Hélvio Romero/Estadão
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Futebol preso a âncoras

Vivemos nas trevas, na escuridão técnico-tática, presos a conceitos superados

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 04h00

Aos 19 minutos, Vagner Love, próximo à bandeira de escanteio na defesa do Corinthians, marcava Soteldo, hábil meia ofensivo do Santos. O atacante conseguiu travar a ação ofensiva, arrancando reações eufóricas da torcida. Sim, ali os corintianos reconheceram a aplicação do camisa 9.

Na transmissão da TV, os ex-jogadores Casagrande e Ricardinho criticaram a, digamos, obrigação do atacante, que trabalhava defensivamente. Com quase meia hora de bola rolando, o Santos já tinha seis finalizações contra duas, incluindo uma bola na trave do goleiro Cássio.

A imposição santista a partir do momento em que rolou a pelota obrigava atletas com funções ofensivas a ações no campo de defesa, como fazia o dedicado Love na jogada que gerou tais comentários. Afinal, há algum problema na atitude do camisa 9, solidário à retaguarda quando o seu time era atacado?

Não, o problema não é a participação defensiva do atacante, ainda mais tendo sido escalado ao lado de outro centroavante, Mauro Boselli. Sempre que o adversário tem a bola, os jogadores devem assumir tarefas defensivas. E reunir força física para marcar, recuperar a pelota e atacar.

O jogo atualmente é assim, aliás, há tempos funciona dessa maneira. Há aproximadamente 12 anos o Manchester United tinha um trio de ataque avassalador, que ganhava todas as taças, Cristino Ronaldo, Tevez e Wayne Rooney. Este último fazia gols, dava assistências e voltava para recuperar a bola.

Detalhe: Rooney é o maior artilheiro da história do Manchester United e da seleção inglesa, mas jamais deixou de trabalhar pela retomada da posse quando ela era do adversário. Recuava, cercava, marcava, dava botes, carrinhos e fazia gols, de dentro e fora da área, de cabeça, de bicicleta.

Incrível como em 2019 ainda se discuta o trabalho defensivo de um atacante, como se ainda estivéssemos nos tempos em que cabia aos homens de frente esperar pela bola para chutar contra a meta inimiga. Vivemos nas trevas, na escuridão técnico-tática, presos a conceitos superados.

O futebol brasileiro segue amarrado a conceitos antiquados que operam como âncoras. Parte dos técnicos e da mídia ainda crê em volantes que só marcam, laterais que apenas cruzam e atacantes que se limitam a atacar. Para esses, goleiro somente defende. Embora essa ainda seja sua primordial missão, há tempos eles fazem mais.

O jogo aconteceu três dias depois de o Flamengo amassar o Grêmio em plena semifinal de Libertadores com os históricos 5 a 0. Jogando com pelo menos três homens ofensivos, meias que saem para o jogo e um volante adaptado na função há dois meses. O exemplo é apresentado, mas o conservadorismo sobrevive.

Será difícil e demorado o processo de resgate do futebol que se pratica em “Terra Brasilis”. E os exemplos dados por treinadores vindos de fora, como Jorge Sampaoli e Jorge Jesus, não serão considerados pelos que defendem as coisas seguindo na mesmice de sempre, caso eles não transformem as suas inovações em títulos. 

Inovações em se tratando de bola que rola por aqui, pois como no exemplo de Rooney, acima citado, sabe-se que essa participação ativa de atletas com diferentes funções ocorre há tempos. Mas no Brasil há uma resistência conservadora, conveniente aos treinadores que se eternizam em seus cargos, mesmo fazendo tão pouco.

Em tempo: mesmo atuando em casa, diante de 32 mil torcedores, segundo o Footstats o Corinthians teve menos posse de bola (36%), menos passes certos trocados (222 a 429) e menos finalizações (9 a 16). Final, 0 a 0 em mais um jogo fraco, apesar das tentativas do Santos, que parecia mais decidido a vencer.

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