Futebol pelo mundo: série relembra as histórias curiosas do lado alternativo do esporte

Confira o material especial produzido pelo 'Estado' sobre trajetórias pitorescas de clubes internacionais

Redação, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2019 | 10h00

Episódios curiosos, times alternativos, personagens discretos. Brasileiros espalhados pelo mundo. O Estado entrevistou ao longo dos últimos anos personagens importantes e levantou histórias diferentes sobre equipes espalhadas pelo mundo para entregar ao leitor informações pitorescas sobre futebol. Da trajetória incomum da sensação Leicester, campeão inglês em 2016, até a rotina do time russo que mais viaja pelo planeta para cumprir sua agenda, resgatamos as reportagens publicadas nos últimos anos e reunimos tudo neste especial.

 

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Capítulo 1: Esqueleto de rei, pizza para o elenco, escândalo sexual: as histórias do Leicester

Modesto time quer se manter na ponta para conquistar título inédito

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2016 | 17h00

A cinco jogos do fim do Campeonato Inglês o Leicester enfrenta a própria ansiedade para ser campeão pela primeira vez. O time recebe neste domingo o West Ham no King Power Stadium para tentar manter a diferença de sete pontos para o Tottenham e continuar no rumo para ser o primeiro campeão inédito do país nos últimos 38 anos.

O feito é digno de conto de fadas para um elenco apontado como candidato ao rebaixamento. Na última temporada o clube por pouco não caiu, passou por reformulações e pouco contratou. O clube pequeno desafia os grandes da liga mais cara do mundo, nação onde nos últimos 23 anos, quatro times concentraram 22 títulos.

O clube de 132 anos de histórica tem como melhor campanha no Campeonato Inglês um vice-campeonato em 1929 e constrói os resultados atuais com base em uma equipe que joga como time pequeno. O Leicester tem se mostrado eficiente e rápido nos contra-ataques.

A surpresa, que deixou para trás os grandes favoritos, já está classificada para a inédita Liga dos Campeões. Mesmo que cometa deslizes em sequência e perca a corrida para o Tottenham, deixará como legado histórias curiosas na campanha.

Uma delas está nas tradicionais casas de apostas inglesas. O Leicester era o menos cotado entre os 20 participantes e, por isso, o que mais oferecia ganho. A cada libra depositada no título do time, o apostador receberia o retorno de 50 libras.

A valorização fez a Ladbrokes, uma das principais casas da Inglaterra, rever a premiação. A empresa entrou em acordo com o único a ter arriscado a fé no Leicester. O torcedor, que depositou 50 libras (cerca de R$ 250), recebeu de forma antecipada um prêmio de aproximadamente de R$ 360 mil.

A caminhada do Leicester motivou até um fã na Austrália. Tony Skeffington, de 51 anos, estava com um câncer em estado terminal no fim da última temporada. Para surpresa dos médicos, ele ainda continua vivo. “Ver o Leicester retornar da luta contra o rebaixamento e ver como eles estão indo bem nesta temporada está me ajudando a lutar”, disse em entrevista ao jornal Leicester Mercury.

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Capítulo 2: Como o Atlético Nacional deixou de ter a imagem ligada a Pablo Escobar

Protagonista da emocionante homenagem à Chapecoense, equipe de Medellín era temida por sua ligação com o traficante Pablo Escobar

Ciro Campos, enviado especial a Medellín, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2016 | 06h00

A primeira estrela em 1989, a outra em 2016. Uma conquista criticada pela ligação com o narcotráfico; a outra, marcada por ótima campanha, gestão empresarial e reputação valorizada internacionalmente. Os conceitos extremos marcam a história do Atlético Nacional, clube de Medellín, na Colômbia, bicampeão da Copa Libertadores. Antes temido pelo vínculo com Pablo Escobar, agora o time virou exemplo de conduta.

A festa na última noite de quarta-feira, organizada pela diretoria em conjunto com a prefeitura de Medellín, emocionou o público colombiano e brasileiro. A homenagem às 71 vítimas do avião que trazia a Chapecoense à cidade para que os dois times se enfrentassem pela final da Sul-Americana levou mais de 40 mil torcedores ao estádio Atanásio Girardot, fora outros milhares que ficaram do lado de fora, sem conseguir prestar a solidariedade desejada.

A comoção dos Verdolagas vem no período mais vitorioso dos 69 anos de história. Na quinta-feira, a delegação embarca ao Japão, como o primeiro representante colombiano no Mundial de Clubes da Fifa. A meta é bater o Real Madrid e conquistar o troféu máximo para coroar o intenso e festivo último ano. Desde dezembro de 2015, foram quatro conquistas incluindo a Libertadores.

O Nacional contava com a vitória sobre a Chapecoense para se tornar o único clube da história a ser campeão no mesmo ano dos dois principais torneios do continente. “Todos tínhamos a ambição de ganhar a Sul-Americana. Mas isso já não nos interessa mais. Se fôssemos jogar a final com a Chapecoense, não haveria igualdade de condições desportivas”, afirmou o presidente do clube, Juan Carlos de La Cuesta. A diretoria renunciou à taça para declarar o time catarinense campeão. Humildade de quem reconheceu falhas e mudou a rota da própria biografia.

