Gabigol e seu duplo

Ele é ou não é grande jogador? Qualquer fracassado lá fora pode virar estrela aqui?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 04h00

Ele voltou, e deveria ter voltado cabisbaixo pelo insucesso de sua estada na Europa. A Internazionale de Milão, à qual ainda está amarrado por contrato, jamais, ao que parece, acreditou nele. Marcou apenas um gol enquanto esteve lá e ficou o resto do tempo na reserva. Foi emprestado ao Benfica e, em Portugal, também conseguiu repetir a proeza de só fazer um gol durante toda sua passagem por terras lusitanas. Dizia eu que deveria voltar ao Brasil com o rabo entre as pernas, vergado pelo fracasso, humilde, no seu canto, grato pela oportunidade de pouco a pouco recomeçar.

Não aconteceu nada disso. Na reestreia, contra a Ferroviária, fez gol. No primeiro clássico que fez, na maior parte da disputa enfrentando sozinho toda a defesa do São Paulo, fez um golaço, gol de quem conhece o jogo e a posição, batendo da entrada da área no canto do goleiro. Depois da partida, deu entrevistas com desenvoltura e confiança, ainda traindo um ar de quem está voltando. Lembrava de qualquer modo o Gabigol que conhecíamos.

Nos dois jogos seguintes fez outros dois gols, mais, portanto, do que em toda sua permanência no Velho Mundo. Com isso reaparecia plenamente o antigo Gabigol, e seu conhecido ar um pouco petulante e autoconfiante ao extremo. Parecia até que o tempo não havia passado e a experiência europeia nunca tivesse existido na sua vida.

Fica a pergunta: esse Gabigol é ou não um grande jogador? Chegamos a um ponto tão baixo do nosso futebol que qualquer um, qualquer fracassado na Europa, pode voltar para cá e se transformar numa estrela? A distância que nos separa de times europeus é maior do que pensamos? Ou outras coisas acontecem que não sabemos? É impossível, mesmo para profissionais da imprensa, acompanhar daqui e estar a par do que acontece tão longe.

Ninguém sabe o que se passava nos treinos, nas concentrações, na vida privada do jogador. Aqui, sabemos tudo. Sabemos, inclusive, que os quatro gols feitos em quatro jogos foram acompanhados de três cartões amarelos. Quase um cartão por jogo.

Isso não é, talvez, uma pista? Num futebol altamente hierarquizado, cheio de regras de conduta e procedimento, como é o europeu, não terá se inibido o futebol do nosso Gabigol? Será que seu jogo não definhou ao lhe ser ao mesmo tempo exigido ordem, disciplina e comportamento discreto? Será que as provocações que fazia aqui depois de cada jogo foram aceitas lá fora? Os três cartões amarelos e o consequente impedimento de jogar uma partida prejudicando time não falam por si?

Talvez seja essa a explicação desse duplo futebol. Aqui não há muitas regras, a disciplina é pouca e há reverência tradicional pelo talento puro. Tudo o mais é perdoado diante disso. Se essa explicação é verdadeira, Gabigol não deve voltar mais para a Europa de jeito nenhum. Que fique por aqui. De qualquer forma, os europeus sempre viram o brasileiro, menos os gênios absolutos, com um pé atrás. E isso também por questões um pouco mais delicadas como racismo.

Eles têm razão numa coisa: o brasileiro pena para se adaptar por lá. Alguns dão certo, outros não. Gabigol tem que decidir sobre seu futuro. Como é jovem, tem tempo para se adaptar às condições da Europa, ou, se precisar realmente de um certo caos para jogar com prazer e arte, que fique. De minha parte o caos não me incomoda, a mediocridade sim. Então, que o craque fique. O que não pode é haver dois. Um que conhecemos aqui e outro que se exibe na Europa. Por outro lado, seria divertido pensar em Gabigol como um personagem de ficção. Alguém que tivesse um duplo, um mr. Hyde, parecidíssimo com ele, igual a ele, que capenga lamentavelmente pelos campos europeus dizendo ser Gabigol. Mas não é ele, é o duplo.

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