo STJD?

Não, mas podemos afirmar que foram raríssimos casos, sendo que tais fatos aumentaram nos campeonatos regionais de 2017.

A simulação é menos importante do que um caso de agressão, que sabemos ser amplamente punido pelo STJD?

Cada caso tem sua peculiaridade, portanto não podemos dizer que um é mais importante que outro, tudo dependerá dos fatos, dos efeitos e das consequências geradas. A simulação fere o princípio do ‘Fair play’, que é o espírito desportivo na competição. A agressão é totalmente incompatível com o esporte. O que se percebe é que o legislador previu punição mais severa para agressão do que para conduta contrária à disciplina e ética desportiva. 

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