"Futebol não pode depender da Globo"

Foi constrangedor o almoço no Fórum do Futebol organizado pela Fundação Getúlio Vargas, no começo do mês, em São Paulo. Dirigentes da CBF, da Federação Paulista de Futebol e dos principais clubes do País fizeram fila no bufê do hotel Jaraguá. Não para se servir. Mas para apertar a mão de Marcelo Campos Pinto, o principal executivo de esportes da TV Globo.O interesse era claro: agradar aquele que possui a chave do cofre. Mas o Direito e o mercado financeiro ajudaram Marcelo Campos Pinto a entender o comportamento interesseiro das pessoas. Frio, articulado e político, ele atendia a todos. Sem ceder aos encantos de ninguém.Depois de conhecer a fundo os dirigentes e o mercado esportivo, Marcelo Campos Pinto dá mais uma lição aos cartolas: "O futebol brasileiro não pode depender da televisão. Isso não existe mais. Já avisei aos dirigentes: para sua própria sobrevivência, é bom entenderem isso..."Jornal da Tarde - Os dirigentes não têm a coragem de reclamar para você, mas entre eles as críticas são grandes. Acham que a Globo paga cada vez menos aos clubes.Marcelo Campos Pinto - O que poucas pessoas entendem, ou fazem questão de não entender, é que estourou a bolha de investimento maciço das tevês nas transmissões esportivas. Vivemos uma crise desde 2001. Todas as emissoras do mundo redimensionaram seus gastos. O futebol brasileiro não pode depender da televisão. Isso não existe mais. JT - Mas a Globo sempre exerceu monopólio de maneira agressiva sobre o futebol brasileiro. E aí criou dependência...Não concordo com o monopólio. Competimos de maneira aberta com as outras emissoras de tevê. Conseguimos os contratos porque pagamos mais. Só que os dirigentes estão aprendendo na prática, na ponta do lápis, que as suas contas não serão pagas apenas pela televisão. A Globo não quer dependência nem ser a tábua de salvação de clubes mal administrados. Sinto que alguns dirigentes já estão modernizando seus clubes. Mas isso precisa ser geral. Não tenho a pretensão de ensinar nada a ninguém. Sou realista. O dinheiro das cotas no Brasil diminuiu porque o mundo paga menos pelos jogos. Todos precisam se adequar. JT - Como é que a Globo não tem monopólio se o próprio presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse ao JT que vai procurar sempre a Globo para os jogos da Seleção? A postura do Clube dos 13 é a mesma.O Ricardo Teixeira foi gentil. A Globo conseguiu criar uma tradição nas transmissões de futebol. Não é aventureira. Tem uma política estabelecida. Com competência conseguiu se estabelecer. JT - A Globo transmitiu um Campeonato Brasileiro em que não acreditava. Já que a fórmula de pontos corridos será mantida em 2004, a emissora vai continuar investindo na competição?Sei separar as coisas. O Brasil é pentacampeão mundial e seu campeonato será sempre um dos mais interessantes a ser mostrado. Ter o direito de transmissão é importante e a Globo não abre mão. Pessoalmente acho a fórmula de pontos corridos uma chatura (sic). Não há grandes emoções. Só que não tenho a pretensão de ensinar fórmula de campeonatos. A fórmula repetida serve para provar que a Globo não manda no futebol brasileiro como as pessoas gostam de repetir. Não gosto de pontos corridos. É uma chatura, repito, uma chatura. JT - Não manda, mas torcedores são obrigados a acompanhar partidas às 21h40...Ao comprar o campeonato, a Globo vai adequar o horário das partidas ao que for melhor para a sua grade de programação e pronto. Isso é direito de quem banca. O horário das 21h40 é o que nos interessa por causa dos patrocinadores. Eles pagam para que seus produtos sejam mostrados no horário nobre. Não há maldade nem sadismo da Globo. Somos profissionais, fazemos o que interessa aos nossos patrocinadores.JT - Interessa mais à tevê os torcedores de sofá do que os torcedores de estádio?Não vou negar. O que interessa à tevê é ter e formar os torcedores de sofá. São eles os consumidores dos produtos dos nossos patrocinadores. Torcedores no estádio é com os organizadores dos campeonatos. A Globo não pode ser culpada de tudo. JT - Mas você defende que a presença nos estádios seja cada vez mais elitizada?Sim. Não vou negar. Posso ser criticado, mas acredito que o jogo de futebol precisa ser visto como um espetáculo, como um show inesquecível. Se as pessoas pagam tanto para ver o seu cantor predileto, podem pagar mais para ver o seu time de coração em campo. O ingresso no Brasil é barato demais. Tem de ser mais caro. Os estádios precisam ser melhorados, mas não há condição de os clubes sobreviverem com ingressos tão baratos. Se as pessoas não puderem pagar, que acompanhem pela televisão. JT - Em 2003, a Globo não mostrou demais os jogos de Corinthians e Flamengo?Tudo o que a Globo faz se baseia em pesquisa. Os números mostram que Flamengo e Vasco, no Rio; e Corinthians e Palmeiras, em São Paulo, são os clubes que despertam a atenção dos torcedores. Fluminense e Botafogo; e São Paulo e Santos vêm atrás. Mesmo com Flamengo e Corinthians mal, os dois continuaram despertando mais atenção do que os outros. Essa continuará sendo a tendência em 2004. JT - Não há um excesso de partidas transmitidas ao vivo? O torcedor não acaba saturado?Não acredito. Nas décadas passadas havia uma grande dificuldade de transmitir ao vivo. Houve um enorme progresso na tevê brasileira. Se os espetáculos tiverem qualidade, o torcedor vai querer assistir. O mercado sim, está um pouco saturado. Não há dinheiro para tantos jogos. Tudo precisa ser colocado numa balança com calma e analisado de forma profissional. JT - Como você acabou ganhando tanto poder na Globo?Trabalhei como advogado e depois fiquei dez anos no mercado financeiro. Ou seja: tive vivência de sobra para assumir o cargo de diretor da Globo Esportes. Estudei e estudo profundamente o futebol brasileiro em todos os seus aspectos. E os dirigentes não são mal preparados para brigar pelos seus interesses. A obrigação é minha de saber o que é melhor para a Globo e é o que tenho obrigação de fazer. Sou pago para isso. Tenho bem definida a noção de quanto melhor estiver o futebol brasileiro, melhor para a Globo. JT - Como torcedor, você está satisfeito com o que está vendo?Sou profundamente apaixonado pelo meu Fluminense. Lógico que não posso estar satisfeito com os últimos resultados do time. Mas não tenho como ignorar o nível técnico do time do Cruzeiro, que foi campeão com toda a justiça. Só que vou brigar sempre pelo que acredito. Se o Brasileiro fosse disputado na sua fase final em mata-matas, o torneio teria emoção. E emoção é lucro para a televisão. Um grande exemplo disso acontece na NBA. Se americano não joga dinheiro fora, por que o brasileiro tem de desprezar a chance de ganhar mais!? Aceito a decisão dos clubes com o campeonato de pontos corridos, só que não me conformo. Meu profissionalismo não deixa.

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