Goleiro Aranha sofre insultos racistas dos próprios santistas

Depois de ter acionado a Justiça do Trabalho para cobrar salários atrasados do Santos, jogador é xingado nas redes sociais

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2015 | 14h18

Depois de ser chamado de "macaco" pela torcida do Grêmio, em agosto do ano passado, o goleiro Aranha vem ouvindo novamente injúrias racistas. Com um agravante: desta vez, os xingamentos vêm dos torcedores do próprio Santos, o clube que ele defende. Desde a semana passada, os insultos estão sendo publicados em uma comunidade de torcedores santistas, um grupo fechado, no Facebook. Os comentários fazem parte de conversas de torcedores e não enviadas para o jogador. Alguns torcedores xingam o jogador; outros, condenam as injúrias raciais. A identidade dos torcedores foi preservada por questões legais. 

"Vai tomar no c.., Aranha, seu macaco, do c...Sempre tive vontade de xingar esse ..., agora tive a chance", diz uma mensagem. "Aranha cagou na saída e já era, preto safado, e sem mimimi!, diz outra ofensa. Outras são ainda mais agressivas: "Chamar o aranha de macaco é ofender o pobre macaco! Tem preto que é pior do que macaco, inclusive esse aranha, goleiro lixo, e sem caráter! "Racismo  é imperdoável. Fazem várias montagens do Aranha no corpo do Péricles do Exalta (por conta da forma física, já que o goleiro anda fora de forma...até aí, tudo bem). Mas chamar de macaco, e fazer montagens de cunho racista? Aí, não dá. Um erro não justifica o outro", defende um torcedor, contrário ao racismo. 

As ofensas foram motivadas pelo fato de o goleiro ter acionado a Justiça do Trabalho para cobrar três meses de salários atrasados, direitos de imagem e recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O jogador tenta rescindir seu contrato para se transferir, provavelmente, para o Palmeiras. 

Uma audiência será realizada na tarde desta quarta-feira para definir a situação do jogador. Se conseguir a rescisão, poderá atuar pelo clube. Caso contrário, continuará como jogador do Santos, mas deverá treinar separadamente até ser negociado. 

Embora os casos de discriminação no futebol brasileiro tenham se tornado comuns no ano passado, as ofensas dos santistas se diferenciam por atacar um jogador do próprio clube. Em 2014, Tinga, Arouca, o árbitro Márcio Chagas, o lateral Assis, do Uberlândia, o atacante Francis, do Boa Esporte, foram xingados sempre por torcedores - ou jogadores - adversários. 

Aranha se vê envolvido em uma situação de discriminação menos de cinco meses depois de ser protagonista de um episódio de repercussão nacional. No dia 28 de agosto, no jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil, em Porto Alegre. Torcedores xingaram o goleiro de “macaco”. O Grêmio acabou eliminado da competição pelo STJD. 

Os torcedores Patricia Moreira, Eder Braga, Fernando Ascal e Ricardo Rychter pegariam de um a três anos de prisão. Pegariam. No lugar da pena, aceitaram a proposta para se apresentarem a uma delegacia a ser determinada uma hora antes de cada jogo oficial do Grêmio em Porto Alegre durante 10 meses. Em entrevista exclusiva ao Estado, no mês de dezembro, o goleiro afirmou que não temia ficar marcado pelo episódio. "O que aconteceu não foi importante só para os negros, mas para todos os cidadãos", declarou. 

 

 

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