Glamour coloca em xeque o romantismo dos jogos amadores

Grama artificial mostra elitização da várzea

Gonçalo Junior e Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h00

No campo do Ajax da Vila Rica, clube da zona leste conhecido como o “Lobão da Vila”, dá para comprar vários objetos com o escudo do time e pagar tudo com cartão, em uma barraquinha ao lado do gramado. O time do Pioneer (de acordo com os jogadores da equipe, a pronúncia é pionêr), localizado na divisa de Diadema, gastou R$ 200 mil para montar sua equipe. Em vários campos da várzea paulistana, como o Flor de São João Clímaco, o chão batido, quase sem grama e cheio de ondulações, foi substituído por um vistoso e verdinho gramado sintético. Alguns lugares têm também locução e ações de comunicação institucional. 

Esse retrato dos campos de várzea surge a partir da pesquisa conduzida por pesquisadores do Museu do Futebol. Desde 2011, foram feitas mais de 50 visitas a bairros e campeonatos de São Paulo em busca da memória futebolística da cidade. “Ainda existe aquele futebol varzeano romântico em alguns lugares, como Parelheiros, por exemplo. Mas inúmeros campos passam por um processo de elitização e glamourização”, opina a pesquisadora do Museu, Aira Bonfim.

De acordo com a pesquisa, essas características mostram que o futebol amador – é dessa forma que os praticantes se referem a essa modalidade – está cada vez mais próximo do futebol profissional e mais distante de suas origens. Para a disputa dos grandes torneios, por exemplo, vários times contratam jogadores de outros bairros e perdem os vínculos familiares e comunitários, a principal característica dos times da várzea. É mais ou menos o que acontece com os jogadores da seleção brasileira que vão cedo para a Europa e perdem a identificação com o torcedor brasileiro. Existe também uma grande pressão por resultados e conquistas.

“Na maioria dos times, os torcedores conhecem os técnicos. Existe uma identidade. Mas esse vínculo está se perdendo com os jogadores”, diz a pesquisadora.

O estudo do Museu do Futebol também questiona a importância da várzea como celeiro de craques. Segundo os pesquisadores, esse papel vem sendo ocupado cada vez mais pelas escolinhas de futebol e pelas categorias de base dos clubes. Raramente um jogador é pinçado dos terrões. Essa conclusão dá força às palavras do atacante Lucas Esequiel, que joga na várzea, no Cruz da Esperança, e ainda sonha com o futebol profissional. “É difícil encontrar olheiro dos clubes nos jogos amadores”, diz o jogador.

 

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