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Antero Greco
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Gangorra da bola

Uma frase que o leitor nunca antes na história deste país (epa!) leu: o futebol surpreende. Quase sai “o futebol é uma caixinha de surpresas” ou “a little box of surprises”, a versão em inglês que em certa ocasião, na Alemanha, ouvi da boca do Rei Pelé. O lugar-comum se justifica, pois não há esporte que se compare ao joguinho de bola para contrariar a lógica, derrubar palpites, dar rasteiras em certezas ou em superioridade técnica.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2016 | 03h00

No meio da semana, no mesmo dia, dois exemplos novos vieram juntar-se aos milhões já existentes. No lado de cima do Atlântico, o Barcelona incensado mais do que político à espera de fisgar cargo de grosso quilate tropeçou em rivalidade doméstica, perdeu pro Atlético de Madrid e viu voar para o espaço o sonho do hexa europeu. O trio MSN foi engolido pelos bagrinhos operários do adversário, que avançou para a semifinal.

Na parte sul do oceano, o São Paulo desmontou previsão catastrófica sobre o futuro na Libertadores, fez a melhor apresentação do ano, bateu o River e, de quase eliminado, agora depende de empate contra o The Strongest para ir adiante. (A propósito, dei uma canelada anteontem ao escrever que a derrota equivaleria à eliminação.)

Com diferença de poucas horas, um campeão mundial (Barça) saiu de campo destroçado, com amor próprio ferido e a perguntar-se onde falhou. Outro campeão mundial (São Paulo, numa das vezes fez a festa em cima dos catalães) sacudiu a poeira do pessimismo, lavou a alma e se robustece. Se vai carimbar a vaga, é outra história.

Evidente que talento conta, claro que ter craques aos montes encurta caminho para grandes conquistas. Só se for muito sonso alguém vai preferir cabeças de bagre na equipe para a qual torce. Maior qualidade, tanto mais animadoras as perspectivas de sucesso. Não se trata de elogiar mediocridade, que no futebol jorra pra todo lado.

Mas não deixa de ser engraçado e estimulante - desde que não atinja o time da gente - ver que o esforço coletivo às vezes supera talentos imensos como os de Iniesta, Messi, Suárez e Neymar, para ficar num quarteto de ases. O Atlético tem seus valorosos rapazes, não é timeco de esquina, já atazanou a vida do Barça em outros carnavais. Só que na bolsa de apostas aparecia como azarão nesse tira-teima.

Quer dizer, nem todo poderio econômico se impõe diante do imponderável que o futebol embute. Elenco fabuloso pode cair no buraco por uma falha individual, um lance de gênio, um cochilo qualquer. Acontece, e que bom que seja assim. Nem entra em discussão o valor do trabalho de Luis Enrique e sua trupe. Muito menos cabe falar que “jogar bonito é conversa fiada”; argumento de invejosos. Certo que, no fim da temporada, aumenta a pressão sobre o Barcelona, agora com obrigação de levar para sua galeria o troféu de campeão espanhol. Consolo.

O São Paulo, ao contrário, tem de aproveitar a empolgação da quarta-feira e embalar, tanto no Paulista como na Libertadores. Não tem papo de ufanismo; porém, se superar as limitações físicas impostas pela altitude de La Paz e repetir metade do que mostrou no Morumbi, retorna como um dos concorrentes nas oitavas de final. Finalmente, depois de muitos meses, o ponto de interrogação que vem grudado na turma tricolor perdeu o brilho. Ótimo, que suma de vez e que Michel Bastos, Ganso, Calleri e companheiros provem que os 2 a 1 não foram fogo de palha.

SELEÇÃO 

Dunga desdenha da possibilidade de Tite substituí-lo no comando da seleção. Direito dele encontrar explicações que o deixem mais confortável. Como bom funcionário lembrou que o presidente (Del Nero) avisou que quem fala sobre futebol são ele (Del Nero), Gilmar Rinaldi e... o próprio Dunga. Uma dúvida: Dunga argumentou que se tiver de responder a especulações deixa de trabalhar e fará novelas. Ué, não sabia que quem escreve novelas ou nelas atua não esteja a trabalhar. Vivendo e aprendendo.

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