Há 20 anos o clube foi comprado pela organização Ardila Lülle e passou a ter o “S/A” ao nome. O conglomerado de empresas atua principalmente no setor de bebidas, e na agroindústria, comunicações e seguros. O dono é o multimilionário Carlos Ardila Lülle, cujo patrimônio é estimado em R$ 5 bilhões. A mentalidade executiva na gestão mudou a realidade em campo. A equipe, antes dona de seis títulos nacionais, se transformou na maior potência do futebol colombiano, com 15.

O aporte financeiro consolidou uma estrutura capaz de dar sustentação às conquistas. Nos últimos quatro anos o planejamento foi exemplar, com uma estabilidade rara no Brasil. Foram somente dois treinadores. Juan Carlos Osorio comandou o time por três temporadas e saiu para assumir o São Paulo. Para a vaga dele, veio Reinaldo Rueda, ex-treinador do Equador e com perfil parecido ao do antecessor. Ambos têm currículo acadêmico na Europa. Outra conquista recente foi construir um moderno centro de treinamento em Guarne, na região metropolitana.

“Ter um local adequado para treinos faz toda a diferença. Por isso o momento do clube agora é outro. Quando era o técnico, a cada dia tínhamos que buscar um campo na cidade para poder treinar”, contou o treinador campeão da Libertadores em 1989 pelo Nacional, Francisco Maturana. A conversa com ele só muda de tom quando se toca o assunto narcotráfico. A equipe teve vinculação suspeita com o poderoso Pablo Escobar, fora histórias de suborno e a ameaças a árbitros.

Daquele time campeão da Libertadores, dois titulares tiveram incidentes com traficantes. O zagueiro Andrés Escobar, foi assassinado em 1994 após marcar um gol contra que desclassificou a Colômbia da Copa do Mundo. Daquela competição nos Estados Unidos o goleiro René Higuita foi ausência, pois tinha perdido a forma por ficar sete meses preso em 1993. Motivo: participação de um sequestro organizado pelo cartel de Medellín, chefiado por Pablo Escobar.

INCÔMODO

O assunto “narcofutebol” é um tabu no clube. Quem está atualmente na gestão fala que não tem ligação com o tema. Os personagens do passado ficam incomodados. “Se fosse para ter o dinheiro dos traficantes, não precisaria ter que colocar o time para treinar duro. Era só pagar que seríamos campeões com mais facilidade”, desconversou Maturana, ex-técnico da seleção colombiana.

A postura de fugir de temas complicados liga essas duas eras no futebol colombiano. Na última semana, por estar às vésperas da fase final do Campeonato Colombiano, o time fechou os treinos e, nas entrevistas, o pedido era não falar do acidente da Chapecoense, para não deixar os jogadores mais abalados. “Estamos comovidos, é claro. Vimos como há coisas mais importantes no mundo do que o futebol. Aprendemos na homenagem a como festejar a vida”, disse o zagueiro Nájera.

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Capítulo 3: Desabrigado por guerra e longe da cidade, time realiza sonho na Liga dos Campeões

Qarabag, do Azerbaijão, tem brasileiro como estrela e representa região do país que sofreu com conflito contra armênios

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2017 | 07h00

O jogo entre Qarabag e Roma, pela Liga dos Campeões, nesta quarta-feira, será um marco na história do Azerbaijão. Além de ser o primeiro jogo em casa pela fase de grupos do torneio a ser realizado no país, a partida marca a volta por cima do mandante. A equipe não pode jogar em sua cidade de origem, Agdam, desde uma guerra civil com a Armênia ter obrigado o clube a mudar de sede para a capital, Baku, há mais de 20 anos.

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O conflito territorial entre os dois países começou em 1988 e terminou em 1994, com um armistício. A disputa teve como um das vítimas fatais em 1993 o então técnico do Qarabag, Allahverdi Bagirov, morto em uma explosão de mina terrestre.

"Muita gente perdeu parentes na guerra, foi uma catástrofe para o país. Então, cada vitória a gente celebra por essas pessoas", disse ao Estado o meia brasileiro Richard Almeida, principal jogador do time e com passagens pela seleção azeri. Revelado pelo Santo André, ele passou pelo futebol português e está há cinco temporadas no Qarabag.

A região da cidade Agdam é atualmente pouco habitada no país. O território pertence ao Azerbaijão, mas a situação local permanece tensa. "O presidente do clube sempre nos fala dos horrores da guerra, da catástrofe que foi. O sofrimento com tudo isso fez a torcida ser mais fanática pelo esporte e se realizar com as nossas vitórias", afirmou o brasileiro.

Maior potência do futebol local, o Qarabag ganhou as quatro últimas ligas do Azerbaijão. O clube conta com o patrocínio pesado de um conglomerado de empresas alimentícias. A companhia tem ainda como projeto social o auxílio aos desabrigados pela guerra com os armênios, batizada de Nagorno-Karabakh.

"Todas as torcidas daqui torcem para a gente, porque somos os donos do campeonato local. O público do Azerbaijão sente orgulho de nós, tanto é que fomos recebidos como heróis depois de nos classificarmos para a fase de grupos", disse Richard. A vaga inédita veio após passagem por três fases preliminares, a última delas sobre o tradicional Copenhague, da Dinamarca.

