Nilton Fukuda/Estadão
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Futebol sem liderança

Clubes, federações e CBF não se conversam durante pandemia, assim como cidades, estados e o governo federal

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 05h00

O futebol nacional é o espelho do Brasil nesta pandemia. Uma bagunça. Sem liderança. Com Estados e municípios falando idiomas diferentes, e um governo federal misturando tudo, pavimentando uma terceira via, nem para um lado nem para o outro, de modo a deixar os milhões de brasileiros perdidos, sem saber quem ouvir e qual direção tomar. O futebol está sem rumo, como o País. Há muita disposição, mas pouca inteligência e quase nenhum bom senso.

Nessa trama, a CBF seria o governo federal. E as federações, os Estados. Há ainda os clubes, que caminham com as próprias pernas e tendem a tomar seus próprios rumos, como os municípios. O que acontece no Brasil em relação ao isolamento social e retomada da economia também ocorre no futebol, com a possível volta aos treinos e o retorno dos jogos.

Cada um faz o que quer ou faz o que acha mais importante para sua instituição, seja cidade ou clube de futebol.

Não há uma voz única capaz de traçar caminhos coerentes e sensatos. Nem no Brasil nem na CBF, comandada por Rogério Caboclo. Ele, com seus pares dentro da Casa do Futebol Brasileiro, deveria bater no peito e decidir o melhor para o esporte, o mais seguro contra a covid-19, pensando nos jogadores e em todos os profissionais que trabalham nos campeonatos, de modo a não deixar ninguém de fora. A retomada, com ou sem pressão dos interessados, deveria partir da entidade máxima, assim como a decisão de esperar mais um pouco até o Brasil ter certeza de que a doença está sendo derrotada.

Não há nenhuma evidência nesse sentido em todas as 27 federações do País. Brasileiros estão morrendo moribundos vítimas do coronavírus. Os números são crescentes. As notícias são terríveis e alarmantes. A pandemia expôs um mundo frágil, mesmo os países mais ricos, em um Brasil muito mais pobre, carente e debilitado do que imaginávamos. Metade da nossa população não consegue acessar aplicativos para conseguir receber os R$ 600 oferecidos pelo governo por três meses.

Para boa parte o isolamento social é impossível dentro do mesmo cômodo. E ainda tem os que se perdem nos comandos dos nossos líderes, e fazem o torto por acharem que esse é o certo.

Nas últimas semanas o futebol brasileiro se coça para retomar suas atividades. Os jogadores já ‘voltaram’ das férias, terminadas em abril. Estão, portanto, à disposição. No Rio, a federação acena com a possibilidade de deixar para os clubes a decisão de voltar ou não ao trabalho. Faz o que sempre costuma fazer em encruzilhadas: lavar as mãos. Em São Paulo o discurso é parecido. Em outros Estados, o futebol aguarda determinações de seus governadores, para que cada federação tome seus próprios caminhos. Fazem isso também porque as orientações que partem da CBF não são claras, tampouco firmes como deveriam ser.

Assim, a República das Bananas faz jus ao nome e vira uma bagunça.

A única situação que une os clubes de futebol do País nesse momento é a certeza de que as partidas, se e onde voltarem, não terão público. Os estádios estarão com seus portões fechados e não se sabe quando vão abrir. Essa decisão parece clara, mesmo porque se impõe sozinha.

Fora isso, nada se sabe ao certo no futebol brasileiro. As conversas, de norte a sul, leste a oeste, são de que os jogadores devem começar a treinar nos próximos dias de forma restrita, em grupos de três ou quatro, revezando-se no vestiário e nos horários e seguindo cartilhas de comportamento em função da contaminação. Cartilhas, diga-se, diferentes. Não foi feito uma com orientações nacionais ou únicas. Cada Estado tem a sua. Então, até onde se sabe, a semana pode apresentar novidades nesse sentido. Se não em um Estado, talvez em outro.

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