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Galera empolgada

A seleção provoca furor na torcida em Manaus. Que seja assim também com bola a rolar

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2016 | 05h00

Fazia tempo que a seleção não provocava reações exageradas do público. Recentemente, durante a perambulação no torneio olímpico, houve recepção calorosa por onde a rapaziada passou em busca do bendito ouro. Mas em Manaus a torcida capricha nas manifestações de carinho, a ponto de uma turma invadir o treino e driblar segurança só para abraçar os astros. Bonito isso, mesmo que alguns fiquem com medo dos excessos. 

Qual o motivo de tanto amor? O desejo de divertir-se, de ver resgatada uma paixão que anda abalada. Abordei o tema na crônica de ontem, assim como o querido e sensível Ugo Giorgetti. O público tem necessidade de motivos para comemorar, seja por mero entretenimento, seja para esquecer a mediocridade da rotina, seja para espantar desesperança da vida.

O futebol é refúgio fácil e terapia barata para driblar frustrações. Ao menos para quem não tem no mínimo 200 reais para comprar entrada do jogo contra a Colômbia. (A propósito de ingressos, uma ligeira comparação: a Dinamarca jogou ontem contra a Armênia, em casa, pelas Eliminatórias da Copa de 18, e o bilhete mais caro custava o equivalente a 224 reais. O mais barato, 74. Salvo engano, a renda per capita do dinamarquês é cinco vezes a do brasileiro. No quesito exploração do cliente somos Primeiro Mundo.)

O nível de confiança disparou, após os 3 a 0 sobre o Equador, em Quito, no meio da semana. A estreia de Tite no comando da equipe nacional superou qualquer expectativa otimista. Bastou aquele resultado para a seleção animar. Se fosse cotada em Bolsa, teria dado lucro para quem apostou nela, tão desvalorizadas estavam as ações...

A reação começou sob o novo comando. Mas falta muito para consolidar-se. Não se pode lascar o carimbo de “melhor do mundo” por ter batido nos equatorianos. Que, cá entre nós, sem nenhuma falta de respeito, para ficar numa análise delicada, formam um conjunto arrumadinho – e só.

A amarelinha anda tão por baixo que soltamos rojões porque batemos num vizinho desse quilate? Alguém pode argumentar que o Equador está à frente, com 13 pontos contra 12 do Brasil. Daí, a justificativa para a empolgação. Situação momentânea, de 7 rodadas. O importante será o acumulado após as 18 regulamentares. A carência é fogo.

O teste diante dos colombianos pode indicar melhor o rumo a tomar. Eles têm os mesmos 13 pontos dos equatorianos, porém com tradição de qualidade consolidada. Vêm de escola habituada a futebol habilidoso e atrevido, não temem os gigantes da região e frequentam Mundiais com assiduidade. Não é a melhor Colômbia da história; ao contrário, bate saudade da geração dos anos 90, aquela de Asprilla, Higuita, Rincón, Valderrama, Valencia. Mesmo assim, tem jogadores rodados como Cuadrado, James Rodriguez, Bacca, Murillo, que requerem muita atenção.

Tite deu tiro certeiro na composição do time, que teve comportamento bem parecido com o que montou e funcionou no Corinthians. Por isso, a tendência para a repetição da escalação, mesmo com elogios rasgados para Philippe Coutinho. O moço mudou o ritmo, ao entrar no segundo tempo, na vaga de Willian, e subiu no conceito do treinador.

Mudanças ocorrerão até o final da fase de classificação para o torneio da Rússia. A dinâmica do futebol comprova a tese e o imponderável costuma entrar em campo mais do que se supõe. Até junho de 2018, o perfil da equipe será outro, com mais ou menos trocas. “A ver”, como costuma dizer Edgardo Bauza.

A estratégia de Tite, em princípio, é clara, e passa por defesa firme e experiente (por isso, Daniel Alves, Miranda, Marcelo), meio-campo pegador (Casemiro, Paulinho e Renato Augusto que o digam), talentos na criação e no reforço pra fechar espaços (Willian, Neymar), um finalizador (Gabriel Jesus).

O desafio é criar variações em torno do mesmo tema e fazer com que a histeria da plateia se renove com desempenhos sempre convincentes.

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