Apesar da história sofrida, o clube desfruta de ótima estrutura, segundo Richard. O Qarabag inagurou recentemente um centro de treinamento moderno e tem investido em contratações. Aos poucos a transferência forçada de cidade deixa de ser uma cicatriz. "São seis horas de viagem entre uma cidade e outra. Mas devido às condições, aos poucos os moradores têm se mudado para a capital para acompanhar o nosso time", explicou.

Na primeira rodada da fase de grupos a equipe azeri teve missão difícil. A estreia foi logo em Londres, contra o Chelsea. O time visitante perdeu por 6 a 0.

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Capítulo 4: Maradona vira herói em cidade marcada pelo narcotráfico no México

Técnico argentino dirige o Dorados de Sinaloa, que disputa decisão e a chance de subir para a elite mexicana

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2019 | 04h30

No país onde o mundo se curvou ao seu talento com a camisa 10 da Argentina e onde festejou sua maior glória como jogador, Diego Armando Maradona pode conquistar neste domingo o primeiro título de sua irregular trajetória como treinador. O argentino de 58 anos disputa a partir das 22h (de Brasília) a final do segundo turno do Campeonato Mexicano da Segunda Divisão, com o sonho, bastante possível, de levar o Dorados de Sinaloa ao título da competição e à vaga na elite do país.

O craque do Argentina na conquistada da Copa do Mundo de 1986, disputada no México, precisa da vitória sobre o Atlético San Luís, fora de casa, para ganhar o turno. O jogo de ida, na quinta, foi 1 a 1. No primeiro turno, os dois times também decidiram o caneco, mas Maradona perdeu para o adversário, que joga agora para conquistar o outro turno e ser campeão geral antecipadamente.

O Dorados precisa derrotar o San Luís para ganhar o segundo turno e obter o direito de enfrentar novamente o rival em mais duas partidas pelo título equivalente à Série B, vencida no Brasil em 2018 pelo Fortaleza. Somente o campeão garante o acesso à elite mexicana. "O futebol é cheio de surpresas. Não perdemos há 14 jogos, nosso time tem uma boa base. Não ganhamos a primeira partida, mas estamos vivos", disse Maradona em entrevista na semana.

A segunda chance de ser campeão na carreira motiva Maradona. O argentino teve os primeiros trabalhos como técnico na década de 1990, em clubes argentinos, para depois assumir a seleção do seu país, em 2009. A eliminação nas quartas da Copa da África do Sul, em 2010, encerrou a passagem do ex-meia, que depois teve trabalhos nos Emirados Árabes Unidos sem resultados razoáveis.

O retorno à América Latina foi em setembro do ano passado, graças a um convite vindo da temida cidade de Culiacán, capital da província de Sinaloa. A região mexicana é conhecida por abrigar um dos maiores cartéis mundiais de narcotráfico, do qual o antigo chefe, Joaquín Guzmán, o "El Chapo", cumpre prisão perpétua nos EUA.

O responsável por apostar em Maradona é o dono do Dorados, o empresário Jorge Hank Rhon. O proprietário da maior cadeia mexicana de apostas esportivas já ocupou cargos políticos no país e possui ainda um time na elite, o Tihuana, que enfrentou Corinthians e Palmeiras na Libertadores de 2013.

Maradona foi atraído pelo salário mais alto da segunda divisão (cerca de R$ 4 milhões por ano), mas não encontrou na cidade uma torcida fanática. A grande paixão de Culiacán é o beisebol. Na temporada regular, os jogos do Dorados tiveram lotação no estádio de apenas 27%. Como a cidade é perigosa, Diego quase não sai do hotel onde mora e está sempre acompanhado de seguranças.

O trunfo de Maradona para os bons resultados foi ter motivado o elenco com o seu carisma. No clube, o trocadilho Diego de Sinaloa ganhou força e o uniforme dourado deu lugar em alguns jogos a uma camisa alviceleste, igual à usada pelo ex-craque com sua Argentina. 

Os oito jogadores compatriotas do treinador demonstram idolatria imensa por ele, a ponto de o goleiro Gaspar Sérvio ter tatuado na coxa esquerda o rosto do treinador. "Estou com o Dorados e com meus jogadores até a morte. Nós éramos o últimos da tabela e agora estamos na final. O futebol é cheio de surpresas", afirmou Maradona.

O técnico enfrenta os limites do corpo para conduzir o time mexicano. Em janeiro, ele foi internado na Argentina após um sangramento estomacal. O problema atrasou o retorno a Culiacán depois do feriado de Ano Novo. Maradona teve de parar de cobrar faltas e de jogar futebol em treinos recreativos, como sempre gostou de fazer. A artrose nos joelhos causa dor e o afastou da bola.

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Capítulo 5: Deslocamento de 40h e CT a 6 mil km de casa: conheça o time que mais viaja

Equipe da cidade russa de Vladivostok, no extremo leste do país, encara fuso horário, voos longos e muitas conexões

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2019 | 11h25

Imagine se um time da capital paulista tivesse a cada rodada no Campeonato Brasileiro, como visitante, ter de encarar um voo de nove horas, como é o caso, por exemplo, do deslocamento de São Paulo até Orlando, nos Estados Unidos. Pior ainda, se precisasse se submeter a um fuso horário de sete horas de diferença para disputar uma partida em Baku, no Azerbaijão. Parece absurdo até para os padrões do futebol brasileiro, mas tais dificuldades são rotineiras para um time russo da segunda divisão. Localizado na fria e distante Sibéria, o Luch Vladivostok tem como um dos maiores orgulhos de sua trajetória ser o clube que mais viaja no mundo.

