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Matheus Pereira, jogador do Sporting, de Portugal FABIO MOTTA/ESTADÃO

Conheça a história do garoto de 19 anos que já vale R$ 210 milhões

Matheus Pereira joga no Sporting, de Portugal

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2015 | 17h00

Seja andando pelas ruas de Belo Horizonte, sua cidade natal, ou posando para fotos no Rio de Janeiro, onde passa férias com a família, Matheus Pereira é um desconhecido do torcedor brasileiro. Em Portugal, porém, a história é bem diferente. O garoto de apenas 19 anos é tratado como um fenômeno.

Desde abril, quando o Sporting anunciou que a cláusula de rescisão do novo contrato do atacante passou a ser de 60 milhões de euros (aproximadamente R$ 210 milhões), ele ganhou as capas dos principais jornais esportivos do país. Matheus é considerado um “talento em estado puro”, como escreveu o Record. Entre os torcedores, há quem o aponte como a maior revelação das categorias de base do Sporting desde o surgimento de Cristiano Ronaldo.

A partir de julho, quando voltar das férias para Portugal, Matheus passará a fazer parte do time principal para a temporada 2015/16 e, depois de brilhar no time B, há enorme expectativa em torno do brasileiro. “Já fui relacionado uma vez para jogar na equipe de cima, mas não cheguei a atuar. Agora, a ansiedade é muito grande de poder chegar lá e, quem sabe, ganhar o meu espaço”, diz Matheus, humilde e com sotaque português bastante carregado.

Ele foi levado pelos pais para Portugal quando tinha apenas 12 anos e hoje fala do Brasil com certo distanciamento. Não está descartada, inclusive, a possibilidade de o garoto abrir mão da chance de defender a seleção brasileira para atuar por Portugal, como já fizeram Deco, Liedson, Pepe e outros jogadores. “Só penso no Brasil para passar férias. Hoje, todo o meu pensamento está na Europa. Já posso dar entrada no passaporte português, mas ainda estou esperando para ver o que vai acontecer daqui pra frente”, conta.

O garoto diz ter encontrado em Lisboa a oportunidade que não teve em Belo Horizonte. Por isso, é tão grato aos portugueses. “Tenho mais quatro irmãos e meus pais foram em busca de melhores condições para a gente em Portugal. Eu tinha dez anos e tive de morar com meus tios e avós em Belo Horizonte. Jogava pelada na rua e consegui passar em um teste no Cruzeiro. Fiquei um mês, mas desisti porque não tinha condições de pagar a passagem para ir treinar. Um ano e meio e depois meu pai conseguiu me levar para Portugal. O Cruzeiro até chegou a me ligou dizendo que queria ficar comigo. Era tarde demais.”

Em Portugal, Matheus jogou pelo infantil do modesto Trafaria antes de chegar ao Sporting. E foi no CT de Alcochete, nos arredores de Lisboa, que ele deixou definitivamente para trás o passado pobre em Belo Horizonte para sonhar alto. O garoto botou na cabeça que iria seguir os passos de dois jogadores também lapidados pelas categorias de base do clube, que se tornaram os melhores do mundo: Luís Figo (2001) e Cristiano Ronaldo (2008, 2013 e 2014).

“Minha maior inspiração é o Cristiano Ronaldo. Quero fazer tudo o que ele fez e atingir o mesmo patamar dele. O Figo também é uma referência. Quando fui renovar o meu contrato, me contaram a história dele e disseram que eu deveria me espelhar no Figo para, quem sabe, também ser o melhor do mundo.”

Hoje, no entanto, Matheus se vê mais parecido com outro jogador. “Meu estilo é basicamente igual ao do Neymar. Gosto de ir para cima da defesa e fazer gols.”

Canhoto, o garoto gosta de jogar pelas beiradas do campo. “Quando jogo pela esquerda, driblo para fora. Quando estou pela direita, corto para a dentro”, explica.

A jogada pode parecer manjada, fácil de ser marcada. Mas não é. A facilidade com que Matheus consegue manter a bola junto aos pés diante dos marcadores chamou a atenção de vários clubes da Europa. Porto e Monaco chegaram a fazer propostas milionárias para tirá-lo do Sporting.

