Stephane Mahe/ Reuters
Stephane Mahe/ Reuters

Goleiros negros, clubes grandes e o jogo desigual na Europa

Jogo entre Chelsea e Rennes, pela Liga dos Campeões, é exceção ao contar com dois goleiros negros em campo

Rory Smith, The New York Times

25 de novembro de 2020 | 12h00

Na superfície, a vitória do Chelsea contra o Rennes pela Liga dos Campeões algumas semanas atrás foi só mais um desses exercícios dispensáveis que preenchem a fase de grupos da disputa. O Chelsea, franco favorito — equipe com mais poder de fogo financeiro, um elenco mais forte e ambições maiores —, ganhou com facilidade. Além do placar, não havia muito que chamasse atenção na partida. Mas o jogo, assim como a partida de volta, disputada terça feira na França, foi uma raridade não apenas na Liga dos Campeões, mas no futebol europeu de elite como um todo.

É notável e preocupante perceber que esses provavelmente serão os únicos jogos dessa temporada da Liga dos Campeões em que as duas equipes têm goleiros negros: Édouard Mendy, 28 anos, comprado pelo Chelsea em setembro, e Alfred Gomis, o homem que o substituiu no Rennes.

Poucos esportes são realmente tão igualitários quanto acreditam ser. Os quarterbacks negros já foram tão raros na NFL quanto eram os participantes negros nos campeonatos de golfe e tênis. Como tantos outros esportes, o futebol tem um problema de falta de representatividade dos negros nos papéis de liderança: há poucos técnicos negros, e ainda menos negros entre os cartolas.

E não há dúvida que sobram evidências circunstanciais do fato de o esporte — na Europa, se não nos Estados Unidos e na África — guardar um ceticismo profundo em relação aos goleiros negros, que só cresceu graças à falta de análise, falta de oportunidade e até falta de reconhecimento.

André Onana, goleiro do Ajax, conta a história de quando um time italiano o informou que seus torcedores simplesmente não aceitariam a contratação de um goleiro negro. Há também a história de um antigo técnico da Premier League inglesa que, diante da escolha entre dois possíveis recrutas, descartou imediatamente aquele que não era branco. Disse que não precisava vê-lo jogar.

Durante a maior parte da sua carreira, o ex-goleiro Shaka Hislop tinha consciência do estereótipo invisível que o perseguia, e ainda lembra das ocasiões em que isso foi manifestado verbalmente. Como o dia em que ele e os colegas de equipe de Trinidad e Tobago aguardavam em um aeroporto de Nova York e um funcionário da imigração explicou a ele longamente por que os jogadores negros não serviam como goleiros — sem perceber com quem estava falando.

Mas os números revelam o quanto o problema é profundo. Nos cinco principais campeonatos europeus, a francesa Ligue 1, com 20 equipes, é uma exceção à regra: teve nove goleiros negros na temporada passada, e oito já jogaram esse ano. Em outros lugares, os números são chocantes.

Antes da pausa internacional da semana passada, 77 goleiros tinham jogado pelo menos um minuto pelos times da Bundesliga, Serie A e La Liga. Nenhum deles era negro. No ano passado, a participação de goleiros negros foi igualmente rara: apenas dois entre os 92 atletas que jogaram no gol na Itália e na Espanha, e apenas dois dos 36 goleiros que jogaram na Alemanha.

Os números na Inglaterra também são ruins. Apenas três negros jogaram no gol das partidas da Premier League este ano: Alphonse Areola (Fulham), Robert Sánchez (Brighton) e Mendy (Chelsea). Cinco outros fazem parte de times da Premier League, incluindo o goleiro da seleção americana, Zack Steffen (Manchester City), mas ainda não jogaram.

O contraste entre o número ínfimo de goleiros negros e o número de jogadores negros em outras posições nos times de elite da Europa é tamanho que é difícil pensar em coincidência ou em um momento passageiro. Os negros são cronicamente subrepresentados no futebol europeu. Os goleiros africanos são ainda mais raros.