País mais extenso do planeta, com um território que é dobro do tamanho do Brasil, a Rússia impõe ao Luch a cada rodada como visitante um desafio logístico e geográfico. A equipe da cidade de Vladivostok, localizada no extremo leste do país de Putin, gasta nove horas dentro do avião para viajar até Moscou, porém está a apenas duas horas de voo de Pequim e Tóquio. Se o elenco quiser pegar a estrada e ir até a fronteira da Coreia do Norte, andaria menos de 300 km. Mas tem de atravessar a Rússia para jogar na Segunda Divisão. 

"O Luch tinha de jogar o Campeonato Japonês, e não o Campeonato Russo", brincou em 2008 o goleiro e ex-capitão da seleção russa Igor Akinfeeev, ídolo do CSKA Moscou, ao reclamar de uma goleada sofrida em Vladivostok. Os times das principais cidades da Rússia detestam enfrentar o Luch por terem de fazer uma viagem longa e respeitar um fuso horário de sete horas à frente da capital Moscou - o país tem 11 fusos horários. 

Confira no mapa a localização do time. O Luch Vladivostok está em amarelo. Os adversários estão em azul.

Para quem joga no Luch, o drama de viajar é inevitável, pois a cada jogo é preciso ter espírito aventureiro. Dos 20 participantes da segunda divisão russa, onde o clube está, 16 estão localizados na região oeste do país, em cidades que foram sede da última Copa do Mundo, como Moscou, Kalingrado, Saransk e Volgogrado. O bravo time de Vladivostok só tem um "vizinho", o SKA Khabarovsk, localizado a 800 km de sua sede.

Por isso o próprio clube faz piada da situação. O site oficial mantém atualizada a contagem da distância percorrida, dos aeroportos visitados e dos voos realizados na temporada, assim como faz relatos bem humorados de cada viagem. O deslocamento mais longo da história do time foi em abril deste ano, com 40 horas até chegar em Kursk. A epopeia teve dois trechos de trem, um voo e 11 horas de espera por uma conexão no aeroporto. Tudo isso em classe econômica. Já no local de destino, precisa ainda encarar o rival em 90 minutos e depois voltar para a casa.

Além da distância, o Luch sofre ainda pelo orçamento reduzido e pela limitação de voos disponíveis das companhias aéreas so país. Por isso, mesmo se o destino for uma cidade localizada no meio do caminho até Moscou, os jogadores acabam obrigados a irem até a capital russa para fazer uma conexão. A falta de viagens em horários adequados e o preço alto de voos diretos atrapalham o rendimento do elenco.

BRASILEIROS

Os brasileiros que já vestiram a camisa amarela e azul do Luch, se lembram com bom humor do desafio de defender a equipe. O atacante Diego Carlos, por exemplo, disse ao Estado ter vivenciado momentos divertidos pelo clube em 2012. "Os jogadores faziam piada antes de cada viagem, porque eram sempre nove horas no avião até Moscou e depois ainda tinha espera na conexão e mais outro voo de umas três horas. Uma vez uma viagem nossa de volta atrasou demais. Só chegamos na nossa cidade duas horas antes do jogo seguinte. Foi corrido", contou o jogador, que atualmente está no Mumbai, da Índia.

Um dos maiores ídolos da torcida local é o atacante Nivaldo Ferreira. Agora no Gomel, de Belarus, ele defendeu o Luch entre 2014 e 2016. Da cidade, ele guarda boas memórias, como a bela paisagem da região costeira e os saborosos pratos de frutos do mar, porém sofreu com a rotina e o frio. "A gente jogava fora de casa e depois em vez de se recuperar do desgaste ou treinar, perdia alguns dias nas viagens para retornar. Era comum a equipe não conseguir descansar e se preparar para o jogo seguinte", relembrou.

Por isso, para minimizar as idas e vindas, anos atrás a diretoria do clube resolveu colocar o elenco para morar em Moscou. O ex-meia Willer Souza, jogador do time em 2006, comentou o quanto era curioso ter uma concentração em uma cidade a cerca de 6,4 mil km de distância do estádio onde o Luch Vladivostok manda suas partidas. "O time ficava em Moscou e se tinha jogo em Vladivostok, a gente procurava viajar o quanto antes, para se acostumar ao fuso horário. Era difícil", afirmou ao Estado.

Depois de no último sábado jogar e perder em casa para o SKA Khabarovsk, o time que mais viaja na mundo terá uma maratona para a próxima rodada. No sábado, o compromisso será a 6 mil km de casa, contra o Mordovia, em Saransk. Uma das últimas idas à cidade, em 2017, o Luch levou 33 horas para chegar até lá.