Por isso, o clube resolveu blindá-lo com uma multa rescisória tão alta. Até que o novo contrato fosse assinado, a diretoria “guardou” o atacante durante praticamente uma temporada inteira. Ele treinava com a equipe, mas não podia participar dos jogos do Sub-19 e do time B. Depois, bastaram uma dúzia de partidas, entre março e maio, para que as atenções se voltassem novamente para Matheus. A calmaria só veio com as férias à beira-mar no Rio.

 

ANÁLISE

Mozer, ex-zagueiro da seleção brasileira, é atualmente comentarista da 'A Bola TV', em Portugal

Matheus Pereira é visto hoje em Portugal como um atleta com grandes capacidades técnicas, mas que ainda está muito verde para chegar e ser protagonista no time principal do Sporting logo na sua primeira temporada. Pela sua idade, tem possibilidade de crescer muito porque hoje não está definitivamente pronto. Por isso, acho exagerado um jogador que nunca atuou no time principal ter uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros.

Conversei com um ex-jogador que trabalhava no departamento de formação do Sporting e a informação que ele me passou é que o Matheus Pereira ainda precisa passar por uma fase de desenvolvimento e maturação, principalmente em relação ao seu comportamento com e sem a bola. Apesar de ser tecnicamente muito bom, é necessário evoluir neste quesito, exigido ao extremo dos jogadores na Europa.

Quando se apresentar ao time principal do Sporting, no próximo mês, o Matheus Pereira vai trabalhar com o técnico Jorge Jesus, que passou as últimas seis temporadas no Benfica e conquistou títulos importantes lá. Essa mudança no comando da equipe, inclusive, pode dificultar um pouco as coisas para o Matheus. No Benfica, o Jorge Jesus teve problemas para fazer a transição dos jogadores jovens ao time principal. A crítica que muitas pessoas fizeram ao seu trabalho é que os garotos da base sempre enfrentaram dificuldade para conseguir subir para os profissionais.

Até por conta disso, o Benfica teve de vender vários atletas da base que não tiveram espaço no time principal. Não sei se isso vai acontecer com o Matheus Pereira também, mas as características do Jorge Jesus apontam para esse lado.

Ele é um treinador que prefere trabalhar e montar equipes com jogadores mais experientes. Durante seis temporadas essa foi a tônica do seu trabalho no Benfica e, possivelmente, vai ser a mesma no Sporting, o que acaba criando uma barreira maior para um atleta jovem, como o Matheus Pereira, que está apenas começando a sua trajetória no futebol.

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CBF monitora legião de jovens talentos no exterior

Objetivo é que atletas não defendam outras seleções

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2015 | 17h01

Há cada vez mais casos de garotos como Matheus Pereira, que fazem sucesso no exterior sem nem passar por clubes do Brasil. Por isso, desde 2013, a CBF resolveu ir atrás de jovens brasileiros espalhados pelo mundo para evitar que eles joguem por outras seleções.

A investida obteve alguns resultados, e nomes como Andreas Pereira, meia do Manchester United que nasceu na Bélgica, mas é filho de brasileiro, e Jean Carlos, atacante do Real Madrid, disputaram o último Mundial Sub-20 pelo Brasil.

Mas há também casos como o do meia Rony Lopes, que, mesmo após consulta da CBF, defendeu Portugal na competição. Nascido em Belém, ele se mudou para a Europa com quatro anos e hoje é uma das promessas do Manchester City.

Pelo novo estatuto da Fifa, de 2009, um jogador com dupla cidadania só tem de fazer a escolha definitiva de qual país vai defender na hora de disputar uma partida de competição oficial pela seleção adulta. Assim, será possível no futuro ver Rony Lopes com a amarelinha e Andreas Pereira e Jean Carlos com os uniformes de Bélgica e Espanha, respectivamente.

Foi o que aconteceu com o volante Thiago Motta, que teve aval da Fifa para jogar pela Itália mesmo depois de ter defendido a seleção brasileira na Copa Ouro com a equipe sub-23.

O caso de Mazinho, campeão do mundo em 1994, é emblemático. O seu filho mais velho, Thiago Alcântara, optou pela Espanha. Já o mais novo, Rafinha, preferiu jogar pelo Brasil, mesmo depois de passar pelas categorias de base da Espanha.

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