Grafite, um torcedor muito especial

"Minha vida é assim mesmo. Nunca sou feliz plenamente. Quando estou feliz em casa, não estou bem no futebol. E vice-versa. Mas é isso mesmo: tenho de batalhar sempre". Essa afirmação de Grafite foi dada no início de abril e, mesmo depois de três meses, continua valendo. O atacante do São Paulo, mais do que ninguém, passou por tudo na Copa Libertadores da América deste ano.Grafite não sentiu o gostinho de jogar a decisão do título. Ele ainda se recupera da cirurgia no joelho direito e só deverá voltar aos gramados em 2006. Se tudo correr mais rápido do que o previsto, ele pode até ter chances de disputar o Mundial de Clubes, em dezembro, no Japão."Com o tempo, a gente vai assimilando as coisas. Cada fase nova do tratamento é uma expectativa nova. Poder andar sem muletas, dirigir, me locomover sozinho me dá ainda mais motivação", contou o jogador, que fez questão de participar de toda a preparação que envolveu a decisão desta quinta-feira. Chegou até a ouvir a preleção do técnico Paulo Autuori e foi com o grupo do São Paulo para o estádio. E, claro, comemorou muito o título.São-paulino confesso, Grafite teve de ser um mero torcedor nessa final. "Quando era moleque, meu pai não deixou eu ir ao estádio. Agora, quando eu pensei que estaria em uma final, como jogador, aconteceu tudo isso. De novo, fiquei apenas na torcida", admitiu.Não é por não ter jogado a final que o título é menos importante para o atacante. Pelo contrário. Quem não se lembra do caso Desábato? O jogo contra o Quilmes que era para ser apenas mais um na caminhada do São Paulo rumo ao tricampeonato acabou na delegacia. De um lado, Grafite, e do outro, o zagueiro argentino acusado de racismo. O caso ganhou repercussão mundial e a Libertadores passou a ser tratada como caso de polícia."Eu só agi como um cidadão que se sentiu ofendido por um crime racial. Fui atrás de meus direitos", explicou o jogador, chamado de ?macaco? e ?negro de merda?.O episódio não abalou Grafite. E nem o São Paulo, que seguiu adiante na competição. Quando o inferno parecia ter ficado para trás e o reconhecimento da boa fase de Grafite chegava com uma convocação do técnico Carlos Alberto Parreira para os jogos da seleção brasileira nas Eliminatórias, veio um novo trauma: a contusão no joelho direito.Em um primeiro momento, uma cirurgia foi descartada. Mas depois que Grafite saiu carregado de maca na partida contra o Tigres, nas quartas-de-final, todos viram que o problema era muito mais grave. Falou-se em uma lesão no ligamento colateral lateral do joelho direito, mas durante a cirurgia os médicos perceberam que o ligamento cruzado anterior estava comprometido. Ou seja, fim de linha para Grafite na Libertadores - e possivelmente na temporada. A polêmica, no entanto, não abandonou o jogador.Em sua primeira entrevista após a artroscopia, Grafite colocou em xeque a competência dos médicos do clube. "Eu e o clube tivemos uma dose de negligência. Se a gente tivesse feito o exame de ressonância magnética, os problemas no meu joelho teriam aparecido e eu não participaria dos outros jogos", afirmou o jogador, na oportunidade.O mal-estar causado pela entrevista durou pouco. Grafite reconheceu que havia sido mal interpretado. Depois de um mês só andando com o auxílio de muletas, ele hoje está aliviado com a sua recuperação. "Agora começaremos os trabalhos na piscina e com carga na perna operada", explicou o fisioterapeuta Ricardo Sasaki.Quem sabe não seja o início da bonança depois de tantas tempestades na vida de Grafite.

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