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  Stoyan Nenov|Reuters

Capítulo 6: Bilionário búlgaro ajuda brasileiros a virarem estrelas na seleção do país de Stoichkov

Investimento no Ludogorets Razgrad transforma o clube em potência e abre espaço para jogadores naturalizados

Ciro Campos , O Estado de S. Paulo

Atualizado

  Stoyan Nenov|Reuters

O empresário búlgaro Kiril Domuschiev estava satisfeito com a fortuna bilionária acumulada pelos negócios na indústria farmacêutica em 2010 quando resolveu atuar em outro ramo. A escolha dele foi comprar na época um pequeno time de futebol, o Ludogorets Razgrad, e buscar jogadores brasileiros para montar a equipe. A aposta deu tão certo que nove anos depois o clube ganhou oito campeonatos consecutivos, domina o cenário local e até mesmo levou a seleção do país a contar atualmente dois brasileiros naturalizados graças ao magnata.

O meia Wanderson e o atacante Marcelinho foram titulares no último sábado em jogo contra a Inglaterra, pelas Eliminatórias da Eurocopa. Os dois deixaram anos atrás o futebol brasileiro atraídos pela oportunidade na Bulgária e se consolidaram como astros locais. O bom desempenho da dupla levou o próprio dono do time cuidar dos documentos da naturalização e abrir chance para a seleção búlgara contar com os brasileiros.

No distante país do Leste Europeu, marcado no futebol pelo sucesso na Copa de 1994 e pelo ex-craque Hristo Stoichkov, a lista de brasileiros em campo pela seleção deve aumentar. Somente no Ludogorets são mais três brasileiros no elenco. "O clube pretende naturalizar também os outros brasileiros, para abrir espaço no time para a contratação de mais estrangeiros. As pessoas na seleção gostam muito da gente e reconhecem nosso potencial", disse Wanderson ao Estado.

A relação entre brasileiros e búlgaros começou pela fixação de Domuschiev em revolucionar o Ludogorets. O time jamais havia disputado a primeira divisão do país e foi comprado em 2010 por um valor baixo, cerca de R$ 120 mil. Apaixonado pelo futebol espanhol, o dono quis desenvolver na equipe um estilo de jogo mais técnico e buscou jogadores brasileiros para concretizar o objetivo. "Nossa ambição é jogar bonito e fazer a torcida apreciar o futebol", disse em entrevista ao site oficial do clube.

Desde o começo do investimento do magnata, o time ganhou 15 títulos, disputou a Liga dos Campeões e se tornou uma filial tupiniquim na Bulgária. O elenco já teve como técnico ano passado Paulo Autuori e chegou a ter dez brasileiros no elenco. "O dono gosta do futebol brasileiro, da qualidade, do drible e da personalidade. Ele sempre busca mais jogadores brasileiros para reforçar nosso time", disse Marcelinho, presente em convocações da seleção desde 2016.

Mesmo sem ter atuado pelo Ludogorets, quem viu toda a construção do clube foi o ex-meia Marquinhos. O campineiro de 37 anos defendeu a seleção búlgara de 2011 a 2014 e morou nove anos no país. "O dono é visionário. Construiu estádio, buscou patrocinadores e graças à presença dos brasileiros, mudou muito o futebol de lá", explicou.

Para defenderem a Bulgária, os brasileiros do Ludogorets não sofrem tanto com burocracia. Marcelinho e Wanderson contam que a diretoria do clube se encarrega de resolver a documentação e costuma solucionar o processo rapidamente. A exigência mais difícil é cumprir os cinco anos de residência no país, regra determinada pela Fifa para coibir o excesso de importações no futebol.

A seleção búlgara acumula seis partidas sem vencer e tem poucas perspectivas de classificação para a Eurocopa. Isso não tira a satisfação dos brasileiros em sentir o quanto conseguiram marcar época no futebol local. "É uma honra jogar com a camisa de um país que me acolheu e me dá carinho. Jogar por uma seleção é um sonho realizado", comentou Wanderson.

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Capítulo 7: Ao som de 'Bielsa Rhapsody', técnico argentino ressurge na Inglaterra

Técnico argentino retoma a carreira, aproxima Leeds do retorno à 1ª divisão e vira até paródia de música do grupo britânico

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 12h06

Um excêntrico treinador, o sucesso da cinebiografia Bohemian Rhapsody, da banda Queen, um elenco em mutirão para recolher lixo, um escândalo de espionagem e um tradicional time inglês em busca de voltar à elite. O que parece ser roteiro de um filme de comédia é na verdade o retorno por cima do técnico argentino Marcelo Bielsa. Conhecida como o "El Loco", Bielsa superou fracassos recentes para se envolver em diversos episódios inusitados e se aproximar de um feito histórico no comando do Leeds United.

O centenário clube de futebol está sem disputar a elite inglesa há 15 anos, mesmo período em que Bielsa não conquista títulos. O argentino trabalhou em duas Copas do Mundo (2002, pela Argentina, e 2010, com o Chile) , passou pelo futebol espanhol e francês e desembarcou em baixa na Inglaterra no meio do ano passado. O técnico havia perdido prestígio na Europa e precisaria se reerguer com um trabalho na segunda divisão. Não desanimou.

