Futebol por perto

Era o futebol que vinha de encontro das pessoas, não o contrário

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 04h00

Uma recente pesquisa do DataFolha revela que o brasileiro vem abandonando paulatinamente o futebol. O dado chocante é que já chega a mais de 40% o total de brasileiros que não tem o menor interesse pelo futebol. Também é enorme o número dos que jamais puseram, ou porão, os pés em algum estádio. Não sei, algo me diz que não estamos diante de novidade e que a invenção do país do futebol, dos torcedores alucinados a gritar e dançar pelas ruas, é coisa recente, precisamente de 1970.

Essa invenção tem dupla autoria, ou tripla, se quiserem: a ditadura, a televisão, que sempre se colocou ao lado da ditadura, e a publicidade, que sempre se colocou ao lado da televisão. Foi alavancada por um fato real: a grande conquista, por uma incrível equipe, da Copa do Mundo do México.

Essa tríade de forças combinadas criou um País imaginário onde todos amavam o futebol e reconheciam nele o elo que unia brasileiros de várias procedências igualmente encantados, animados pelos gritos histéricos de narradores e por otimistas comercias de TV espalhados por todos os canais.

Com o tempo a fábula foi crescendo, atravessou os anos 70,80 e 90 e entrou vitoriosa no século 21. Agora vem uma pesquisa que indica que as coisas não são bem assim. Da minha parte devo dizer que nunca foram. O futebol para os brasileiros nunca se deu em estádios, simplesmente porque os estádios eram poucos, e os jogos também.

Não existiam essas competições variadas que, disfarçadamente, apenas cobrem, com jogos das mesmas equipes o ano inteiro, sem nenhuma folga. O povo brasileiro abraçava o futebol quando o futebol estava perto dele. Num mundo que não existe mais, a bola estava presente o tempo todo. Na rua, estradas, no pátio das igrejas, nos terrenos baldios, nos quintais, embaixo de pontes. Chutava-se qualquer coisa, latas, bolas de borracha, de meia, de papel. Jogava-se a qualquer hora.

Numa das crônicas mais inesquecíveis e brilhantes de Nelson Rodrigues, ele relata a surpresa e o encanto de um turista que ao passar de carro pelo aterro do Flamengo altas horas da noite presenciou o espetáculo de uma habitual pelada que os garçons das redondezas do Hotel Glória, já livres do trabalho, jogavam atravessando a madrugada. Nelson descreve o espanto do turista diante daquela “pelada espectral”, sublime. Era assim, o futebol estava ao alcance da mão ou dos pés.

Eu mesmo presenciei disputada pelada, desta vez sob o sol da hora do almoço, jogada na rua, entre operários da Prefeitura que faziam reparos no pavimento, a maioria sem tirar as pesadas jaquetas, botas de borracha, e desajeitados protetores de ouvido, mas se divertindo furiosamente, mais do que se estivessem em qualquer estádio.

Era o futebol que vinha ao encontro das pessoas, não o contrário. O time do Corinthians com todos os seus craques se exibiu mais de uma vez na famigerada Casa de Detenção do Carandiru, e na Penitenciária do Estado, contra seleções de presos.

Na mesma Casa o futebol entrava pelo rádio todos os domingos, transmitindo para as celas jogos do Corinthians, time de maior torcida no local. No entanto, havia outra transmissão, feita ao mesmo tempo, esta de jogos internos do torneio entre pavilhões, onde os presos jogavam entre si, também irradiada, de modo profundamente engraçado pelo Lupércio, um detento popular, de talento, verve e conhecimento de futebol. Sua irradiação, saborosa e sarcástica, porém, não ia para as celas. Até que um dia os presos fizeram solicitação à diretoria: dispensavam os jogos do Corinthians e preferiam que chegasse às celas as transmissões do Lupércio. Assim foi feito. O futebol dos estádios nunca foi o mais importante, muito menos o da TV. Havia sempre outros ao redor.

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