JF Diorio|Estadão
  JF Diorio|Estadão

Gabriel Lima é aprendiz de craque de campo e fogão

Lateral capricha nos passes no treino da Portuguesa e faz curso de gastronomia

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2016 | 17h00

Um dos segredos do bife Wellington, aquele filé mignon assado e envolvido em massa folhada, é o molho. Um pouquinho de especiarias, canela e cravo, deixa um gostinho meio doce. Esta não é uma reportagem do caderno Paladar, é de Esportes mesmo. A culpa da mistureba é de Gabriel Lima, lateral-direito da base da Portuguesa e aluno do curso de Gastronomia da Universidade Metodista. São dele as dicas para o prato clássico que dá água na boca. Gabriel leva uma vida dupla, metade cozinheiro e metade jogador de futebol. 

Pela manhã, ele é o jogador que procura uma chance no time profissional da Portuguesa, na Série A-2 do Campeonato Paulista. Treina diariamente no Parque Ecológico do Tietê e agora disputa a Copa Ouro, torneio da Federação Paulista. No início do ano, foi um dos destaques da equipe na Copa São Paulo de Futebol Júnior mas o time caiu na primeira fase. 

Um pouco mais para trás, foi campeão paulista sub-13 no mesmo time que tinha Gabriel, o Gabigol, convocado neste sábado para a seleção principal. A comissão técnica afirma que ele é um lateral técnico, que avança muito e cruza bem, mas que precisa se aperfeiçoar na marcação. 

Em 2013, viveu um perrengue danado. Rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito e foi submetido a uma cirurgia. Seis meses depois, descobriu que o mesmo ligamento havia se rompido de novo. Foram duas cirurgias no mesmo joelho. Ficou quase um ano e meio parado, um drama para quem está começando, ele tinha 17 anos. Hoje, já chamou a atenção de Ricardinho, técnico do time profissional. 

À noite, ele é um dos quarenta alunos do curso de Tecnologia em Gastronomia em São Bernardo. Está no terceiro semestre, o que significa que vai pegar o canudo no ano que vem. O curso, com mensalidades em torno de R$ 1100,00, prepara o aluno para a ampla área de Gastronomia e dá cancha para montar o próprio negócio. A grade curricular vai se adaptando àquilo que os alunos veem fora da sala de aula, como os inúmeros programas de tevê de culinária. 

O coordenador Marcelo Bergamo explica que ele não será um chef assim que sair do curso porque este na verdade é o cargo dentro do organograma de um restaurante. “A gastronomia vem crescendo muito porque as pessoas têm mais chances de viajar e compreender a culinária como uma manifestação cultural”, explica Bergamo. 

O Estado acompanhou a aula de culinária francesa nessa semana, dentro do módulo “Cozinhas do Mundo”. Como líder do seu grupo, Gabriel teve de acertar o ponto da vieira, molusco enjoado, parente chique da ostra. As vieiras da aula são importadas do Canadá, a 260 reais o quilo. São seis unidades por grupo e olhe lá. O jogador fixa o olho no fogão para não perder o ponto, pecado mortal em iguaria tão delicada. Com o prato pronto, os jovens do grupo de Gabriel ganharam um sonoro “perfeito” do professor logo na primeira garfada. 

CAMINHO 

Essas trajetórias paralelas vão se encontrar no ano que vem. Gabriel estará no último ano como júnior da Portuguesa e vai concluir o curso de Gastronomia. As duas profissões são como óleo e água, não se misturam. Mas não se anulam. Na verdade, Gabriel faz parte de uma espécie de jogador de futebol difícil de ser encontrada, aquele que pensa em um plano B, que tem para onde correr se as coisas não derem certo. “Acho que ele é melhor jogador que cozinheiro”, opina José de Lima Junior, gerente de Produção e grande inspirador do filho nas duas áreas. 

Gabriel acha que dá para ir tocando as duas vidas por enquanto. Reclama que a perna fica pesada em alguns treinos, afinal ele fica de pé cozinhando por quase três horas todas as noites. Nem sempre consegue dormir o suficiente. Os colegas de curso acham um barato ver um jogador no fogão. Ele não disse isso com essas palavras, mas ficou subentendido que o seu prato preferido é uma partida de futebol. Mais que um bife Wellington.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.