Com mais da metade da competição disputada, o Leeds é o líder na tabela e a torcida está empolgada com o sucesso do time e do seu comandante. As esquisitices do treinador conquistaram a torcida a ponto de o argentino ganhar uma paródia musical. O clássico Bohemian Rhapsody, do Queen, deixou de ser apenas um clássico da banda e o nome do filme indicado ao Oscar para se tornar também a trilha sonora do trabalho de Bielsa à frente do Leeds.

O comediante Micky Kerr é o responsável pelo hit da torcida. Radialista, ele alterou a música e acrescentou versos de ode a Bielsa. "Ele ganhou nossos corações pelas suas peculariadades e manias carismáticas. Bielsa é uma lenda e a música virou um tributo", afirmou. A paródia levou só dez minutos para ser produzida e se tornou muito popular entre a torcida.

Fora os resultados de campo, Bielsa também encantou os ingleses por mostrar como é ser "El Loco". Logo no primeiro dia de trabalho, ele ordenou que os jogadores recolhessem o lixo do CT. Foi uma forma de estimular a união e a humildade de todos. O técnico instalou uma cama e uma cozinha no local de treinos da equipe para economizar tempo, diariamente acompanha a pesagem dos atletas e tem uma obsessão com a grama, a ponto de fiscalizar o trabalho dos jardineiros. Leão e Telê também tinham essa mania.

O argentino é alvo de uma investigação pela organização do campeonato por ter enviado espiões aos treinos dos outros 23 rivais. Queria informações. Os adversários o acusam de jogar sujo, enquanto Bielsa ignorou e admitiu sondar os adversários desde o início da sua carreira. Uma vez descoberto, o técnico do Leeds decidiu escancarar de vez o jogo. Em entrevista coletiva, mostrou durante mais de uma hora as informações colhidas sobre os oponentes do torneio.

No passado recente, Bielsa chegou a visitar um convento na Espanha para pedir que as freiras locais rezassem pelo sucesso do seu time, o Athletic Bilbao. No ano passado, o técnico doou um hotel avaliado em R$ 10 milhões para ser usado como concentração do elenco do Newell's Old Boys, da Argentina, onde ele começou a carreira. Bielsa é assim e a torcida do Leeds está adorando presenciar novas versões dessas maluquices.

Como o argentino não fala inglês, a paródia Bielsa Rhapdsoy se transformou na melhor forma para transmitir apoio ao irreverente treinador. "A torcida está desesperada para voltar à elite do Campeonato Inglês. Nós temos fracassado por muito tempo, mas Bielsa fez com que a cidade inteira se empolgasse", resumiu Kerr.

ANÁLISE - Phil Hay: Bielsa mudou o futebol do Leeds

É difícil mencionar outros treinadores que sejam tão populares como Bielsa entre os torcedores. A sua nomeação como técnico no meio do ano ganhou aprovação unânime, o que não foi surpresa. Ele demonstrou ter atitude, fez o time ser ofensivo e garantiu bons resultados. Ele é excêntrico, mas é melhor descrevê-lo como alguém que tem obsessão por futebol. O Leeds tem testemunhado uma grande mudança de cultura futebolística.

Bielsa exigiu que todos os jogadores perdessem gordura e adquirissem massa muscular para se adequarem ao estilo de jogo de posse de bola. Muitos comentam que nunca estiveram com forma física tão boa. O treinador também conseguiu promover garotos da base. Mais do que tudo, ele é um profissional que não abre mão da sua filosofia. O Leeds joga sempre da mesma maneira: quer vencer e marcar gols. O time, que no ano passado foi 13º, agora é líder. É uma grande reviravolta.

Para ele, a vinda ao Leeds é como uma aventura romântica. Vale pelo desafio de ressuscitar um clube que nos últimos anos amargou até a terceira divisão. A torcida está otimista e sempre se faz a seguinte pergunta: se Bielsa não vai nos levar à elite, quem vai conseguir?

*Phil Hay é editor do jornal Yorkshire Evening Post

 

 

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Capítulo 8: O cotidiano curioso de um brasileiro no futebol iraniano

Ex-jogador do São Paulo tenta se adaptar à cultura e aos hábitos do país islâmico

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 17h23

Em Tabriz, assim como acontece na maioria das cidades iranianas, os homens não podem usar shorts ou bermudas em público. É proibido. Por causa do calor de 40 graus, esse foi um dos costumes que causou maior estranhamento no atacante Mazola assim que chegou à cidade para defender o Tractor, time da cidade. O ex-jogador do São Paulo, com passagens pela Coreia, Japão e China, está na primeira divisão do futebol iraniano há um mês e está se adaptando dentro e fora de campo.

"Um dia, eu coloquei short, camiseta, boné e desci para tomar café da manhã no hotel. Eu percebi que todo mundo estava me olhando. Pensei que era por causa das tatuagens, que também são proibidas no Irã. Foi aí que o capitão do time me disse que não pode passear de short. A gente só pode ir, treinar e voltar. Andar no shopping não pode", diz o atacante de 30 anos, afirmando que a lista do que não pode é longa.

"A gente pode cumprimentar as mulheres com um aperto de mão, por exemplo. A academia tem horários diferentes para homens e mulheres. Eles não fazem exercícios no mesmo horário. Das 9 às 16h, a academia é das mulheres. Das 17h às 23h é só para os homens", diz Marcelino Júnior Lopes Arruda.

