Grupo fechado

No começo da noite deste sábado (pelo horário de Brasília), a seleção entra em campo para enfrentar o Paraguai pelas quartas de final da Copa América. Saiba que, se o time da CBF ganhar e seguir adiante na competição, tanto faz se você comemorar ou não. Sua vibração pouco importa, não causa comoção para os atores principais. Eventual vitória não será oferecida ao torcedor, mas agradará apenas ao público interno. E, por público interno, entendam-se “jogadores”. 

O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 03h00

Quem deu o recado, desta vez, foi Willian, aquele do Chelsea, apontado como candidato a sensação no Mundial e que foi opção de banco para Felipão. Em tom de ligeira advertência e quase indiferença, avisou que o grupo no Chile não precisa provar nada. Mesmo assim, deseja conquistar a taça - para seus integrantes, não para mostrar coisa alguma para os demais. 

Willian não foi grosseiro nas declarações; apenas presunçoso. Além disso, revelou um modo de agir dos astros da bola hoje em dia, uma visão de profissão bem peculiar para quem se acostumou a ser incensado desde os primeiros chutes e raramente criticado.

Os moços jogam por e para eles mesmos, como se a plateia não existisse. Daí se entende a expressão “grupo fechado”. O torcedor não conta, exceto como claque para aplaudir - e olhe lá. Os atletas se bastam, na alegria e na tristeza, abstraem o mundo exterior. Não é por acaso que entram e saem dos vestiários com chamativos fones de ouvido. Só ouvem vozes interiores.

É possível alegar, em defesa deles, que tudo não passa de autodefesa, uma forma de negar pressão. Representação, fingimento. Talvez. Uma couraça às vezes se faz necessária, sobretudo num elenco colocado sob desconfiança pela ausência de nomes de peso (e sem Neymar), pela herança do vexame na Copa , pela associação à imagem péssima da entidade que representam. Daí a negação da realidade. 

Há componente cultural também. Nossos boleiros papagueiam chavões, que lhes são repetidos por treinadores e aduladores de todo gênero, segundo os quais “todos querem ganhar do Brasil”, “para a seleção tudo é mais difícil” e assim por diante. Esses mantras com frequência emperram a autocrítica e afastam os rapazes de alcançar aprimoramento. E, nos tempos que correm, necessitam mais de uma boa chacoalhada do que de tapinhas nas costas.

Quer dizer que era uma vez a Copa América, como já aconteceu com o Uruguai (com ajuda desastrada de Sandro Meira Ricci)? Claro que não. A seleção tem como superar o Paraguai, como em tantas ocasiões anteriores. Desde que se comporte como Willian mesmo disse, não sei se de forma sincera ou também como outro lugar-comum - e tendo a ficar com a segunda hipótese. “Precisamos jogar pra frente.”

Eis o ponto. Atacar esteve no DNA futebolístico brasileiro por gerações e gerações, nos séculos e nos séculos, amém. Está hoje? Não parece. Contra a Venezuela, na parte final, havia quatro zagueiros em campo, mais três marcadores. Um exagero, justificado pela necessidade de não dar espaço para surpresas. Cautela fora de hora e com um ano de atraso. Fosse a Alemanha... mas a Venezuela?! 

ADIÓS, VALDIVIA

O Al Wahda anunciou acordo com o chileno, que se apresenta após a Copa América. Termina assim a segunda passagem de Valdivia pelo Palmeiras. Sem brilho, melancólica, apagada no tom em que foi a contribuição dele no período de final de 2010 até agora. Valdivia tem talento, que só esporadicamente colocou a serviço do clube. Em compensação, foi o maior frequentador do departamento médico. Não deixa saudade, ao menos para quem pôde curtir como ídolos gente do quilate de Ademir, Julinho, Leivinha, Evair... Arrivederci. 

MP DO FUTEBOL

O relatório sobre o projeto que regulamenta dívidas dos clubes de futebol foi aprovado. Uma vitória da transparência. Falta ainda aprovação na Câmara e no Senado. Os donos da bola estão fulos.


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