Gavião Kyikatejê sai da aldeia para ganhar os campos de futebol do Pará

Em Belém, Gavião Kyikatejê estreia na Primeira Divisão do estado contra o tradicional Paysandu

Flavia Alemi e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

12 de janeiro de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - O futebol brasileiro vai ganhar espaço nos livros de história hoje com a presença do primeiro time indígena do País no Estádio da Curuzu, em Belém, contra o Paysandu, às 17h (horário de Brasília). Com toras, tinta e dança, o Gavião Kyikatejê, da aldeia de mesmo nome, no Pará, ganhou o direito de disputar a segunda fase do Campeonato Paraense ao superar equipes mais tradicionais, como Águia de Marabá e Tuna Luso. Antes da partida, será cantado o hino brasileiro na língua Jê e ainda haverá demonstração de corrida de toras para o público presente.

Segundo Zeca Gavião, presidente do clube e cacique da aldeia, "o futebol é um instrumento onde se pode mostrar sua cultura". Ele diz que não sabe ainda se é mais fácil ser dirigente do clube ou chefe da aldeia, que fica em Bom Jesus do Tocantins, a 450 km – pelo ar – da capital Belém. "Até agora, não consegui decifrar ainda. De qualquer forma, estou muito feliz porque chegar à elite do campeonato é algo grandioso."

Inicialmente formada só por jogadores indígenas, a equipe cresceu, está ganhando fama e a comissão técnica teve de abrir vaga para atletas de outras localidades. Hoje, somente seis jogadores do elenco têm origem indígena, mas o técnico do time, Vitor Jaime, garante que a mescla não prejudicou a cultura da tribo. "Apenas dois ou três jogadores moram fora da aldeia, em Marabá. Mas tem alguns que até casaram com indígena, então nós contamos como se fossem da tribo", explica o treinador, que, na sexta-feira, teve de passar quase dez horas dentro de um ônibus junto com o time para chegar a Belém – foram 579 quilômetros de estrada, nem sempre em boas condições.

Curiosamente, em suas atividades físicas a equipe faz práticas indígenas para se aprimorar, como nadar no igarapé, correr com tora e usar arco e flecha. "A corrida com tora serve para trabalhar a explosão e o arco e flecha ajuda na agilidade", afirma o preparador físico João Alves Primo, o Professor Primo. A corrida com tora consiste em um revezamento entre os jogadores, que carregam troncos de buriti nas costas e passam de um para o outro. Já o treino com arco e flecha funciona da seguinte forma: um indígena, munido de uma flecha com espuma na ponta, dispara contra os jogadores, que precisam desviar do objeto.

Os guerreiros Gavião Kyikatejê, palavra que significa "povo do rio acima" na língua Jê, têm o costume de pintar o corpo em rituais e festas da tribo e a prática se estendeu para o futebol. Antes dos jogos, os atletas fazem pinturas no rosto e usam cores que têm significados diversos. As mais usadas são o preto, que simboliza guerra, e o vermelho, cor da força.

Ansiosa pela estreia na Primeira Divisão, o elenco garante que respeita, mas não teme o Paysandu. "A gente já tem uma equipe mais estruturada, pois viemos de uma competição. Vamos tentar dificultar ao máximo para eles", diz Vitor Jaime. O treinador, que é amapaense, conduziu o Gavião Kyikatejê à elite do futebol do Pará em menos de um ano de trabalho. Ontem, ele completou o seu primeiro aniversário no comando do time e revela ter ambições ainda maiores.

NÍVEL NACIONAL

Com salários em dia e apoio da Federação Paraense de Futebol, não falta vontade aos jogadores do Gavião Kyikatejê de disputar uma competição de nível nacional. E os caminhos para que o sonho seja alcançado são tortuosos. Para chegar à Copa do Brasil, por exemplo, a equipe terá de ficar pelo menos em segundo lugar no Parazão. Isso significa deixar para trás ao menos um dos grandes do estado, o Remo e o rival de hoje, o Paysandu.

A outra maneira de disputar uma competição nacional é entrando na Série D. Caso o estado do Pará fique entre os nove primeiros colocados do Ranking Nacional das Federações, terá direito a dois representantes na competição. Do contrário, apenas um time terá tal privilégio. Na opinião do técnico, os dois caminhos são difíceis, mas não impossíveis. "Com humildade, trabalho e pé no chão, vamos tentar isso. Temos de provar que nós temos condições de conquistar essa tão sonhada vaga numa competição de nível nacional."

A maior dificuldade, que no fundo assola a maioria dos clubes do País, é a falta de recursos para voos mais altos. O time, por exemplo, não possui um fornecedor de material esportivo e sofre com a falta de patrocínios. Para projetos mais ambiciosos, a ausência de dinheiro atrapalha ainda mais, segundo explica o presidente Zeca Gavião. "Com mais apoio, poderíamos ter categorias de base e buscar atletas em outras aldeias. Sabemos que existe o interesse por parte dos índios."

O destaque do time é o atacante Aru, de 24 anos, que nasceu na aldeia. "Falo sempre para ele que tem de mostrar seu bom futebol em todas as partidas, pois isso é uma boa oportunidade", lembra Zeca Gavião. Para Vitor Jaime, o jogador serve de espelho para os moradores de outras aldeias. "Ele é uma referência, principalmente para os indígenas, e além de tudo faz gol."

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