Até 1979, o Irã era um país de costumes ocidentais em pleno Oriente Médio. A partir da chegada do aiatolá Khomeini ao poder, tudo mudou. O país passou a viver sob uma rígida interpretação da religião islâmica. A vitória de Mahmoud Ahmadinejad na eleição presidencial de 2005 tem dado causa a um aumento nas tensões entre o Irã e inúmeros países ocidentais, em especial no que se refere ao programa nuclear iraniano. Os cinco canais de televisão são controlados pelo Estado. Mas na capital, Teerã, as proibidas antenas parabólicas são toleradas pela fiscalização. As mulheres eram proibidas de ir aos estádios

Mazola afirma que os iranianos não discutem todos os temas abertamente. "Não sei o que eles pensam sobre os Estados Unidos, por exemplo, eles são muito fechados. Por outro lado, eles gostam muito de brasileiros. Admiram nosso alegria e nosso jeito mais aberto de se relacionar", opina.

O brasileiro chegou há um mês ao Tractor Football Club, time fundado em 1970 e que herdou o nome de uma fábrica de tratores. O time é comandado pelo técnico turco Mustafa Denizli. Mazola já percebeu o fanatismo da torcida. Os Lobos Vermelhos, nome dado aos torcedores, sempre lotam o Yadegar-e Emam Stadium, que tem capacidade para 67 mil espectadores. "O estádio está sempre cheio e muita gente ainda fica do lado de fora". Na Copa da Rússia, o Irã caiu na primeira fase no grupo com Espanha, Portugal e Marrocos. 

Após a conquista da Copa do Irã em 2014, o time busca o título do principal torneio do país, chamado de Pro Liga. "Escolhi o Tractor, pois gosto de desafios. O futebol do Irã é competitivo. O nosso capitão diz que ele gostam de 'pelear', gostam do contato. É um jogo mais de contato físico do que de a construção de jogadas".

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Capítulo 9: Tailândia se abre como novo caminho para os jogadores brasileiros

Após se acostumar com a vida no país asiático, jogadores ajudam a desenvolver o esporte local

Luís Felipe Santos, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2017 | 07h01

Para jogadores brasileiros sem clubes, o futebol asiático é opção. Além dos tradicionais mercados japonês e árabe, e do rico chinês, outro caminho surgiu recentemente: Tailândia. O futebol é dominado pelo Buriram United, time dos brasileiros Diogo, Rafael Bastos e Jajá, atual tricampeão da Liga Nacional Tailandesa.

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Nos torneios continentais, seu melhor desempenho na Liga dos Campeões asiática ocorreu em 2013, quando a equipe chegou às quartas de final, perdendo para o iraniano Esteghlal. Desde então, caiu sempre na fase de grupos. A seleção começa a obter bons resultados diante dos vizinhos, como Malásia e Vietnã, mas sofre quando joga contra países com futebol mais desenvolvido. Nas Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo, chegou à fase final, mas ficou em último, sem vencer nenhuma das dez partidas.

Os brasileiros tiveram papel importante neste crescimento, ajudando a popularizar o esporte. Neste ano, quatro dos cinco principais artilheiros vieram do Brasil – o goleador máximo foi o montenegrino Dragan Boskovic, com 38 gols, tornando-se o recordista da Liga tailandesa em única edição. Jajá ficou quatro gols atrás de Boskovic.

Anteriormente, os brasileiros Cleiton Santos, Diogo, ex-Palmeiras, Portuguesa e Flamengo, já haviam batido a marca, assim como Heberty, que joga no país há três anos. Ele tem 29 anos, com passagem pela Arábia Saudita. Foi artilheiro em 2014, com 26 gols. “Tenho expectativa de voltar a ser artilheiro. Não consegui nesta temporada porque joguei apenas metade do ano, mas quem sabe no próximo ano”, disse ao Estado – ele foi campeão da Copa da Tailândia pelo Muangthong United.

O sucesso dos brasileiros coincide com o fortalecimento do futebol no país. Os clubes têm procurado melhorar sua estrutura e construído novos estádios. Embora com capacidade em torno de 15 mil lugares, a nova arena do Muangthong dificilmente fica vazia, segundo Heberty e seu colega de time, Leandro Assumpção.

Assumpção, outro atacante, joga na Tailândia há seis anos. Nesse período, viu muitas coisas mudarem. “Pude ver uma evolução tanto na questão de estrutura física quanto na de salários. Vejo que eles investem nas categorias de base, mas não utilizam tanto os garotos. Aqui sou mais bem pago do que seria se estivesse em um time de segunda ou terceira divisão no Brasil”, diz – times médios brasileiros chegam a pagar salários entre R$ 30 mil a R$ 100 mil.

Outra questão sobre os salários é levantada por Rodrigo Vergílio, o ‘Careca’, atacante de 34 anos, que está no país há duas temporadas. “Aqui, além de receber mais, tenho a certeza que serei pago em dia. Não tem mais aquela insegurança. Quando estava no Náutico, em 2014, torcedores me paravam e perguntavam ‘quando você vai jogar?’. Eu respondia que queria, mas que era difícil sem receber”, relata o jogador.

