Futebol na Ucrânia? Falta combinar com os russos

Repórter do Estadão analisa situação esportiva do país

Andrei Neto, enviado especial, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2014 | 17h25

SIMFERPPOL - Na primeira vez em que o Estado enviou um repórter para a cobertura da crise política na Ucrânia, o centro de Kiev, a capital política do país, já estava sitiado. Em um cenário digno da Primeira Guerra Mundial, centenas de homens maltrapilhos rondavam tonéis de braseiros, com os quais driblavam o frio de -28ºC. Armados de cassetetes, protegidos por escudos rudimentares e capacetes de esqui, tinham os rostos cobertos de fuligem preta, que emanava dos pneus queimados para prejudicar a visibilidade da polícia.

Eles eram os vigias das barricadas feitas de sacos de areia, gelo e lixo de toda ordem que haviam sido montadas em diferentes pontos da Praça Independência, o epicentro do movimento EuroMaidan, pró-Europa. À reportagem, vários diferentes manifestantes explicaram que aqueles “seguranças” dos protestos eram em sua maioria membros de uma minoria barulhenta: neonazistas e neofascistas ligados a partidos como o ultranacionalista Svoboda, que hoje integra a coalizão governamental interina.

O que a reportagem só veio a saber mais tarde é que aqueles milicianos armados, dispostos a morrer em confrontos com a temida Berkut – a violenta tropa de choque do país –, também eram em geral membros de torcidas organizadas de clubes do oeste da Ucrânia, como o Dínamo, de Kiev, e o Karpaty, da cidade de Lviv. Além de enfrentar a polícia e lutar contra a “dominação da Rússia”, os hooligans ucranianos de extrema direita também pediam a deposição do presidente Viktor Yanukovich, o que acabou acontecendo em 24 de fevereiro passado.

Mas o que isso tem a ver com futebol? É provável que o esporte não seja a maior motivação dos milicianos que faziam a “segurança” da Praça Independência em Kiev. Há, porém, uma coincidência impressionante: ao lutar contra Yanukovich, esses torcedores fanáticos acabaram derrubando também uma série de seus amigos, oligarcas russos ou de origem russa que são donos de grandes clubes de futebol do leste da Ucrânia. Entre eles estão gente como Rinat Leonidovych Akhmetov, bilionário e proprietário do Shakhtar Donetsk, e Sergei Kuerchenko, também bilionário e proprietário do Metalist Kharkiv. Akhmetov era até 2012 deputado do Partido das Regiões, o mesmo de Yanukovich, enquanto Kuerchenko – de 28 anos e dono de uma fortuna avaliada em US$ 2,4 bilhões – era tão próximo do ex-presidente que seu nome consta da lista de pessoas cujas contas bancárias foram congeladas a pedido do governo interino.

Logo, na Ucrânia o futebol espelha as divisões entre o leste, mais próximo à Rússia, repleto de oligarcas bilionários beneficiados por negócios suspeitíssimos, e o oeste, onde de fato vivem grupos neonazistas e neofascistas.

É nesse clima de profunda divisão social que o Campeonato Ucraniano voltou ontem. Entre os ucranianos, muitos têm a esperança de que o retorno do esporte nacional, no qual brilha uma constelação de brasileiros, ajude a apaziguar os ânimos beligerantes. Mas, como diria Garrincha, falta combinar com os russos.

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