Ricardo Saibun/ Divulgação
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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2015 | 17h00

Pera, uva, maçã ou salada mista? Na brincadeira “Caí no poço” ou “Salada mista” essas frutas significam aperto de mão, abraço, beijo no rosto ou um selinho, opções apresentadas para uma pessoa de olhos vendados. Naquele dia, em Ananindeua, no Pará, Ganso escolheu salada mista e se deu bem: beijou uma amiga que balançava seu coração. Foi para casa correndo e contou para o pai. Pra quê. Ganhou uma surra de sua mãe, dona Creusa. Como pode um menino tão novo beijar as meninas? Aos 12 anos, Ganso não sabia que aquele episódio inocente seria a metáfora de sua vida. A carreira de Ganso é assim, tapas e beijos, glórias e cobranças.

Um dos mais talentosos de sua geração, PH Ganso parece ter se tornado refém das temporadas mágicas que fez pelo Santos em 2010 e 2011, quando se tornou uma espécie de herdeiro natural da camisa dez da seleção. Havia um clamor popular para que fosse à Copa ao lado de Neymar. Mas não foi. Durante a transmissão de um dos jogos do São Paulo, o comentarista Casagrande fez um diagnóstico parecido. “Ele teve um início fantástico, mas poucas vezes conseguiu ter aquelas mesmas atuações.”

Quando não consegue repetir aquele desempenho, quase sempre é questionado. Principalmente pelos torcedores. “Quando ele surgiu menino lá no Santos impressionava pelo toque de bola e visão de jogo. E me lembrava os jogadores de antigamente”, avalia o ex-jogador Neto.

Hoje ele está na fase de apanhar. Foi criticado no desembarque do São Paulo após a derrota para o Atlético Mineiro. Antes disso, havia saído vaiado do jogo contra o Coritiba. Foi expulso na derrota para o Sport e execrado de novo.

Aos amigos, Ganso reconhece que não está em uma boa fase. Mas acha que é mais cobrado do que os demais. Ele se queixa de ser mais exigido do que os outros cascudos do elenco, como Wesley, Kardec, Pato, Luis Fabiano e Rogério Ceni. Acha que as pessoas só se lembram do início difícil, quando trocou o Santos pelo São Paulo, mas essa é outra história. Agora, nas vacas magras, o estafe impede que ele leia jornais e sites. “Quando ele vai bem, eu falo. Quando ele poderia fazer algo diferente, falo também”, disse o irmão Julio Chagas de Lima. “Ele fica calado e só escuta”, conta.

No ano passado o viés era de alta. No segundo semestre ofuscou Kaká e foi o mais importante do time. Foram nove gols e 12 assistências. Foi o atleta de linha que mais atuou na temporada: 62 jogos. Números melhores que os de 2013.

Nesses altos e baixos, vários clubes quiseram pagar para ver. O Flamengo falou em R$ 18 milhões e um aumento salarial de 50%. O Monaco fez uma sondagem na casa de 10,5 milhões de euros. O jogador balançou com a proposta do Orlando City, o mesmo time de Kaká, Mesmo tentado, não fez nenhum movimento para sair.

Ele ainda se preocupa com a maneira como saiu do Santos. Não foi fácil o que viveu no segundo semestre de 2012. Foi chamado de mercenário pela torcida, que atirou moedas no gramado da Vila Belmiro porque havia pedido aumento de salário para renovar contrato. Os muros do CT Rei Pelé amanheceram pichados com a frase “Ganso Fora” seguida de um cifrão.

Após uma negociação de 32 dias, ele trocou o Santos pelo São Paulo. O Grêmio, na época dirigido por Vanderlei Luxemburgo, estava na parada. O Corinthians ofereceu salário de R$ 600 mil em um contato informal de Andrés Sanchez que não virou proposta.

Neto lembra que o camisa 10 já foi submetido a cirurgias nos dois joelhos. “Acho que os problemas físicos sérios o estão limitando demais. Não consegue render a mesma bola no São Paulo.”

Thiago Lobo, fisioterapeuta que cuidou dele na primeira intervenção, não acredita em problemas físicos. Hoje, o meia faz um treinamento diferenciado de equilíbrio muscular quase diariamente. É um dos que mais treinam. Mesmo com altos e baixos, os companheiros do início de carreira, lá no Paysandu, afirmam que ele foi uma das grandes revelações da história do clube, mas sempre foi irregular. “Ele é de lua. Não é jogador de linha reta", diz um dos antigos amigos. 

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Paulo Henrique foi 'batizado' como Ganso por roupeiro do Santos

Otávio Rodrigues chamou o meia de Ganso pela 1ª vez

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2015 | 17h00

Otávio Rodrigues Oliveira foi roupeiro do Santos ao longo de 43 anos. Agora está afastado por causa de um problema na coluna, mas ainda faz fisioterapia no clube. Além de participar das principais conquistas recentes do Santos com um trabalho de bastidores – o roupeiro é aquele responsável pelas chuteiras e uniformes, por exemplo –, Otávio, ou seu Tatá, sempre se orgulhou de ter uma relação próxima com os jogadores. Ser amigo deles de verdade.“O trabalho do roupeiro não aparece muito, mas ele é muito importante. Sem ele o jogador não tem o material de trabalho”, conta.

O grande troféu de sua carreira é uma camisa autografada que ele ganhou de Paulo Henrique Ganso e se transformou em um quadro na sala de sua casa. Depois de tantos anos, a camisa está amarelada e dificulta a leitura da assinatura do craque. Mas seu Tatá não se importa. Seu próprio nome já está na história do Santos. Foi ele quem deu o apelido para o meia. “Fui eu que o chamei de Ganso pela primeira vez. Ele gostou e transformou uma brincadeira na sua marca”, diz o roupeiro de 69 anos. Assim que seu Tata chamou Paulo Henrique de Ganso o jogador escreveu o novo nome nas próprias caneleiras. Foi seu segundo batismo.

Ganso é uma gíria para o jogador fraco, ruim tecnicamente. Seu Tatá conta que dizia isso para todos os novos jogadores da base em tom de brincadeira, não queria diminuir os meninos. “Ele pegou uma coisa que era ruim e transformou em uma coisa boa.” 

Desde que Ganso saiu do clube os dois nunca mais se encontraram. Um dos projetos do roupeiro é visitar o craque no CT do São Paulo, na Barra Funda. “Ainda hoje ele é muito querido pelos funcionários do clube. Ele era legal com a gente", afirmou. 

Seu Tatá, no entanto, não consegue explicar as razões dos altos e baixos do jogador que ele ajudou a batizar. Depois de temporadas mágicas pelo Santos, ainda sofre críticas da torcida do São Paulo e já pensou em deixar o clube. “Eu acho que ele é um craque, mas não sei o que aconteceu. Acho que se abateu depois que saiu do Santos.

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