Greves evidenciam crise no interior

Três dias após o anúncio oficial do novo calendário quadrienal do futebol brasileiro, o interior paulista mostra uma face pouco conhecida. Jogadores do Sãocarlense e do XV de Piracicaba estão em greve, nas vésperas da última rodada do Campeonato Paulista das Séries A-2 e A-3.Nem sempre o alto nível de seus adversários, os gramados em péssimas condições ou a pressão da torcida por resultados positivos foram as maiores dificuldades dos clubes do interior. O que se constatou antes, durante e depois da disputa do estadual foi que a falta de dinheiro em caixa representou o maior problema dos times nesta temporada e culminou com a greve dos jogadores, além de entraves com a Federação Paulista de Futebol (FPF).Os exemplos estão em todas as divisões. Na Série A-1, a elite do futebol paulista, a falta de estrutura e planejamento fizeram o Guarani, um dos clubes mais tradicionais do interior paulista, ruir diante da crise financeira. Sem recursos para contratar jogadores de bom nível e também para pagar os salários em dia, o time realizou uma pífia campanha no torneio, resultando no inédito rebaixamento à Série A-2. Até então, o Guarani nunca havia sido rebaixado desde o acesso, em 1949.No Paulista da A-2, um campeonato reconhecido como um dos mais competitivos do futebol brasileiro, não faltaram problemas decorrentes da falta de dinheiro. A competição terminará neste sábado com a realização de sua 30º e última rodada. Clubes como o Comercial, Araçatuba, Sãocarlense, Rio Preto, São José, Francana e Paraguaçuense tiveram dificuldades para manter em dia o pagamento dos salários dos jogadores, enfrentando greves e paralisações.O time de Paraguaçu Paulista também teve problemas e quase perdeu o mando do jogo contra o Santo André, no último dia 23, por causa do atraso de pagamento de taxas de arbitragem e doping à FPF. A diretoria do Comercial foi a campeã na emissão de cheques sem fundos para técnicos e jogadores enquanto a crise na Francana só acabou depois da substituição da diretoria.As tentativas de mudanças não salvaram o Sãocarlense, que trocou de técnico seis vezes e entrou de greve em quatro oportunidades. Os jogadores, nesta semana, se recusaram em participar dos treinamentos. Nem a intervenção das autoridades locais resolveu o problema. Mas o time que mais sofreu com a "seca" de recursos foi o São José, lanterna do torneio e um dos times mais ameaçados de rebaixamento. Além do atraso nos salários, a diretoria do clube também teve dificuldades para pagar as taxas referentes à federação e até para financiar as viagens e hospedagens do time durante a competição. Um jogador na Série A-2 ganha, em média, R$ 2,5 mil.Mais greve também na Série A-3. A questão da crise financeira foi assunto constante nas conversas de torcedores de times que disputam a terceira divisão do Campeonato Paulista. O vice-lanterna Taquaritinga teve dificuldades para pagar os salários dos jogadores. Duas vezes os atletas cruzaram os braços, deixando o time à beira da Série B-1.O XV de Piracicaba, outro clube tradicional no futebol paulista, sofre com uma das piores crises financeiras de sua história e tenta, de todas as formas, acertar os dois meses de salários atrasados junto aos jogadores e à comissão técnica. O caso mais grave aconteceu com o União Mogi, de Mogi das Cruzes, onde os jogadores fizeram uma rifa para ir à feira. Na véspera de um jogo contra o Noroeste, em Bauru, parte do elenco boicotou a viagem e o time apanhou de 7 a 0. A média salarial nesta divisão é de R$ 1,5 mil.Situações semelhantes pipocam em clubes de outras séries, como B-1, B-2 e B-3 que formam a quarta, quinta e sexta divisão, respectivamente. No total, são 107 clubes profissionais em atividade no Estado, envolvendo 86 cidades. Diante de tantos problemas, fica evidente que os dirigentes precisam fazer uma reflexão profunda na estrutura do futebol. A nova regulamentação sobre a "Lei do Passe" e a falta de organização nos clubes são as principais causas da crise.

Agencia Estado,

29 de junho de 2001 | 13h11

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