Quanto ao estilo do futebol, Assumpção compara ao inglês. “Eles adoram o Inglês, então tentam jogar no estilo clássico, mesmo com as limitações. Há muita bola esticada, correria e jogadas aéreas”. Outra diferença entre o futebol brasileiro e o tailandês é o comportamento da torcida. “Aqui quase não tem pressão. Mesmo com o time em fase ruim continuam sendo afetuosos. As estrelas são tratadas como seria Ronaldinho no Brasil”, diz Vergílio. Ao Estado, eles disseram não querer voltar

 

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Capítulo 10: Malta desponta como novo destino preferido dos jogadores brasileiros na Europa

País supera mercados como China e Espanha e é a quarta liga a mais contratar atletas nacionais em 2018

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2019 | 04h30

Em vez da onda recente do milionário futebol chinês, do poderio econômico das libras esterlinas inglesas ou da tradição das equipes espanholas, a pequena Malta é um dos mercados que mais têm crescido na contratação de jogadores brasileiros. O país insular vizinho da Itália, conhecido pelas praias paradisíacas e paisagens históricas, foi o quarto que mais levou atletas de equipes do Brasil em 2018.

Segundo dados divulgados pela CBF, 31 jogadores saíram do Brasil na última temporada e migraram para a pequena nação europeia localizado no Mar Mediterrâneo. Em quantidade de negociações para o exterior, somente os tradicionais destinos de Portugal, Arábia Saudita e Japão contrataram mais atletas do futebol brasileiro em 2018.

Malta tem menos de 500 mil habitantes e conta atualmente com 59 jogadores brasileiros nas duas primeiras divisões – outras divisões são “amadoras”. Desse total, 36 disputam a principal liga e representam cerca de 10% dos atletas profissionais inscritos no campeonato. Nenhuma outra nacionalidade estrangeira tem tanta presença.

Para o agente de jogadores Marcelo Robalinho, Malta tem recebido tantos brasileiros por ser uma parada estratégica antes de transferências para outros destinos mais importantes da Europa. "É um mercado de entrada no continente europeu, assim como Moldávia, Letônia e Lituânia. Quem vai para lá, busca ter uma primeira experiência antes de seguir para outros países", disse o empresário, que já trabalhou em transferências para o futebol maltês.

Um dos brasileiros que se transferiram para Malta em 2018 foi o atacante Tiago Adan, de 31 anos. O jogador trocou o paulista Novorizontino pelo Hibernians com o objetivo de chamar a atenção de outros clubes em países mais tradicionais.

"Vim no intuito de abrir portas, seja em outros países da Europa ou na Arábia Saudita, que tem vários olheiros por aqui. Tive amigos que usaram Malta como atalho e depois saíram. Pretendo ficar umas duas temporadas", disse. Adan tem outros quatro compatriotas no elenco.

Por ter uma população reduzida, os clubes malteses procuram reforços estrangeiros para se reforçar. Os atletas locais formam apenas 54% dos profissionais inscritos na primeira divisão. Cada time pode ter no elenco até sete forasteiros. Depois do Brasil, italianos, argentinos e sérvios são as principais nacionalidades na liga nacional.

O grande número de estrangeiros não se traduz em utilização na seleção de Malta. A federação é exigente com nacionalizações e exige que o jogador more no país por cinco anos.

No ano passado, Malta recebeu cerca de 2,5 milhões de turistas, segundo números do governo. O fluxo de visitantes encarece alguns setores da economia, como restaurantes e imóveis. O aluguel mensal de um apartamento simples no país custa aproximadamente R$ 3 mil. O salário de um jogador profissional da primeira divisão é de, em média, R$ 6,5 mil.

Malta atrai brasileiros por pagar em euro e por condições mais fáceis de adaptação. O clima é mais ameno e o idioma facilita, pois a população fala inglês e italiano. Por isso, em dez anos o número de jogadores brasileiros quase que dobrou. Em 2009, eram 19 representantes, enquanto que agora são 36.

O ex-zagueiro Renato Conceição foi um dos primeiros brasileiros a se aventurar por Malta. Foram 12 anos como profissional. Agora ele está há três temporadas como técnico da base de um time local chamado Floriana. A longa trajetória no país o fez até abrir uma agência de intercâmbio especializada em receber brasileiros interessados em estudar inglês. "Os jogadores vêm para cá pela vitrine de estar na Europa e perto da Itália. O salário não é bom, mas vale para fazer currículo", diz.

PONTE

O atacante Jorge Santos, de 31 anos, escolheu Malta como um destino para adquirir experiência. O jogador deixou o futebol do Mato Grosso do Sul para ficar cinco temporadas no país à espera de uma oportunidade em outro mercado melhor. "Eu sabia que se fosse bem, apareceria outros lugares", disse o atual jogador do Qadisiah, da Arábia Saudita. "A liga não tem visibilidade, mas me ajudou a ter números eficientes. Isso importa muito para outros lugares. Você precisa estar jogando e indo bem", explicou.

O meia Gilmar, do Hatta, dos Emirados Árabes Unidos, ficou três anos na ilha de Malta e torce para que mais compatriotas desbravem esse caminho. "Para quem busca carreira fora, Malta pode ser o início. Os malteses gostam de brasileiros."

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