Paulo Liebert/Estadão
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Gestos

Em nome da 'segurança', diversos dos atos simbólicos vão sumir com a volta rápida do futebol

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

Os esportes, em geral, têm seu universo de gestos próprios. No futebol, os gestos fundamentais são os gols, as jogadas impossíveis, as defesas miraculosas, o passe preciso, a garra, a inteligência em campo, etc. Esses gestos fundamentais, porém, são recobertos por outros que a gente só nota se prestar muita atenção. A soma deles é importantíssima. A ausência deles mais ainda.

Recentemente foi divulgada uma determinação da Fifa que pode significar muita coisa. Estão os jogadores proibidos de beijar a bola. Parece ridículo e, num certo sentido, é mesmo. Mas a Fifa, como todos que têm seus negócios paralisados pelo vírus, quer voltar a qualquer custo. No sentido de disfarçar um pouco sua ânsia de retomar as atividades, a Fifa propõe regras e condutas que supostamente protegem o jogador. Daí essas medidas como, por exemplo, não beijar a bola.

Aliás, a matéria que li a respeito trazia uma foto de Romário beijando exatamente a bola. Esse gesto não é só de Romário, é um gesto dos mais comuns do futebol, claramente demonstrando a proximidade, intimidade e carinho entre o jogador e seu instrumento. É como se, no fim de um concerto, o violinista beijasse o instrumento. Talvez até algum violinista o tenha feito, não sei. O fato é que no futebol é normal.

Também é pouco importante. O jogo pode perfeitamente se dar se os jogadores deixarem de beijar a bola. Acontece que esse beijo foi colhido ao acaso para demonstrar o que está por vir. A própria Fifa já tem medidas contra outras demonstrações que podem facilitar bastante a transmissão do vírus. O futebol está cheio delas.

O futebol é um esporte ao mesmo tempo de esperteza e de táticas destinadas a enganar o adversário. Parte importante do jogo é falada nos ouvidos, é segredada a alguém chamado à margem do campo para receber instrução no ouvido. Há muito segredo no futebol, muita malandragem, muitos toques, sutis manobras com as mãos, esbarrões propositais e trombadas.

Tudo isso, se o futebol voltar rapidamente, vai desaparecer em nome de uma tentativa impossível de segurança. Os próprios jogadores, os mais lúcidos, vão se insurgir contra isso. A comemoração de um gol por exemplo. O que se deve fazer? A reclamação com o juiz no ardor de uma disputa mais áspera vai se dar a dois metros de distância? O “chega pra lá” dentro da área nos escanteios, como será daqui para a frente?

Essas coisas, que estão na verdade à margem do jogo, eram só do conhecimento ou de quem ia a campo ou de quem via a partida pela televisão. Quem acompanhava pelo rádio não sabia nada disso, seguia um outro jogo. Como certamente é muito pouca a possibilidade de público nos estádios, e um jogo opaco cheio de regras que o truncam e o empobrecem talvez não interesse à televisão, esse futebol que retorna pode ser a redenção do rádio. Muita gente vai preferir a descrição do que estaria acontecendo em campo, no futebol recriado pelo locutor.

Há lendas e lendas a respeito de narrações de rádio quase que inteiramente imaginárias, produto de narradores excepcionais, reis do improviso, habilíssimos, cuja missão era dar interesse maior a um jogo que, às vezes, não tinha interesse algum.

Pode ser que tenhamos que nos valer de novo dessa gente, de algum novo Osmar Santos, espalhado pelo Brasil à espera de redimir uma partida. Apesar de gostar desse expediente, prefiro ainda esperar pacientemente que as coisas retomem seu curso natural. É um erro, na minha opinião, achar que essa pandemia vai mudar tudo. Vai apenas testar a capacidade que segmentos dessa sociedade tem de perder uma parte de seu dinheiro acumulado durante tantos anos. Se tiverem essa capacidade, num determinado momento, ouvindo médicos e cientistas, é claro, as coisas voltarão ao normal como sempre. Sem precisar que a Fifa estabeleça regras de proteção para ninguém. 

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