Nilton Fukuda/Estadão
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Futebol no YouTube

O streaming veio para ficar, mas ainda há um caminho a se percorrer nessas transmissões

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2020 | 05h00

A primeira partida da decisão do Campeonato Carioca entre Fluminense e Flamengo, ontem, no Maracanã, também foi mostrada pelo canal do time mandante no YouTube, a FluTV. A audiência seguiu na casa dos milhões ao mesmo tempo. Fosse em TV aberta, teria muito mais. Mas não se deve subestimar essa nem tão nova plataforma de transmissão de eventos. Há situações a serem pensadas sobre jogos no streaming. Uma delas é que o modelo não mata a transmissão convencional do futebol. São públicos diferentes. Quem está em casa, prefere ver o jogo na TV, mesmo se tiver de pagar para isso nas fechadas.

A concepção do streaming é ter a TV no bolso da calça jeans, dentro do celular ou do que valha, para assistir ao que for onde estiver, em muitos casos até reprises de programas perdidos. Quando a TV chegou ao Brasil a morte do rádio foi anunciada. Vive até hoje.

O segundo ponto é o caminho que essa “nova” transmissão pode despertar nos clubes. Haverá quem prefira manter os direitos e não vendê-los para os interessados, a fim de mostrar os jogos nos seus próprios canais, como fazem Flamengo e Fluminense. Para isso, no entanto, é preciso arrumar um jeito de remuneração. Se uma transmissão obtiver 3 milhões de pessoas sintonizadas e delas se cobrar R$ 1 simbólico, tem-se R$ 3 milhões em 90 minutos. Mais do que as bilheterias podem dar para muitos clubes da Série A. Há ainda as possíveis parcerias que os times podem fazer em seus canais. O próprio YouTube pode remunerar tamanha audiência a cada partida. São, em média, quatro jogos desses por mês. R$ 12 milhões numa soma rápida.

Uma terceira situação diz respeito à paixão dos que fazem esse streaming nos clubes. E se é paixão, só pode ser de um lado. Bingo! Esse é um problema. Torcedor nenhum do mundo suporta parcialidade na transmissão. Na FluTV, óbvio, tudo do Flu é lindo e maravilhoso. E nada presta no adversário, ou se presta, não é ressaltado. Se tiver opção, o torcedor vai embora. A profissionalização é o caminho. Único. Clubes brasileiros avançaram nesse sentido, mas ainda são passionais.

Com o tempo, os jogadores vão querer uma fatia desse bolo também. E os clubes vão precisar pensar como recompensar (financeiramente) seus atletas pelos direitos de imagem. Já há contratos para isso, mas eles terão de ser revistos. Mais adiante, claro, esse dinheiro novo que entra terá de ser taxado. Refiro-me a impostos para a cidade, o Estado ou o governo Federal. Os clubes vão precisar contratar profissionais para administrar mais um braço de seus negócios. Compensa? Ainda não se sabe. Até hoje, salvo raras exceções, os clubes de futebol vão tocando a vida sem muita qualidade e competência no quesito gestão. Vai levando do jeito que dá até entregar o bastão para o próximo presidente, e que ele toque dali para frente. Se for oposição, como na política, muda tudo, como se nada do que o outro fez prestasse.

O streaming também muda a concepção de torcer, geralmente em família, com os amigos ou mesmo ao lado de gente que você nunca viu na vida, mas que abraça fraternalmente quando seu time marcar gol. Isso pode acontecer dentro de um estádio ou nas ruas e bares ao redor dele.

Com o celular, o ato de torcer passa a ser mais individualizado, até pelo tamanho da tela do celular. É uma TV de bolso para cada um dos milhares de torcedores de futebol. O streaming, no entanto, talvez não seja uma realidade para todos os Brasis que se têm dentro do Brasil, esse gigante continental. A pandemia nos mostrou um País ainda pobre em seus rincões, sem acesso a muitas tecnologias que nos parecem comuns em outras regiões. Nessas praças, por muitos anos ainda, a tevê e o rádio terão seus lugares garantidos na opção do torcedor.

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