Todos os anos, por exemplo, os países tradicionalmente fortes da África Ocidental têm dezenas de jogadores nos elencos das ligas europeias de alto nível. Mas os goleiros titulares das seleções da Nigéria, Costa do Marfim e Gana ainda jogam na África. E se nenhum país africano produziu mais goleiros de elite do que os Camarões, de onde Jacques Songo’o e Thomas N’Kono partiram para jogar na Espanha e Joseph-Antoine Bell saiu rumo a uma longa carreira na França, o atual goleiro titular da seleção camaronesa, Fabrice Ondoa, ainda não trocou a primeira divisão do futebol belga por uma das ligas mais famosas da Europa.

O primo de Ondoa — e seu colega de seleção —, Onana, disputa a Champions League defendendo o Ajax. Mas somente o Senegal, com dois nomes — Mendy e Gomis — na disputa da maior competição de clubes do mundo, pode afirmar que tem dois goleiros no mais alto nível do futebol profissional.

Mendy não sabe explicar por que isso ocorre. Ao ser apresentado como jogador do Chelsea, ele disse que isso estaria ligado aos “perfis" mal concebidos dos jogadores procurados pelos técnicos. Outros têm explicações que vão além. “Antes, havia um estigma em torno da ideia de um quarterback na NFL", disse Tim Howard, ex-goleiro do Everton e da seleção americana. “Pensava-se que eles seriam menos cerebrais.”

Howard enxerga um eco disso na falta de goleiros negros. Faz tempo que o futebol se considera uma meritocracia — ao menos em campo — que deixou para trás os antigos estereótipos prejudiciais. Mas basta observar um pouco para ver que sua influência perdura. Estatisticamente, ainda é menor a probabilidade de jogadores negros atuarem como meias ou meio-campistas, por exemplo, e é muito maior a probabilidade de serem elogiados por seus atributos físicos como força e condicionamento do que por qualidades mais intangíveis como “inteligência” e “liderança". E parece que, muito raramente, recebem a oportunidade de defender o gol de um time europeu de elite.

Mendy aceita que cabe a ele ajudar a reverter o estereótipo. Ele diz que tudo que pode fazer é “mostrar que meu desempenho é desse nível, e quem sabe mudar a mentalidade das pessoas em relação a essas coisas". Mas, para aqueles que enfrentaram os mesmos preconceitos, que passaram suas carreiras com a esperança de serem agentes da mudança, isso é parte do problema.

Hislop, atualmente comentarista da ESPN, cita o caso de Jordan Pickford, atualmente goleiro titular do Everton e da seleção inglesa. Pickford vem sendo criticado nos anos mais recentes por suas falhas técnicas e pela tendência à rispidez. “Todos acabam sendo alvo de críticas de vez em quando", disse Hislop. A diferença é que, quando Pickford erra, “ninguém usa o desempenho dele para proclamar que os brancos são servem como goleiros", disse Hislop. Se Pickford errar, a única reputação afetada é a dele.

Para Hislop, os goleiros negros não recebem o mesmo privilégio. Ele disse que, ao longo da carreira, teve a sensação que cada erro individual era usado como prova conclusiva do fato de que todos os “goleiros negros erram". E isso não valia só para ele: na sua opinião, quando David James (goleiro do Liverpool, do Manchester City e da seleção inglesa) errava, esses erros eram tomados como prova sustentando o estereótipo.

Carlos Kameni, ex-jogador da seleção camaronesa que passou a maior parte da carreira defendendo o Espanyol na Espanha, se disse confiante de que a escassez de goleiros negros não seria “uma forma de racismo". Para Kameni, se o goleiro for bom o bastante, um dos grandes clubes europeus vai contratá-lo, e cita a chegada de Mendy ao Chelsea como prova disso. Para Kameni, o problema é muito mais simples. “Não há muitos goleiros negros suficientemente bons", disse ele em uma série de mensagens trocadas via WhatsApp.

Mas esses dois dados não são independentes. Para Hislop, o problema não está apenas nos técnicos, menos dispostos a dar a goleiros negros aspirantes uma oportunidade de mostrar seus talentos, mas também no fato de os jogadores negros terem menos exemplos de sucesso na posição. “Eles não têm a quem seguir", disse.

Os preconceitos podem ser denunciados, sejam eles explícitos ou não. Ciclos viciosos podem ser rompidos, ou até revertidos. Mendy, Gomis, Onana e os demais podem ajudar nesse processo. A vergonha, é claro, está no fato de isso ser necessário. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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