Gordinhos do futebol: não há perdão para o pecado da gula

Fisiologista diz que gordinhos como o atacante Walter, do Goiás, têm carreira abreviada. História mostra que craques foram punidos pela balança

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 08h11

SÃO PAULO - "Tá gordo o Geraldo, senhoras e senhores!! Essa era a maneira que o saudoso narrador Walter Abraão usava para descrever como o centroavante que defendeu o Corinthians entre os anos de 1975 e 1981 estava fora de forma. E o mais novo gordinho do futebol brasileiro é um outro goleador, Walter, do Goiás. Mas a verdade é que os 94 quilos distribuídos em apenas 1,78m não chegam a atrapalhar muito o desempenho do jogador, autor de 37 gols em 61 jogos pelo time goiano. Seis desses gols foram feitos no Brasileirão, em sua maioria por intermédio de chutes de primeira, demonstrando um grande potencial técnico.

Walter já assumiu que o excesso de peso se deve ao abuso de doces e refrigerantes. Aos 24 anos, ele dribla a maioria dos obstáculos impostos pela obesidade, mas seu futuro no futebol tende a ser curto, segundo o fisiologista Turíbio Leite de Barros, para quem o jogador está, no mínimo, dez quilos acima do peso. "Ele (Walter) joga carregando dois sacos de arroz de cinco quilos debaixo dos braços", afirmou. "Ele é um artilheiro, possui um potencial muito grande, mas sua longevidade será diminuída. Dificilmente ele vai conseguir se manter em bom nível após os 30 anos. A tendência é que encerre a carreira antes, pois deve aumentar ainda mais de peso com a idade e a chance de machucar tornozelo, joelho e quadril é cada vez maior", completou Turíbio.

Segundo o fisiologista, a falta de preparo físico de atletas como Walter é fruto de hábitos comportamentais. "A ansiedade também interfere bastante para a obesidade." O próprio atleta, em entrevista à TV Globo, admitiu que comia sempre um pacote de bolachas recheadas antes de dormir, acompanhado por três latas de refrigerante. A comissão técnica do Goiás proibiu as bolachas, mas liberou dois copos de refrigerante após cada vitória do Goiás.

FERAS DO PASSADO

O caso de Walter lembra o de outros jogadores que também sofreram com o excesso de peso. Coutinho e Edu, dois craques do Santos de Pelé, tiveram a carreira abreviada por causa dos quilinhos a mais. "Eu nunca estive fora de forma. Quem inventou isso foram vocês da imprensa", esbravejou Edu, por telefone, ao Estado.

Já Neto, que jogou pelos quatro grandes clubes de São Paulo e se tornou ídolo da torcida do Corinthians, hoje diverte-se ao contar histórias dos tempos de boleiro, mas antes da final do Campeonato Paulista de 1993, que o time do Parque São Jorge perdeu para o Palmeiras, o ex-meia ameaçou um repórter por ter escrito que ele estava fora de forma. Turíbio lembra de uma história curiosa de Neto: "Quando ele jogou no São Paulo, o Bebeto, preparador físico, amarrava uma corda no corpo dos dois e ia do Morumbi até a Marginal Pinheiros. O Neto perdeu três quilos e o Bebeto, cinco, porque tinha praticamente de carregá-lo".

E qual a solução para acabar com o pecado da gula? "O diagnóstico é sempre muito fácil. Difícil é resolver", disse Turíbio. "O jogador, assim como a pessoa comum, precisa controlar a alimentação e fazer exercício físico para atingir o peso ideal. Com os jogadores profissionais, é preciso conscientização de que o corpo é o seu instrumento de trabalho." Então, só resta a Walter fechar a boca para marcar seus gols por muito tempo.

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