Gustavo Ferreira/AIG-MRE
Gustavo Ferreira/AIG-MRE

Futebol vira trunfo do governo brasileiro nas relações diplomáticas

Itamaraty usa esporte como instrumento para aumentar a influência do Brasil pelo mundo

Jamil Chade - Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Alguns países fazem alianças com governos estrangeiros fornecendo armas, financiando projetos de infraestrutura e até mesmo enviando seus cineastas para ajudar a criar um clima positivo, como no caso de Walt Disney no Brasil, na década de 40. E o governo brasileiro encontrou outra forma de fazer a "política de boa vizinhança": mandando bolas, técnicos, jogadores e até uniformes de futebol a diversos países. 

Não é de hoje que o futebol abre portas aos brasileiros no exterior. Pelé sempre conta que parou uma guerra na África e não foram poucos os ditadores que usaram a seleção para aumentar sua popularidade. Mas agora a "diplomacia da bola" é algo institucionalizado e incorporado à estratégia da chancelaria brasileira. No Itamaraty, foi criada a Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva, divisão que administra dezenas de acordos fechados entre o País e governos estrangeiros, além de centralizar as centenas de pedidos que anualmente Brasília recebe dos quatro cantos do mundo.

Em cinco anos, foram mais de cem países beneficiados por algum tipo de ajuda esportiva do Brasil e a lista coincide com as áreas dos mundo escolhidas como prioridade da política externa nacional. O Brasil capacitou técnicos em Timor Leste, Cabo Verde, Botswana, Haiti e Burundi, treinou mais de 20 árbitros em Gâmbia, Libéria, Jamaica e Palestina e estabeleceu dezenas de programas esportivos com países de África, América Central, Oriente Médio e Ásia.

Outra iniciativa do Itamaraty foi trazer ao Brasil as seleções de Haiti, Benin, Casaquistão e Filipinas para treinamentos, em parceria com clubes brasileiros. O governo, por exemplo, fechou um acordo para a preparação de um mês da seleção juvenil de Moçambique no Corinthians e mandou a seleção feminina da Palestina para o Santos.

Em alguns casos, a cooperação se limita aos aspectos mais básicos, como o envio de bolas e uniformes para Nicarágua, São Tomé e Príncipe, Tonga e Togo. O carro-chefe da iniciativa é o futebol, mas o Brasil também promoveu oficinas de vôlei de praia em cidades como La Paz, Cotonou, Lusaka e Nairóbi.

O governo ainda organizou aulas de capoeira em São Tomé e Príncipe, Islamabad, Kingston e Adis Abeba e está em negociação para levar a prática a campos de refugiados no Congo-Kinshasa. "A demanda é muito grande, e crescente", declarou a chefe do departamento que cuida da “diplomacia da bola”, a ministra Vera Cíntia Álvarez.

No Itamaraty, ninguém nega que a ofensiva diplomática tem objetivos que vão além do esporte – até mesmo ajudando o Brasil a ganhar votos para sediar grandes eventos internacionais. Antes da eleição do Rio para os Jogos Olímpicos de 2016, o governo enviou uma delegação justamente para negociar essa cooperação com países, influenciando na votação. "Eu considero que a cooperação internacional nessa área influenciou positivamente nas bem-sucedidas campanhas brasileiras para sediar eventos como os Jogos Mundiais Indígenas, em 2015 (ainda sem um local definido), os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos de 2016 e também os Jogos Mundiais Universitários de Brasília, em 2019", declarou a diplomata.

A instrumentalização do esporte, entretanto, também tem objetivos políticos. Os locais escolhidos pelo Brasil para fechar acordos são exatamente aqueles colocados pela diplomacia nacional como prioridade para uma ofensiva do governo, seja para abrir mercados ou mesmo para obter a simpatia desses países em votações na ONU. Não por acaso, a cooperação foi fechada principalmente com países africanos, árabes e latino-americanos. "Do ponto de vista da política externa, é um instrumento de com um potencial extraordinário, que projeta a imagem do Brasil, veiculando e até materializado discursos e práticas que nos são caras: inclusão social e combate a discriminações (racial, étnica, de gênero e a pessoas com deficiência)", explicou Vera Cíntia Álvarez.

Ela, porém, insiste que o Brasil não trabalha com "resultados imediatos". "A cooperação esportiva brasileira não está vinculada a objetivos políticos específicos. Trabalhamos com o conceito de reciprocidade difusa, por meio do qual buscamos instituir um ambiente de maior colaboração no cenário internacional, não diretamente vinculada a resultados imediatistas ou a contrapartidas específicas."

CHINA VIRA CONCORRENTE

O governo brasileiro considera a ideia de utilizar o esporte – mais especificamente o futebol – como instrumento diplomático algo "relativamente barato, tecnicamente simples e extremamente simpático". Há, no entanto, um problema inesperado: o País enfrenta sérios concorrentes em várias regiões do mundo, com programas bem mais ambiciosos do que o do Brasil.

O principal desses concorrentes é a China. O apurou que os chineses já ergueram 61 estádios de futebol nos países africanos. O mais novo deles é o do Gabão, construído por uma empresa de cimento da China e financiado exclusivamente por Pequim, na tentativa de se firmar como o maior parceiro do país africano, repleto de petróleo em sua costa. Em Maputo, Moçambique, os chineses construíram um estádio em 2010 e 500 chineses foram levados para a cidade para ajudar os moçambicanos nas obras.

Em Angola, os chineses ergueram estádios em Luanda, Benguela, Cabinda e Lubango para a realização da Copa Africana de Nações de 2010. O mesmo padrão foi visto na Argélia, onde a China tem amplos interesses no setor de petróleo e gás. A China Railway Construction Engineering Group opera um estádio para 40 mil pessoas no país. Outro exemplo foi o contrato assinado para a construção de estádios em Camarões, além de arenas em Tanzânia, Guiné e Mali.

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