Garotos participam de treinamento de gandulas para a Copa

Evento em São Paulo prepara 51 adolescentes para atuar nos jogos do Mundial na Arena Corinthians

Denise Bonfim, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2014 | 13h38

SÃO PAULO - Repor a bola, cuidar para que duas bolas não sejam jogadas em campo, auxiliar os jogadores na reposição. O trabalho de um gandula parece simples, mas o primeiro treino em campo dos jovens que exercerão a função na Copa do Mundo 2014 mostrou que não vai ser fácil fazer parte desse seleto grupo que estará presente em todas as 64 partidas da competição.

Entre meninos e meninas, 51 atletas foram reunidos para o treinamento no Centro de Práticas Esportivas da USP, em São Paulo na manhã deste domingo. As equipes Grêmio Botafogo (masculino), de Gaianases, e Seleção Valinhos (feminino) ficaram com o primeiro lugar na Copa Coca-Cola em 2013, e como prêmio, receberam a chance de participar do grande evento como gandulas. No início de 2014, a Fifa e a empresa de refrigerantes anunciaram que o Centro Olímpico e o Benfica, segundos colocados da disputa, também fariam parte do projeto.

Os 28 meninos e 23 meninas receberam as instruções práticas do professor Vitor Hugo Teixeira, árbitro da Federação Nacional de Futsal. Rígido, ele comandou também a parte teórica do treinamento no sábado. "O trabalho técnico é de reconhecimento de campo, reposição de bola e agilidade. Na parte teórica, o que mais cobramos é a imparcialidade e o compromisso. Isso é fundamental."

De fato, a imparcialidade é o fator mais cobrado pelor organizadores. René Barreto Neto, árbitro da Federação Paulista de Futebol, que foi eleito pela Fifa para acompanhar a seletiva, endossa o discurso do professor Vitor Hugo. "Não pode ter deslumbre. Trabalhamos a imparcialidade e postura. Temos de seguir um protocolo imposto pela Fifa para que eles não se distraiam, comprometendo o evento". O contato com os ídolos também é trabalhado, para que não interfira no desempenho dos jovens. "Alguns jogam em grandes clubes, estão acostumados com atletas famosos. Eles têm de jogar a bola para o Messi como se ele fosse qualquer jogador", completa o professor.

No treinamento teórico, os garotos aprendem o que podem e não podem fazer durante os jogos na Arena Corinthians. Alifer Lourenço Goes, do Benfica, tem apenas 14 anos, e sente os efeitos da ansiedade. "A gente sofre pressão da gente mesmo, quer fazer certo, mas no fim acaba ficando tudo bem. Na hora da prova, tinha gente que tremia! Nossa função é muito importante, vamos estar no Mundial", conta, empolgado.

GAROTAS

As meninas de Valinhos chegaram 'leves' a São Paulo. Sob a supervisão da treinadora Ana Lúcia Gonçalves, enfrentaram a desconfiança de alguns na cidade, venceram a competição no ano passado e se credenciaram para a seleção de gandulas. "Nossos pais ficaram suspresos, mas felizes. É legal mostrar que as meninas também estarão presentes", conta Bruna Barbosa dos Santos, de apenas 13 anos. Ana Lúcia ressalta a dificuldade de trabalhar com a faixa etária, mas se diz realizada. "Somos muito disciplinadoras, e estar aqui foi uma grata surpresa", diz. A equipe de Valinhos mostra-se bastante comprometida com o trabalho: uma das jogadoras do elenco, a zagueira Aline Cristina da Silva, de 14 anos, fez um acompanhamento médico e fisiológico para perder 25kg antes da competição e ficar bem preparada para exercer as atividades físicas.

Após o encerramento dos trabalhos deste fim de semana, os professores se reunirão para preparar um ranking dos garotos. Com os resultados em mãos, divulgarão a lista dos aprovados, só não podem confirmar agora que todos os 51 meninos e meninas estarão na Copa. Apenas faltas graves podem tirar os candidatos a gandulas do evento da Fifa.

NA JUSTIÇA

Após o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) autorizar a participação das crianças na Copa, o Ministério Público tenta reverter a decisão com base no artigo da Constituição Federal, que proíbe o exercício de qualquer função por crianças menores de 14 anos. Por meio de sua assessoria, a Coca-Cola Brasil, organizadora do projeto, defendeu a decisão do CNJ.

A empresa entende que os garotos ganharam a participação como um prêmio e que esse trabalho não pode ser caracterizado sequer como voluntário, porque não tem frequência. O que a Coca-Cola tenta fazer é unir o vigor físico dos adolescentes como atletas com a vontade de participar de um grande evento como a Copa do Mundo. Para comparecer aos jogos do Mundial, os jovens, que têm entre 13 e 16 anos, precisam de diversas autorizações assinadas pelos pais.

O projeto é uma parceria da Coca-Cola com a Fifa. Os gandulas escolhidos em todas as cidades-sede do Mundial não receberão pagamento pelo trabalho.

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