Rhona Wise/AFP
Rhona Wise/AFP

Grupo de agentes do futebol solicita doações para processar a Fifa sobre limites de transferências

Empresários tentam se unir para evitar que a entidade implemente limitação para comissões em negociações de atletas

Tariq Panja, The New York Times

30 de setembro de 2019 | 12h24

A organização que representa alguns dos maiores agentes do mundo no campo do futebol escreveu a seus membros pedindo uma contribuição para financiar o que espera ser uma "cara" disputa legal para impedir que novas regras a serem implementadas pela Fifa limitem as comissões que eles recebem no multimilionário mercado de transferência de jogadores.

A Association of Football Agents (AFA), federação que representa agentes e intermediários na Grã-Bretanha, que abriga o mais rico mercado global de transferência de jogadores, emitiu um apelo comovente para seus membros depois de a Fifa anunciar planos, no início da semana, para restringir severamente o dinheiro envolvido nas transações –  que chega às vezes a dezenas de milhões de dólares numa única transferência – que os agentes poderão ganhar quando jogadores mudam de times.

As novas regras deverão ser ratificadas pela liderança da Fifa numa reunião em Xangai marcada para 24 de outubro. A AFA, que tem como diretores representantes do atacante do Real Madrid Gareth Bale e o ex-técnico do Arsenal Arsène Wenger, informou a seus membros que a Fifa "renegou totalmente" seu compromisso de consultar o grupo antes de tomar uma decisão final. A carta enviada a seus membros traz dados de uma conta bancária para arrecadar doações que serão usadas no pagamento de honorários de advogado no caso de o grupo ir aos tribunais para contestar as novas regras estabelecidas pela Fifa. "Será uma disputa cara e necessitamos do seu apoio moral e financeiro", diz a carta, uma cópia da qual foi obtida pelo The New York Times. 

Os limites de comissões que os agentes podem receber, propostos pela Fifa, são parte de um amplo conjunto de mudanças no caso do mercado de transferência de jogadores e foram estabelecidos em meio a uma pressão crescente do público para regulamentar os US$ 7 bilhões ao ano do mercado de transferência de jogadores. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, manifestou desejo de limitar esses ganhos excessivos quando assumiu a função em fevereiro de 2016. Meses depois, documentos  vazados revelados por um site de hackers, Football Leaks, detalharam como o agente ítalo-holandês Mino Raiola obteve mais de 40 milhões de euros em pagamentos representando todas as três partes – o jogador, a equipe compradora e a equipe vendedora do jogador – na transferência por um valor recorde de Paul Pogba da Juventus para o Manchester United, em agosto de 2016.

Mel Stein, chairman da Fifa, disse que a organização está tentando "punir" agentes por negócios como o que envolveu Pogba, que, segundo ele, foi "atípica".

Com base nas regras propostas, as comissões pagas a agentes representando a equipe que vende um jogador ficam limitadas a 10%. O limite será de 3% para os que atuam em nome dos clubes que estão vendendo o atleta e para intermediários que atuam em nome do jogador. Os agentes não poderão mais trabalhar numa mesma transação para o clube que está vendendo e o que está comprando o jogador., o que, segundo a Fifa, tem por finalidade "proteger a integridade do sistema e impedir abusos". "Houve um processo de consultas com grupos representantes dos agentes de modo que suas sugestões foram levadas em conta", disse o porta-voz da Fifa em resposta à carta da AFA. "A Força Tarefa para o Sistema de Transferências” teve um diálogo aberto com os agentes envolvendo todos os aspectos das reformas propostas".

A AFA, grupo que, segundo afirma, contabiliza receitas anuais de mais de US$ 615 milhões, também escreveu para a Fifa advertindo que entrará com ação na justiça dentro de sete dias se as propostas não forem abandonadas.

"Não podemos aceitar regras que limitem nossas comissões ou restrinjam nossa liberdade de agir em nome de qualquer parte em uma transação", escreveu a AFA, qualificando as novas regras como "ilegais e anticompetitivas".

De acordo com dados divulgados pela Fifa, os agentes receberam mais de US$ 2 bilhões em cinco anos, de 2014 a 2018, uma cifra que é bem menor frente ao montante pago aos clubes como parte de chamado mecanismo de solidariedade separado destinado a recompensar programas de desenvolvimento de jovens atletas por sua função de produzir novos jogadores.

Stein, dirigente da AFA, acusou a federação internacional de futebol de "arrogância espantosa" por não se reunir com seu grupo antes de tomar uma decisão final no assunto e sugeriu que os excessos cometidos pelos líderes são os piores nunca vistos no seu setor. "Esteve nos escritórios deles?", disse Stein, referindo-se à Fifa. "Todo aquele mármore e ouro que está tirando dinheiro do jogo".

Controlar a crescente influência dos agentes no mercado global tem sido um problema para a Fifa desde que o valor do mercado de transferências e os preços dos jogadores mais cotados começaram a crescer exponencialmente em meio a um boom de receitas da TV que iniciou na década de 1990. Como parte das novas propostas que a Fifa analisará na sua reunião, está a dela assumir responsabilidade pelos agentes licenciados, um papel que abandonou há uma década. Na época admitiu que a tarefa, numa escala global, estava além das suas capacidades. 

Peter Kenyon, antigo executivo do Manchester United e do Chelsea, clubes gigantes da Premier League, sugeriu que os participantes da indústria do futebol encontrem uma maneira de contornar as novas regras, como fizeram em outros casos de regulamentação. E observou que não são os agentes que determinam o pagamento de comissões para os jogadores, mas os clubes.

"Ninguém tem de pagar um agente – é decisão de um clube e eles decidem pagar", afirmou. "Os clubes são ótimos em desejar que outros baixem um regulamento que torne mais fácil dizer não".

Tradução de Terezinha Martino

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