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Governo suíço retira privilégio e Fifa pode ter suas contas examinadas

Justiça está liberada para investigar denúncias de corrupção na entidade: 'terão o mesmo tratamento dos piores ditadores do mundo'

Jamil Chade - correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2014 | 07h25

O governo da Suíça decide dar um basta aos privilégios dados à Fifa por décadas e, partir de agora, permitirá que a entidade seja processada por corrupção. A decisão foi anunciada pela Ministra da Justiça da Suíça, Simonetta Sommaruga, e já está causando um terremoto dentro da organização máxima do futebol. Na prática, as contas de Joseph Blatter e de sua "família" poderão ser regularmente vistoriadas depois que as autoridades locais reconheceram o prejuízo que a Fifa está causando para a imagem do país. 

"As contas dos dirigentes da Fifa terão o mesmo tratamento dado aos piores ditadores do mundo", declarou o deputado suíço Roland Buchel, um dos defensores de uma ação mais radical contra a corrupção na Fifa. Em junho, um grupo de deputados tentou passar uma lei no Parlamento estabelecendo uma autorização para que casos de corrupção em entidades privadas fossem alvo de investigações. Mas, diante do lobby de bancos e de multinacionais, o projeto foi derrubado, mesmo com entidades como a Uefa e o Comitê Olímpico Internacional se mostrando favoráveis.

Agora, por uma determinação administrativa interna, o governo optou por rever sua postura apenas para as organizações esportivas internacionais. Mais de 30 entidades esportivas estão na Suíça há décadas não apenas pela tranquilidade do país, mas sim por conta de seus acordos tributário e, principalmente, por conta de sua lei que impedia que casos de corrupção privada fossem alvo de processos judiciais.

João Havelange e Ricardo Teixeira chegaram a ser examinados pelos tribunais há dois anos. Mas o procurador não os condenou e, apesar de encontrar provas da corrupção, apenas estabeleceu que ambos pagassem uma multa milionária de volta para a Fifa, como forma de restaurar parte do prejuízo. 

Por anos, os privilégios foram dados às entidades esportivas como forma de atraí-las para o país alpino. Um estudo do governo chegou a demonstrar, em 2013, que a Suíça ganha cerca de US$ 5 bilhões com a presença dessas organizações em seu território. 

Agora, o governo estima que precisa adotar um novo comportamento diante do constrangimento público internacional que a Fifa passou a ser para a imagem da Suíça. 

Num comunicado, o governo deixou claro a mudança radical. "A corrupção privada será processada e reprimida, mesmo que não cause distorções na concorrência pública", indicou o Ministério da Justiça.  

A proposta tem o apoio tanto dos partidos de esquerda quanto dos populistas de direita, como o deputado Roland Buchel. "Pessoas como João Havelange cometeram atos de nepotismo e corrupção e sujaram a imagem do esporte", disse.

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