Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Futebol pode ver o fim de uma era em prêmio de melhor do mundo da Fifa

Modric pode desbancar Cristiano Ronaldo e encerrar o reinado de 10 anos do português e de Messi

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 05h00

Ao sair do campo em Moscou no jogo contra a França e ver o título de campeão do mundo escorregar entre os dedos, Luka Modric não disfarçava a frustração: ele havia sido escolhido como o melhor jogador da Copa e a imprensa já o questionava como era se sentir como o provável vencedor do prêmio de melhor atleta do mundo em 2018. Mas o croata não parecia se animar. “Meu objetivo era ser campeão do mundo. Não tenho nenhuma obsessão com títulos pessoais”, disse.

Mas é curiosamente dos pés desse jogador que insiste que não tinha os prêmios pessoais como meta que um dos reinados mais longos da história do futebol e um dos duelos mais intensos entre dois astros pode chegar ao final: o de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo

Pouco mais de dois meses depois daquela final, Modric volta ao centro das atenções nesta segunda-feira, em Londres. Desta vez, o croata é um dos três finalistas da Fifa para ficar com o troféu The Best, reservado ao melhor jogador da temporada 2017-2018.

Na corrida pelo prêmio ainda estarão Cristiano Ronaldo, vencedor do título de melhor do mundo por cinco vezes, e Mohamed Salah, o egípcio do Liverpool e que chacoalhou com a Premier League na temporada passada. O evento ainda marca onze anos sem o troféu para um brasileiro.

Para ex-jogadores, treinadores e comentaristas, o evento de 2018 é o primeiro em que existe uma real chance de acabar com um duelo particular entre Messi e Cristiano Ronaldo. Juntos, eles levaram todos os prêmios desde 2008 e ‘sequestraram’ o evento que, no fundo, nem sequer fazia mais sentido para o restante dos jogadores espalhados pelo mundo.

Agora, pela primeira vez em onze anos e já entrando na fase final de sua carreira, Messi ficou fora até do pódio, apesar de ter sido o maior artilheiro da Europa na temporada 2017-2018 e de ter levado mais um título do Campeonato Espanhol. Ele vinha ocupando o palco desde 2007, quando ficou em segundo lugar numa premiação que escolheu Kaká como o melhor do mundo. No total, ele ganhou o troféu em cinco ocasiões, recorde que compartilha com o português, agora na Juventus.

Cristiano Ronaldo ainda espera vencer a edição de 2018 para, provavelmente, se estabelecer como o jogador com o maior número de troféus individuais da história. Uma eventual vitória do atacante ainda marcaria uma virada inédita e encerraria uma obsessão que marcou a carreira do português: mostrar ao mundo que é melhor do que o rival argentino.

Por essa meta pessoal, ele nunca desistiu. Ao chegar no evento de 2013, por exemplo, o placar de títulos estava 4 x 1 para Messi. Para 2018, o português saiu da final vitoriosa da Liga dos Campeões certo de que havia conquistado, ali, mais um troféu de melhor do mundo e um lugar garantido como o mais premiado da história.

Mas, ironicamente, seu maior rival em 2018 não será seu tradicional concorrente argentino, e sim seu parceiro croata de títulos da Liga dos Campeões. A ameaça ao reinado de Messi e Cristiano Ronaldo já tinha mandado um alerta em agosto. Ao escolher o melhor da Europa, a Uefa deu o prêmio para Modric. A derrota enfureceu o português e seus assessores, que chegaram a chamar o resultado de “ridículo”.

O staff do Real Madrid, a torcida e jogadores como Sérgio Ramos e Casemiro saíram em apoio ao croata que, nos últimos anos, passou por uma transformação entre um ótimo jogador para um ícone de um futebol técnico e elegante.

Para o argentino Jorge Valdano, Modric merece o prêmio em 2018. “Se ele não vencer agora, seria uma injustiça equivalente ao que se cometeu com Xavi ou Iniesta, no auge de suas carreiras”, disse o ex-jogador. Zico concorda. “O que o diferencia é sua visão e sua habilidade de sair de situações impossíveis com a bola”, declarou o brasileiro, ao site da Fifa.

Graças ao voto popular que conta 25% da pontuação final, a Fifa ainda pode ver uma surpresa com Salah, herói nacional no Egito e jogador que tem recebido o amplo apoio do mundo muçulmano. O desempenho fracassado de sua seleção na Copa – caiu na primeira fase –, porém, pode pesar na decisão final.

Em Londres, todos querem saber se o reinado que marcou o futebol mundial chegou ao final. Mas, entre os dirigentes e os demais jogadores, o sentimento é de que dificilmente uma dupla conseguirá reviver a dimensão da disputa que os dois jogadores tratavam na última década. E ninguém jamais questionará o status de Messi ou Cristiano Ronaldo como dois dos melhores da história.

Brasileiros são só coadjuvantes

Na festa anual do futebol mundial, os brasileiros ocupam uma vez mais um papel de coadjuvante, depois de uma Copa do Mundo decepcionante que tirou Neymar até mesmo da lista dos dez melhores do mundo. A última vez em que um brasileiro conquistou o prêmio foi em 2007, com Kaká.

Em 2018, porém, seis brasileiros concorrem a um lugar na seleção do mundo. A lista de 55 nomes selecionados pela Fifa e pela FiFPro (Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol) inclui Dani Alves, Thiago Silva e Neymar, do PSG, Marcelo e Casemiro, do Real Madrid, e Philippe Coutinho, do Barcelona.

Entre as melhores jogadoras do mundo, Marta consegue uma vez mais chegar à final e disputa o troféu. Mas a brasileira, que ganhou o prêmio em cinco oportunidades, concorre contra a norueguesa Ada Hegerberg e a húngara Dzsenifer Marozsán, que atuam juntas no Lyon, da França, e são favoritas.

Um tento anotado por Arrascaeta, o meia uruguaio do Cruzeiro, também concorre ao Puskás, prêmio para o gol mais bonito da temporada.

Mas, assim como na avalanche de conquistas da Europa em campos de todo o mundo nos últimos anos, a premiação da Fifa apenas repete a mesma tendência. A nacionalidade mais presente na lista da seleção do mundo é a da Espanha, com nove jogadores. A França, campeã do mundo, aparece com oito representantes. Os europeus são 71% dos finalistas.

“Precisamos da Ásia, da América Latina, da África”, constatou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, em reunião neste domingo, em que lembrou que a Europa venceu as últimas quatro Copas do Mundo.

Na premiação entre os técnicos, todos são europeus: Zinedine Zidane, pelo desempenho com o Real Madrid ao conquistar mais uma Liga dos Campeões, o treinador da Croácia, Zlatko Dalic, vice-campeão do mundo e que operou um milagre ao assumir o time na última hora, e Didier Deschamps, campeão do mundo pela França.

No futebol feminino, os finalistas são Reynald Pedros (Lyon), Asako Takakura (Japão) e Sarina Wiegman (Holanda). Vadão, que concorria, ficou de fora da lista final.

A Fifa ainda criou um prêmio especial para o melhor goleiro da temporada. Todos europeus: o belga Thibaut Courtois, o francês Hugo Lloris e o dinamarquês Kasper Schmeichel.

Para o prêmio da melhor torcida concorrem os peruanos que lotaram Moscou para ver sua seleção depois de 32 anos numa Copa, o gesto dos japoneses e senegaleses que limparam os estádios depois de festejar e Sebástian Carrera, torcedor do Deportivo Puerto Montt, que viajou 3 mil quilômetros e foi o único torcedor visitante na partida contra o Coquimbo.

 

 

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